O que é o budismo?


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O que é o budismo? Tzal, Padma Dorje - Blog Sobre Budismo

As perguntas e respostas a seguir foram extraídas do site Tzal, por Padma Dorje.

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Estas são perguntas gerais sobre a natureza do budismo, e também perguntas que implicitamente revelam alguns desajustes sobre nosso entendimento usual das coisas e o que é efetivamente o darma.

O que é budismo? Seja breve.

O Budismo é um conjunto de métodos para atingir liberdade perante a insatisfatoriedade e desenvolver ao máximo as qualidades positivas. Entender e reconhecer a insatisfatoriedade e o que é insatisfatório é o pré-requisito essencial para ingressar na prática budista. Em geral, se temos um pequeno entendimento e reconhecimento destas coisas, é isso que faz com que nos interessemos pelo darma e nos dá um sentido de prioridade. Através da própria prática do darma, aperfeiçoamos e amplificamos esse reconhecimento da insatisfatoriedade e do que é insatisfatório, buscando revelar um estado absolutamente livre de insatisfatoriedade.

Dentro desses métodos há aspectos religiosos, filosóficos e científicos. Vinculados a esses métodos, há aspectos espirituais, culturais e psicológicos.

O que é budismo?

O budismo é uma tradição espiritual, religiosa e filosófica — poderia-se dizer “um processo civilizatório” ou “uma cultura trans-étnica” — que, por quase 3.000 anos, tem capacitado praticantes a eliminar os venenos internos da mente e os hábitos ilusórios. No oriente não existe uma palavra equivalente a “budismo”, e este conjunto de tradições é conhecido como Darma do Buda, “método do Buda”. Existem míriades de escolas, tradições e linhagens que utilizam o rótulo Darma do Buda ou Budismo para descrever suas atividades e ensinamentos. Estas tradições possuem atitudes, técnicas e ensinamentos diversos, e muitas vezes ao olho desavisado pode parecer que estas escolas entram em um ou outro ponto de contradição. Em alguns casos as escolas aceitam-se mutuamente como veículos — inferiores, superiores ou de igual valor — mas que levariam a um mesmo resultado final, ou ao menos a um bom resultado intermediário. Em outros casos aparece uma atitude sectária, onde escolas que consideraram os ensinamentos de outra ou de todas as outras como inadequados. De modo geral aceita-se que todos os desenvolvimentos do budismo e também de outras tradições religiosas não budistas, independentemente de evidenciarem algumas atitudes sectárias, servem a um tipo específico de necessidade de aprendizado por parte dos seres, por estes possuírem características diferentes. De modo geral quatro aspectos dos ensinamentos, chamados de “quatro selos”, são aceitos por todas as escolas budistas:

1) Sofrimento: Alguém que que não sofra ou não perceba o sofrimento dos outros não se esforçaria em um caminho espiritual que busca o alívio do sofrimento. E este já seria um motivo axiomático para a ênfase que o Budismo coloca no sofrimento, já que se a ênfase fosse dada em outra percepção os ensinamentos decorrentes disso seriam necessariamente outros — o que ocorre na maioria das outras tradições, que por isso mesmo não são chamadas de “budismo”. Fora essa concepção filosófica do significado imposto pela necessidade puramente argumentativa, há uma percepção aguda de como as coisas realmente funcionam, e o que acontece é descrito como “sofrimento” (insatisfatoriedade). Este sofrimento encompassa não só prováveis obstáculos e dificuldades no cotidiano, como também as angústias imutáveis da doença, da velhice e da morte, ou as angústias existenciais e individuais do sentimento de inadequação, incapacidade e falta de sentido. Portanto, mesmo que a pessoa acredite que não sofra, o que ocorre com os seres que passam por experiências boas e ruins é descrito pelo budismo como sofrimento, independentemente destes acontecimentos terem uma aparência de felicidade ou qualquer outra aparência. Isto é assim porque um ser que não perceba as coisas dessa forma, ou não queira aceitar este entendimento, independentemente desse reconhecimento ocorrer ou não, segue vinculado a essa experiência descrita como “sofrimento” pelo budismo. O Budismo embora mostre que o próprio sofrimento não é eterno (caso em que não haveria necessidade alguma de uma prática ou estudo espiritual, pois nenhum esforço seria capaz de nos livrar do sofrimento, e assim cairíamos no niilismo), enfatiza a percepção e o reconhecimento deste sofrimento como pré-requisito básico para a aquisição dos métodos (caminho) para erradicar o sofrimento (cessação).

2) Impermanência: É tanto um elemento do sofrimento quanto o elemento que permite seu fim. O Budismo percebe todas as coisas como mutáveis e livres de características próprias, ou de uma essência. Assim qualquer percepção sólida de uma existência individual interna ou externa é dita ilusória. O apego às ilusões, ou acreditar na permanência das coisas, é a causa do sofrimento. Sejam objetos materiais, convicções pessoais, o próprio corpo ou mesmo nossa personalidade, tudo isto inevitavelmente termina. As coisas nunca serão como já foram, e enfim nunca mais serão como são agora.

