O Sorriso do Buda para Um Gato Preto

O Sorriso do Buda para Um Gato Preto


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Certa vez, o Senhor da Luz Imensurável ouviu um miado próximo ao lago de lótus da Terra Pura, onde os lótus florescem com uma indescritível beleza. Prestou mais atenção no singular miado que lhe soava assim aos ouvidos: “Nyaaamu Amida, Nyaaamu Amida” em louvor ao seu Nome Sagrado.

O Sublime dirigiu sua sagrada atenção ao lago para ver de perto aquele que lhe dedicava tão devotado miado. Viu um gato preto, que de tão preto destacava se lhe mais ainda os olhos verdes brilhantes como as esmeraldas da Terra Pura.

O Tathagata, curioso, falou-lhe: “por que mias o Meu Nome?”

“Ó Venerável de todas as eras e de todos os mundos, em vida fui um gato doméstico, pertencia a uma jovem humana, filha de um de Vossos veneráveis monges. Eu morava num templo onde passei meus dias adormecendo sob o sol que entrava pelas janelas do templo enquanto o monge rezava dedicando-Lhe belíssimas recitações de sutras. Eu era indolente e preguiçoso, nunca prestei a devida atenção aos sermões de Vosso discípulo. Vivia perseguindo Vossos pequenos seres vivos como passarinhos, ratos e insetos. Apesar de estar cansado de ouvir dizer que todos os seres viventes estavam ali graças a Vossa misericórdia e que eu mesmo, vivia ali tão confortavelmente graças à Vossa eterna compaixão… Mas meu instinto era mais forte… eu vivia capturando os pequeninos. Minha dona conseguiu salvar muitas das minhas vítimas, ela se zangava comigo, mas eu nem ligava. Fui um gato muito mau, que sempre conseguia obter o que queria dos humanos, usando o meu charme e fazendo gracinhas”.

O gato parou de falar por um momento, querendo perscrutar alguma reação no rosto do Inabalável. Diante da Impassível presença, não teve como senão, continuar a falar.

“Minha dona vivia ralhando comigo, afirmando que eu jamais adentraria Vossa Terra Pura, por ter matado tantos pássaros. E que sendo a Terra Pura habitada por pássaros sagrados, eu não poderia sequer chegar perto… e agora me vejo diante de tão Sagrada Presença, e renascido em Vossa Terra Pura, mas não sou digno…”

Ouvindo o relato do gato, o Senhor da Terra Pura, observando os nervosos bigodes do gato preto, responde-lhe:

“Como podes ver, apesar de tudo que fizestes em vida, por fim, adentrastes a minha Terra Pura. Ora, fostes um gato e como gato vivestes plenamente a vida. Sendo para mim, o suficiente. O Karma de nascer como um gato, é viver como um gato a natureza do gato”.

Surpreso e feliz por não ter sido admitido na Terra Pura por engano, o gato em profunda reverência ao Senhor da Vida Imensurável, diz que de agora em diante protegerá os pássaros sagrados da Terra Pura, venerando-os por seus nomes, conforme o Sutra de Amida: Zasshikishichô,Byakkou, Kujaku, Oumu, Shari, Karyôbinga, Gumyôshichô…

E o gato preto saltita contente de volta ao lago de lótus.

Quando o Tathagata volta a ouvir o gato invocando reverentemente o Seu Nome “Nyaamu Amida”, não consegue deixar de sorrir. Um sorriso misericordioso, como só um Buda pode sorrir.

 Rev. Sayuri Tyô-Jun

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