O que ninguém quer ouvir, ver…

O que ninguém quer ouvir, ver…


Pinterest

É quase certo que ao nos aventurarmos numa prática espiritual, alimentamos muitas expectativas – duvido que uma única sequer “negativa”. Inconscientemente, podemos estar repetindo um processo sem fim de busca do “paraíso perdido” e apostamos todas as nossas fichas no novo “investimento”. Essa atitude às vezes fica estampada na face de muitos de nós ao chegarmos para nossa primeira experiência, quando a esperança de termos finalmente encontrado pelo que ansiávamos se renova uma vez mais. Não raro essa empolgação desaparece logo após a tal “experiência” (muitos julgam que já viram tudo o que havia para se ver com apenas uma pequena sessão de meditação!). Infelizmente, a realidade da prática quase sempre se mostra um “amargo” inverso do que esperávamos e a “má notícia” que a mestra Joko Beck nos traz nos excertos a seguir (extraídos de seu excelente “Nada de Especial – Vivendo Zen”, editora Saraiva, infelizmente esgotado) é que, enquanto mantivermos esta atitude, não haverá fim para a nossa decepção… a menos que comecemos a praticar de fato. E o que seria “praticar de fato”? Boa leitura. Gasshō

A verdadeira razão da prática é servir a vida da maneira mais plena e produtiva que pudermos.

“Se formos honestos, teremos de admitir que o que de fato queremos da prática – especialmente no começo, mas em algum grau o tempo todo – é um maior conforto em nossas vidas. Esperamos que, com uma prática suficiente, o que nos incomoda agora não nos incomode depois. Existem na verdade duas maneiras de abordarmos a prática, e que precisam ser citadas. A primeira perspectiva é o que a maioria de nós pensa que é a prática (quer o admitamos, quer não), e a segunda é aquilo que a prática na verdade é.

“Quando agimos movidos pela primeira perspectiva, nossa atitude básica é que empreenderemos essa prática difícil e exigente porque esperamos obter determinados benefícios pessoais dela. …depois de alguns meses de prática podemos começar a sentir que fomos ludibriados caso nossa vida não tenha melhorado. Entramos na prática com uma certa expectativa ou exigência de que ela, de alguma forma, irá incumbir-se de nossos problemas. Nossas exigências básicas são que nos sintamos bem e nos tornemos felizes, que tenhamos mais paz e serenidade. Esperamos não ter mais que aturar aqueles horríveis sentimentos de contrariedade, e iremos conseguir tudo o que desejamos. Esperamos que, em vez de ser insatisfatória, nossa vida se torne mais gratificante. Esperamos ficar mais saudáveis, mais à vontade. Esperamos ter melhor controle de nossa vida. Imaginamos que seremos capazes de tratar os outros melhor sem que isso seja inconveniente.

“Não há nada de errado em querer qualquer uma dessas coisas, mas, se pensarmos que alcançá-las é do que trata a prática, então ainda não a teremos entendido. As exigências são todas a respeito do que nós queremos: queremos ficar iluminados, queremos paz, queremos serenidade, queremos ajuda, queremos controle sobre as coisas, queremos que tudo seja maravilhoso.

“A segunda perspectiva é bem diferente: cada vez mais queremos ser capazes de criar harmonia e crescimento para todas as pessoas. Estamos incluídos nesse crescimento, mas não somos o centro dele; somos apenas uma parte do quadro.

“A prática diz respeito a deslocar-se da primeira para a segunda perspectiva. Existe uma armadilha inerente à prática, porém: se praticarmos bem, muitas das exigências da primeira perspectiva podem ser satisfeitas. Temos mais probabilidade de nos sentir melhor, de ficar mais confortáveis. Podemos nos sentir mais à vontade com nós mesmos. Uma vez que não estamos punindo nossos corpos com tanta tensão, nossa tendência é nos tornarmos mais saudáveis. Essas mudanças podem causar em nós a equivocada noção de que a primeira perspectiva é correta: que a prática é tornar a vida melhor para nós. Na realidade, os benefícios que auferimos pessoalmente são incidentais. A verdadeira razão da prática é servir a vida da maneira mais plena e produtiva que pudermos. E isso é muito difícil para a nossa compreensão, sobretudo a princípio.

“Nossas atitudes centradas em nosso ego têm raízes profundas e levam muitos anos de árdua prática para afrouxá-las um pouco. E estamos convencidos de que a prática diz respeito à primeira perspectiva, de que iremos conseguir alguma coisa dela que seja maravilhosa para nós.

“A verdadeira prática, contudo, é muito mais voltada para enxergarmos como nos ferimos e magoamos os outros com pensamentos e atos iludidos. É enxergarmos de que maneira magoamos os outros, talvez por estarmos simplesmente tão perdidos em nossos próprios pensamentos que nem sequer conseguimos vê-los. Posso saber como está indo a prática de uma pessoa vendo se seu interesse pelos outros está aumentando… A prática sempre é uma batalha entre aquilo que queremos e aquilo que a vida quer.

“Enquanto estivermos presos na primeira perspectiva, governados pelo desejo de nos sentir bem ou em estado de graça, ou iluminados, nós precisamos ser incomodados. Precisamos ser contrariados. Um bom centro e um bom instrutor trabalham para isso. Afinal de contas, a iluminação é apenas a ausência de todo interesse ou preocupação por si.

“A mudança da primeira para a segunda perspectiva é difícil… não acontece de um dia para outro. Ela pode ser acelerada por uma grande enfermidade ou um forte desapontamento, por uma perda grave ou outro problema sério. A prática zen é difícil sobretudo porque cria desconforto e nos coloca cara a cara com os problemas que temos em nossas vidas. Sentar em silêncio quando estamos contrariados e gostaríamos realmente de estar fazendo alguma outra coisa é uma lição que assenta pouco a pouco. Quanto mais reconhecemos o valor da prática, mais aumenta nossa motivação para praticar. Começamos a sentir algo. Ganhamos força para sentar e praticar dia após dia, para participar de sessões de um dia inteiro de prática sentada, para fazer um sesshin. 1 O desejo de fazer essa prática árdua aumenta. Lentamente começamos a compreender aquilo que meu antigo aluno (o aluno em questão estava com câncer se alastrando por todo o corpo – nota nossa) estava querendo dizer com a frase: ‘Agora eu sei o que é a minha vida’. Estamos equivocados se sentimos pena dele. Talvez ele seja um dos felizardos.”


Sesshin (retiro silencioso), um encontro de um ou mais dias de extrema dedicação à prática do Zen. Voltar

Imagem

Organização: Rodrigo Daien

Categories

+ There are no comments

Add yours