3) Cessação: O sofrimento é impermanente. Com o entendimento completo da natureza real das coisas (impermanência, sofrimento), as coisas existentes não surgem como entidades separadas e perecíveis, mas a essência única, ou ainda, a qualidade que transcende a existência e a inexistência de uma essência única, é percebida com clareza. Não mais “nascemos” com uma ideia de separação para nenhum fenômeno, para nenhuma situação particular. Além do espaço e do tempo, além de nome e forma jaz a mente límpida que o budismo almeja.

4) Emoções aflitivas: a razão essencial pela qual a complicação surge é o não reconhecimento, que é tido não só como uma ação de obscurecimento intelectual, mas também, e talvez principalmente, emocional. Nosso fechamento perante os outros produz uma miríade de hábitos e emoções complexas que nos impedem de aquietar a mente, o que é um pré-requisito para usar bem essa mente, isto é, usá-la para reconhecer a verdadeira natureza das coisas.

Quem foi o Buda, o que é “Buda”?

A palavra Buda significa “desperto”, e representa um ser que acordou para a verdadeira natureza das coisas. Num nível externo, histórico, quando dizemos “Buda” nos referimos ao príncipe Sidarta Gautama, que viveu cerca de 2600 anos atrás. Quando príncipe Sidarta se iluminou ele passou a ser chamado de “Buda Sakyamuni”, isto é, “o desperto do clã dos Sakyas”. “Sakya” era o nome do reino em que Buda nasceu, e que ficava na fronteira do que hoje são Nepal e Índia.

Num nível interno o Buda representa nosso próprio potencial como seres humanos, e o potencial de cada outro ser. Isto é, quando todas as qualidades estiverem desenvolvidas, e todos os obstáculos dissolvidos, o que se apresenta é um Buda.

Num nível sutil, Buda é a natureza verdadeira e livre de cada ser e fenômeno. Do ponto de vista de um Buda, não há a dicotomia Budas vs. seres convencionais.

Buda foi gordo?

Não consta que Buda Sakyamuni tenha sido gordo, mas muitas representações artísticas representam um Buda gordo, particularmente as chinesas. Há algumas explicações para isto. Em alguns locais, fala-se de um sincretismo com determinada deidade taoísta da prosperidade, ou a representação de um monge chinês famoso, e mesmo a ideia de que a gordura do Buda representaria fartura espiritual.

Buda foi/é um Deus?

A noção de Buda possui algumas semelhanças com a noção de divindade, mas há algumas diferenças marcantes. Buda é um ser completamente benévolo e onisciente, mas não é um criador e não é onipotente. Algumas pessoas gostam de enfatizar o aspecto humano do Buda, porque ele é um exemplo que podemos seguir, e com que podemos vir a nos identificar completamente, e não algo definitivamente superior. Por outro lado, o aspecto transcendente do Buda não é esquecido, e de fato, é idêntico ao aspecto transcendente de cada ser, e portanto é um aspecto transcendente completamente disponível a qualquer ser. Em outras palavras, a completa benevolência e onisciência podem ser obtidas por qualquer ser que se coloque nesta direção.

Buda é um salvador?

Em certo sentido o fato de haver um exemplo histórico nos salva de nunca virmos a saber que existe a possibilidade de virmos a ser um Buda. Por outro lado, se o Buda pudesse acabar com todos os nossos problemas, ele certamente já o teria feito, não nos deixaria esperando, ou exigiria algum tipo de devoção em troca. O Buda é portanto essencialmente um exemplo a ser seguido.

O que Buda ensinou?

Num sentido externo, o Buda ensinou por 42 anos, de sua iluminação até sua morte. Durante este tempo ele respondeu a todo tipo de dúvida e deu conselhos para pessoas em muitas circunstâncias diferentes. Muitos destes ensinamentos foram memorizados e posteriormente registrados em escrita. Um aspecto importante do budismo é que não é necessário conhecer tudo que o Buda ensinou, mas sim colocar em prática corretamente aquilo que chega até nós.

Os primeiros ensinamentos do Buda, que pautaram e estruturaram todos os ensinamentos subseqüentes, foram as Quatro Nobres Verdades.

A primeira Nobre Verdade diz que todas as experiências condicionadas são insatisfatórias. Ou seja, tudo que tem um início, tem um fim, e tendo um fim, não é, num sentido definitivo, satisfatório. Uma boa experiência nunca dura para sempre, e nunca estamos seguros de que uma experiência ruim não venha a surgir.

A segunda Nobre Verdade diz que a insatisfatoriedade surge principalmente de não reconhecermos as experiências condicionadas como verdadeiramente são, isto é, de gerarmos uma falsa expectativa quanto a elas, de nos associarmos a elas de uma forma errônea, tentando conseguir nelas o que elas nunca vão nos dar. Assim, as perseguimos incansavelmente, na esperança de que a próxima seja uma solução definitiva. Porém, a causa disso é essencialmente não as vermos como verdadeiramente são.

Algumas vezes a primeira e a segunda nobres verdades são traduzidas como “o mundo é sofrimento” e “a causa do sofrimento é o desejo”, mas o ponto principal é entender que o problema existe (nossa insatisfação), e que ele tendo uma causa, pode ser dissolvido. Então são a verdade de que há uma tensão, há uma complicação, que precisa ser reconhecida, mas que também é preciso reconhecer que esse problema não é natural, e sim possui uma causa.

Eliminando a causa, temos a terceira Nobre Verdade. Isto é, ao parar de atribuir às experiências condicionadas o poder de nos dar felicidade, reconhecemos a verdadeira natureza das coisas e de nós mesmos como inerentemente satisfatórias, num sentido que está além do que se poderia chamar de “felicidade condicionada”, isto é, que depende de condições externas ou internas para começar — e que portanto, um dia termina. A terceira Nobre Verdade nos revela o cessar da atribuição errônea de expectativas, e o repousar na perfeição do que já é, exatamente como se apresenta, sem artificialidade.

A quarta Nobre Verdade então nos dá um método para alcançarmos este estado, o que é chamado de Nobre Caminho Óctuplo, ou, podemos dizer, todos os métodos que o Buda ensinou são a quarta Nobre Verdade, que nos dá uma miríade de métodos de produzir o entendimento e aplicação das três outras Verdades como um modo de atingir a liberdade última perante nosso hábito de procurar a felicidade no lugar errado.

O Nobre Caminho Óctuplo começa com Visão Correta, que é o que chamamos de Refúgio, isto é, esforçar-se para perceber o que é confiável e o que não é. No caso, os ensinamentos espirituais genuínos, que levam a experiência além do início e fim, são confiáveis, enquanto que qualquer outra coisa que tenha um início e um fim não é confiável. Os próximos três passos nos levam a praticar moralidade em ações, emoções e pensamento. Enfim, no quinto passo, encontramos uma forma de nos relacionar com os seres que não é baseada em apego, aversão ou indiferença, isto é, a compaixão. No sexto passo fazemos prática formal, estabilizamos nosso corpo, pacificamos nossas emoções e focamos nossa mente, para no sétimo passo analisarmos a estrutura da realidade e reconhecermos liberdade em cada fenômeno. O oitavo passo é a liberação completa da insatisfatoriedade, o estado de um Buda, completamente benévolo, onisciente e livre.

Num nível interno, porém, os ensinamentos surgem de acordo com as necessidades dos seres. Embora todo o ensinamento genuíno possa ser descrito em termos desta estrutura, nem sempre um ensinamento genuíno se apresenta nesta estrutura. Isto ocorre para permitir que seres diferenciados tenham a possibilidade de praticar.

Num nível sutil, algumas vezes se diz que o Buda nunca deu ensinamento algum. Isto quer dizer que a fala do Buda é totalmente voltada as necessidades dos seres, e os ensinamentos surgem da própria mente destes seres ao se relacionarem com o Buda, isto é, de suas verdadeiras naturezas.

Existe algum livro sagrado no budismo onde se tenha registrado o darma?

Os ensinamentos do Buda foram primeiro registrados oralmente. Cerca de 200 anos depois da morte do Buda passaram a ser compilados em textos. As versões mais antigas existentes desses textos são chamadas de “cânone Páli”, porém existem cânones (isto é, bibliotecas inteiras, centenas de vezes maiores do que a bíblia) em todas as línguas asiáticas onde o budismo foi ensinado.

O cânone tibetano tem apenas cerca de 5% de seus textos traduzidos para linguas ocidentais, sem quase nada traduzido diretamente ao português até hoje.

Portanto a resposta é: existem milhares de livros sagrados onde se registrou o darma do Buda, e centenas de milhares de comentários por mestres do período clássico — possivelmente milhões do período tardio. Porém, para nos guiar na busca do texto onde começaremos, precisamos de um professor.

Todos os ensinamentos são, em verdade, a representação da visão última da própria iluminação?

Não, os ensinamentos são métodos para que os seres-mães alcancem o que conseguirem alcançar, então o Buda ensina também métodos temporários, que não estão ligados à iluminação.

Quando eles vêm do Buda, nesse caso eles sempre vêm da realização do Buda, mas o ensinamento não existe do lado do Buda, só do lado de quem o ouve: dessa forma, ele corresponde não só à sabedoria do Buda, mas principalmente à necessidade do ouvinte.

Esse é um ponto muito importante, e o motivo pelo qual as escrituras budistas não são “reveladas”, como as escrituras das religiões teístas, ocidentais e orientais. O Buda só fala de acordo com a realidade no sentido de um método para chegar a ela, e esse método está invariavelmente na dependência das capacidades dos ouvintes — então os ensinamentos são também vazios, isto é, livres e não requerem crença irrazoável ou obediência, e sim experimentação.

A iluminação não pode ser efetivamente expressa. O grande erudito tibetano Gedun Chöpel disse que os ensinamentos do Buda eram como as afirmações que alguém faz sob a mira de um revólver. Eles não são sequer verdadeiros, de acordo com a realização final do Buda. O revólver apontado ao Buda, aquilo que o força a dizer o que ele diz, é o sofrimento dos seres. Ele só fala o que fala, de forma a mitigar o sofrimento, nada que pode ser expresso pode ser verdade última espiritualmente falando.

Podemos definir o budismo como um caminho de poucos dogmas e mais sabedoria?

Nenhum dogma, pelo menos no sentido de algo que a pessoa precise aceitar cegamente. Sabedoria no budismo tem um sentido peculiar, mas sim, é o caminho do reconhecimento da vacuidade-interdependência, que é a realidade, portanto, sabedoria.

Por que o budismo não é uma religião?

Algumas pessoas, talvez por preconceito, talvez para enfatizar um enfoque não religioso do budismo, preferem o desvincular da noção de religião.

Embora o budismo promova o exame crítico de suas próprias doutrinas, e seja eminentemente um método que confia, em primeiro lugar, na demonstração empírica, e em segundo lugar na inferência racional, ele não está destituído de fortes noções que normalmente consideramos como propriamente religiosas, tais como fé e devoção.

Então com certeza existem elementos religiosos no budismo. Para algumas pessoas eles podem ser centrais.

Por outro lado, todas as outras religiões são tidas como teístas, e o budismo, no que ele possui de mais profundo, não é teísta. Nesse sentido fica difícil definir o que realmente é o budismo, e de fato, talvez seja desnecessário, já que o próprio budismo se diz “darma do Buda”, isto é, ensinamento, método, daquele que vê a realidade tal como ela é. Dessa forma, podemos admitir a classificação como religião, porque há elementos religiosos, e por outro lado, podemos dizer que o budismo vai além dessas classificações, particularmente de terminologias peculiares a outras culturas e tradições.

Como o budismo interpreta o conceito de “religião”?

Não há conceito de religião no budismo, ou, até onde eu saiba, na maioria das tradições e línguas orientais. Nós partilhamos com os hindus, com diferenças, o conceito de darma. Darma é o que apóia, dá suporte, ou seja, o método que produz o resultado, ou o próprio resultado, o estado de Buda.

O budismo pode ou não ser classificado como uma religião. Ele não é uma religião porque não possui escritura revelada, ou um criador. No sentido de que há práticas devocionais, daí nesse sentido, dá para chamar de religião. O budismo busca “religar” a pessoa a sua própria natureza — dá para dizer isso também.

Algumas vezes o mais adequado é dizer “civilização budista”, porque é um conjunto tão vasto de ensinamentos, elementos culturais, religiosos e práticas (espirituais, mundanas), que nem mesmo a palavra cultura ou tradição talvez sejam suficientes.

Por que budistas de modo geral não são proselitistas?

Vários motivos. O que está por trás de tudo é que é o próprio mérito da pessoa que vai fazer com que ela se conecte ou não aos ensinamentos. Para as outras pessoas, não interessa o quão inteligentes ou capazes, elas vão achar que é o mesmo que capim para uma onça. Não vão ter o menor interesse.

Muitas pessoas pensam que através do raciocínio elas podem descobrir o que é melhor ou pior — mas isso só acontece se elas começarem o raciocínio com boas condições. Apenas raciocinar semi-aleatoriamente, isto é, seguir algumas pistas por alguns minutos, dias, meses, não vai produzir qualquer resultado — especialmente se ela tiver obstáculos adicionais como premissas ocultas (dela mesma), e tiver gosto por aquilo que é contraproducente.

Como o mérito é da pessoa, ela não tem ninguém a agradecer ou culpar por sua conexão com isso ou aquilo. Essa conexão é responsabilidade dela. Ainda que pareça semi-involuntário a pessoa gostar disso ou daquilo, segundo o budismo esses são hábitos que ela tem cultivado há muito tempo.

Depois, por sua natureza, o próprio dharma é algo a ser protegido. Um dos votos de um bodisatva é não ensinar a alguém que não tenha requisitado. E na minha própria experiência, essa requisição tem vários níveis de profundidade. Ao lidar com os visitantes num centro onde morei por um par de anos (que chegavam até 1000 e algumas centenas de pessoas num domingo de sol), a gente percebe a diferença entre curiosidade de turista e curiosidade pelo dharma. E realmente, se você começar a fazer um discurso para um turista que é meramente curioso, ele vai se entediar muito rápido. Muito ocasionalmente surgem perguntas num contexto autêntico, isto é, de uma pessoa que se interessa ou tem o potencial de se interessar pelo dharma — e não apenas está fazendo um trabalho para a escola, ou tem uma curiosidade superficial bem articulada. Em todo caso, todos que perguntam ou vão a um centro de darma geram algum nível de conexão, e os meios hábeis surgem para o tratamento dessa conexão de um modo respeitoso, mas de acordo com a capacidade e disponibilidade do ouvinte.

O dharma tem ensinamentos externos, internos e secretos. Os ensinamentos externos são os que beneficiam a todos, indistintamente, e podem ser ensinados abertamente — não há problema nenhum falar a um visitante sobre carma, ou mesmo shamata, por exemplo. Depois, os ensinamentos internos ocorrem no contexto íntimo de uma relação continuada com um professor — de nada adianta ou serve falar sobre obstáculos muito sutis de shamata para alguém que meramente começou na prática. Depois de alguns anos, no entanto, é essencial. O tratamento se refina.

Enfim, o aspecto secreto dos ensinamentos se dá por uma série de razões. Uma delas é que certos ensinamentos, ao serem dados no contexto errado, causam obstáculos. Outra é que os próprios ensinamentos só são compreendidos por aqueles que fizeram certos experimentos até a conclusão. E há ensinamentos que seriam desastrosos para qualquer um a não ser um ouvinte em particular.

Em todo caso, é preciso respeitar as limitações, nossas e dos outros. Assim, é impossível convencer alguém, e se for possível, é um remendo — a pessoa precisa convencer a si própria, caso contrário não há estabilidade.

As razões que levam a alguém se conectar com o dharma são as mais variadas. Eu mesmo por muitos anos achei o budismo uma curiosidade interessante, até que conheci a sanga, e principalmente os lamas. Embora o budismo fizesse algum sentido para mim, o que me convenceu foi o exemplo pessoal dos praticantes, não argumentos.

Como fazer o budismo chegar a todas as pessoas? Será que os ensinamentos não são muito abstratos? Parece que exigem um certo intelecto.

Essa é uma característica de alguns professores, outros professores ensinam de forma simples e de fato atingem muitas pessoas.

Por outro lado, não é objetivo do budismo fazêr o budismo chegar a todas as pessoas. O benefício, e a iluminação, devem ser desejados para todos — não métodos específicos.

O budismo é tão complexo quanto se parece por fora, ou o que complica é a falta de materiais em português?

Tem budismo simples para quem tem mérito para budismo simples, e tem budismo complicado para quem tem conexão com complicação.

“O Budismo é um sistema de autodisciplina mental”, dizem alguns autores. Este significado foi corretamente delimitado?

O treinamento da mente é um aspecto essencial do budismo. Agora, as palavras “auto” e “disciplina” se encaixam realmente mais no veículo fundamental, o hinayana.

Por exemplo, no vajrayana você utiliza uma outra pessoa, o seu guru, para desenvolver o treinamento da mente. E com certeza em todos os âmbitos você usa a sanga. Então é “auto” no sentido de que você tem responsabilidade pelo seu treinamento, mas não é “auto” no sentido de que o treinamento ocorre em comunidade ou sob a supervisão de alguém — em pelo menos algumas formas de budismo — na verdade a grande maioria delas.

Quanto à palavra “disciplina”, ela se encarrega apenas do que é artificial no caminho, isto é, daquela conduta que é treinamento pelo treinamento. Quando falamos de ética, então estamos falando do que é natural ao caminho, do que se coaduna com a realidade. Ambas disciplina e ética são importantes, mas a ética deveria ser mais enfatizada. A disciplina e a ética são o ponto central do hinayana, enquanto o mahayana não as abandona, seu ponto central é a análise contemplativa sistemática — e o foco do vajrayana é a própria sabedoria, sem também, é claro abandonar a fundação do hinayana e do mahayana.

Quem é aquele Buda barrigudinho?

A imagem do Buda barrigudo é ou pode ser 1) um dos alunos do Buda; 2) uma deidade taoísta sincretizada no budismo; 3) um monge chinês. Tornou-se muito popular no Brasil por algum motivo. Algumas vezes também se diz que é 4) o Buda ou Bodisatva Maitreya, o próximo Buda.

Não consta que o Buda Shakyamuni fosse obeso em qualquer tempo de sua vida. Ele chegou a ser bastante magro durante o período de ascetismo.

Se eu tento dizer alguma coisa a Buda, pedir a ajuda dele, ele me ouve? Ele sabe quem eu sou? Se compadece de mim verdadeiramente? Tem algum poder para me ajudar? Onde ele está?

O Buda deixou 84.000 métodos que podem ser praticados por qualquer um que se aplique neles. Essa foi sua grande compaixão. Algumas formas de budismo realmente lidam com o aspecto devocional, e de fato seria estúpido dizer que a compaixão e a sabedoria do Buda não chega a todos. Porém, o Buda não é onipotente, se fosse, todos já estariam iluminados.

Na doutrina dos três corpos do Buda (trikaya), há o darmakaya, que é atemporal, não-local e tudo permeia. O sambhogakaya, que surge para os seres que reconhecem os fenômenos em sua natureza pura, e o nirmanakaya que se manifesta na história, como o Buda Sakyamuni, por exemplo, 2600 anos atrás. Os três corpos não são separados, eles só surgem nessas três formas de acordo com nossa capacidade.

Para os seres que precisam de um teísmo paternal (e quem de nós pode dizer que não estará em um apuro em que só o que vai restar é apelar para isso?) há métodos que efetivamente produzem benefícios, como simplesmente lembrar do Buda. Meramente recordar o Buda traz incomensurável benefício, para qualquer um, acreditando nisso ou no Buda, ou não.

No Budismo, temos aliados e protetores invisíveis?

Nós nos relacionamos com os seres dos seis reinos, quatro dos quais não temos acesso pela visão. No entanto, os melhores amigos espirituais são os professores de carne e osso, humanos. Os outros seres podem ajudar ou prejudicar, mas não necessariamente possuem sabedoria, portanto a interação com eles, por “sutis” que sejam, não é espiritual a não ser que esteja subordinada a prática espiritual.

Um problema grave que o budismo tibetano, por exemplo, enfrenta, é o foco excessivo em “protetores” (entre os quais as deidades hindus são geralmente também incluídas). Eles servem a todo tipo de proposito mundano, como saúde e prosperidade — que podem, ou não, apoiar a prática espiritual. Em todo caso, o problema é o foco excessivo, e Sua Santidade o Dalai Lama vez que outra adverte contra a transformação da prática espiritual num mero pedido de favores a deidades mundanas. Na prática do tantra essas deidades são subordinadas a deidade central da mandala, que possui sabedoria, e é inseparável do próprio praticante e do lama. Quando os protetores se tornam o foco de pessoas que não mantém essa inseparatividade do lama, deidade e si mesmo inquembrantavelmente, não há sabedoria na prática, e torna-se um mero invocar de espíritos por ajuda mundana.

Chagdud Rinpoche, num vídeo encontravel na internet diz “the real protector is the lama”, o protetor verdadeiro é o lama.

Em algumas situações de grande perigo, há alguma coisa invisível que nos protege ou pode proteger independente da ação que se resolva tomar? Há alguma maneira “sobrenatural” de evitar esses perigos?

Independente da sua ação, claro que não. Essa coisa invisível que te protege não é nada mais nada menos que sua própria lucidez natural. Então, se você deliberadamente for contra o que se mostra lúcido, não há como você se proteger.

Em outras palavras, Chagdud Rinpoche costumava dizer que as bênçãos dos seres de sabedoria estão sempre presentes, mas como a água da chuva, se você não virar a bacia de forma que possa captá-la, você não recebe nada. Se os Budas pudessem ajudar independentemente de sua capacidade de se conectar com essa ajuda, ninguém teria problema algum. Porém, você precisa fazer sua parte. A sua parte é o revelar e o criar intimidade com sua própria lucidez, que é a fonte de todos os Budas.

Por outro lado, se você se relaciona com a sangha em todos os níveis, mesmo no nível sutil, a sangha sutil pode lhe ajudar: como pessoas de carne e osso também podem. Mas isto está na dependência direta de sua própria lucidez, e em segundo lugar com o seu cultivo dessas conexões.

Para que serve o budismo?

Segundo o próprio budismo, para alcançarmos felicidade temporária (conforto, longevidade, boas relações, prosperidade, inteligência, beleza e vigor) e definitiva (a iluminação) e para que tais coisas sejam alcançadas por todos os outros seres-mães.

O budismo nos aconselha a não simplesmente acreditar nessas possibilidades e finalidades do método budista, mas sim colocá-lo em prática pelo menos por tempo suficiente para que certas melhorias sejam evidentes. Isto é, no mínimo alguns meses ou anos de prática diária e aplicação cuidadosa na vida cotidiana de acordo com as instruções de um professor qualificado.

Como Buda decidiu que ele deveria meditar e alcançar a iluminação, ele teve uma visão ou algo similar?

Ele reconheceu a impermanência, depois dukkha (as diversas formas de insatisfatoriedade presentes em todas as coisas), e enfim viu um praticante espiritual (uma pessoa com manto) e resolveu praticar.

No Budismo, o que leva alguém a encontrar a doutrina que poderá libertá-lo do sofrimento? Sorte? Predestinação? Forças invisíveis?

Essas coisas não existem. Mérito, isto é, carma positivo — amealhado tanto deliberadamente nessa direção, quanto mero carma positivo de boas ações em geral, amealhado de forma fortuita. Apenas carma positivo em geral não é suficiente, mas algum carma positivo amealhado para este fim é necessário.

Algumas filosofias dizem que devemos controlar nossas paixões e que estas nos levam à perdição. As pessoas passionais (os latinos, por exemplo) estão erradas?

A frieza também é uma paixão, portanto, não há povo em melhor situação. Quer dizer, pode até haver, mas é impossível traçar generalizações úteis com base em uma característica estereotipada.

No budismo existem métodos para controlar as emoções (inclusive a frieza, a falta de afeto, a falta de vontade), mas estes são métodos inferiores. Os métodos superiores utilizam de antídotos para as emoções aflitivas, os as próprias emoções aflitivas, transformadas através do refino em sua natureza essencial, livre de delusão, e portanto livre dos aspectos nelas que causam sofrimento.

Para cortar o sofrimento, é preciso cortar o desejo. Mas isso não é limitar, de certa maneira, a existência?

Para eliminar a insatisfação é necessário abandonar o hábito de depositar confiança em objetos que só podem produzir insatisfação. Não é necessário abandonar os objetos, apenas a crença ignorante e arbitrária de que são eles que vão nos fazer verdadeira e duradouramente felizes.

O Buda usou, literalmente, as palavras dukkha e trishna, que são mal-traduzidas como sofrimento e desejo. Dukkha é melhor como “insatisfação”, mas nem mesmo isso é correto. É uma certa ângustia subjacente a todas as experiências boas e ruins. Essa angústica não está nas coisas boas ou ruins, ou na fonte deles, e sim numa visão equivocada delas, como fonte de felicidade verdadeira. Isto é, expectativa. Colocamos expectativa em que as coisas boas durem e as coisas más se dissipem. Essa expectativa, trishna, literalmente “sede”, é que deve ser eliminada, para eliminar insatisfação, angústia, dukkha.

O Buda recomenda que a pessoa realmente analise as coisas em que está depositando confiança, e gerando expectativa, e que perceba, em cada uma delas, uma semente de insatisfação. Dessa forma a pessoa pode se orientar melhor por aquilo que nunca produz insatisfação, e sim traz felicidade duradoura e verdadeira: o reconhecimento da realidade como ela é, livre dos filtros distorcedores das expectativas e dos medos.

Qual o melhor meio para não ter expectativas?

Reconhecer a insatisfatoriedade, a impermanência e a ausência de uma essência — através da prática do darma. É bom lembrar que não ter expectativas é um estado de frescor, liberdade e bem-aventurança. Não é nenhum tipo de apatia ou falta de vontade.

Como cultivar a felicidade interior que independe das circunstâncias? Isso só é possível após a iluminação ou está acessível às pessoas comuns?

Através da prática isso é possível muito antes da iluminação. Sem praticar tanto assim eu mesmo percebo hoje que sou muito mais livre perante o que os outros pensam de mim, sobre situações caóticas, amedrontadoras ou entediantes — e assim por diante. Qualquer barulho antes me tirava do sério. Hoje, depende do dia, mas há dias em que estou bem estável — podem gritar comigo ou me elogiar e não estou nem aí. Outros dias eu perco tudo com qualquer coisinha. Mas acho que há uma pequena melhora geral ao longo dos anos que atribuo principalmente a prática de shamata, mas de forma secundária a simplesmente ficar mais maduro mesmo.

Uma pessoa boa, com bom caráter, que ajuda a família, que não engana ninguém, esperta, mas com certos vícios como fumar, beber, transar muito, ser arrogante e orgulhoso com quem incomoda ou dormir demais… uma pessoa assim está em que “estágio de evolução”?

Não existe medida evolutiva em generalidades. Uma pessoa normalzinha é apenas uma pessoa normalzinha, não é um praticante espiritual. Uma pessoa que se esforça coerentemente num caminho é um praticante, independente de quaisquer defeitos que ele apresente.

Que tipo de música um budista gosta de ouvir?

O gosto musical não é condicionado pelo budismo. Certos votos monásticos, e laicos durante alguns períodos, impedem o entretenimento.

A arte seria só uma distração? Tudo que não seja meditar é distração?

É possível praticar em meio a qualquer coisa, até mesmo arte, até mesmo entretenimento. O que algumas vezes se percebe, em ambientes mais arrogantes, é uma sacralização e glorificação da arte — isso pode ser melhor

O que o budismo pensa sobre festa, rave e etc? Ilusões?

Sim, claro que são ilusões. Como a prática budista, ou o próprio Buda. Os budistas não-monásticos podem se divertir com festas de qualquer tipo, desde que não consumam álcool ou drogas (algumas escolas admitem algum uso de álcool). Os monges, como parte de seu treinamento monástico, também totalmente artificial e ilusório, não podem ouvir música ou dançar.

Meditar ajuda a ser mais criativo?

Não necessariamente. Gerar mérito sim, então a meditação, na medida em que gere mérito, pode ajudar na criatividade. Porém se esse for o objetivo da prática, então estamos falando em meditação terapêutica, e não de meditação budista.

Qual a importância do humor no budismo?

Nenhuma importância particular, além de trazer algum benefício temporário aos seres, e algumas vezes ser uma forma de conectar as pessoas. É um meio hábil muito comum de professores budistas, que em geral tem um excelente bom humor.

Buda chorou alguma vez?

Não consta uma ocorrência assim, embora o Buda tenha passado por grande turbulência interior quando reconheceu que todos nós estamos fadados a doença, velhice, morte e nascimento. Ele fez um voto de encontrar uma solução para estes quatro problemas e levar essa solução a todos os seres, o que ocorreu na sua experiência de iluminação e subsequentes ensinamentos.

Marpa, um dos grandes lamas da tradição tibetana, chorou quando seu filho morreu. No Zen também há histórias de grandes mestres que choram. Em resumo, se for para o beneficio dos seres, um mestre pode manifestar qualquer emoção humana. Isso não quer dizer que os mestres não sintam compaixão, óbvio que sentem, mas eles podem ou não manifestar isso, e isso só depende do que esse exemplo pode trazer para os seres.

Consta que no velório de Shunriu Suzuki Roshi, um dos mestres do Zen que levou os ensinamentos para os EUA, Chögyam Trungpa Rinpoche chorou abertamente — isso é relatado por um dos alunos de Suzuki Roshi como uma grande liberação e licensa para os alunos do Roshi, que estavam “se segurando”. Então além de demonstrar o sentimento, Trungpa Rinpoche deu um ensinamento e “autorizou” a sangha a sentir a morte do mestre.

Se este mundo é um mero sonho, tudo que não está alinhado com o propósito de escapar dele é futilidade? Nada que está aqui presta?

Escapar do sonho e do mundo é acreditar demais nele. Não há nenhuma necessidade de escapar do sonho — se ele é um sonho, basta vê-lo como ele é. O sofrimento dos seres que sofrem é real para eles, a compaixão é o reconhecimento disso e a ação dentro do sonho, de acordo com o sonho dos seres. Mas a sabedoria de reconhecer o sonho como sonho é essencial. Fugir do sonho é transformar o sonho em algo que possui alguma realidade. Ele não possui nem mesmo realidade suficiente ao ponto de que precisaríamos fugir de algo ou rejeitar as coisas e pessoas. No budismo, a renúncia superior é a renúncia à reificação do sonho, a tornar o sonho algo existente, sólido, capaz de nos perturbar. É uma renúncia muito inferior aquela que rejeita o sonho ou conteúdos específicos do sonho: esse tipo de renúncia é só indicada para aqueles com muito pouca compaixão, pouca coragem e fraco entendimento. E nós não queremos ser estes, não é mesmo?

Budistas pedem ajuda para deuses e deusas?

Não há nada de errado com isso, desde que fontes de refúgio não-confiáveis não sejam tomadas como refúgio, e desde que a nada seja atribuído permanência ou substancialidade — e em geral, se a pessoa busca liberação como prioridade, ela não se envolva com pedidos temporários como prioridade. (Em outras palavras, ela pode até pedir felicidade temporária, desde que essa não seja prioritária.)

Existem energias sutis no budismo? Como energias recebidas e enviadas por orações, méritos etc…

O que não existe no budismo, ou o que só existe em termos da ignorância, são coisas grosseiras e sólidas, coisas que não seriam feitas de tecido de sonho. É importante fazer a distinção, caso contrário se fica pensando que no budismo se acredita em algo mais — que se acredita em coisas a mais — não! nós acreditamos em menos coisas que uma pessoa embuída de senso comum. O problema de uma pessoa que quer se tornar praticante não é adicionar uma crença, mas retirar muitas das crenças tomadas por garantidas — a principal delas a de que este mundo tem solidez verdadeira e é mais do que um sonho.

Supondo, por exemplo, que tirasse nota baixa em um exame, praticando o budismo eu não deveria me incomodar ou entristecer com isso?

Se a sua motivação é apenas “não sofrer”, então, tudo bem — você não deve se preocupar com sua nota, e a única obrigação que você deve cumprir é entender a raiz do sofrimento e trabalhar para eliminá-la. É por isso que as pessoas que normalmente se focam apenas em eliminar o sofrimento — o que é um caminho budista legítimo — em certo sendo abandonam o mundo e tornam-se eremitas ou monges. Aí, nesse caso, eles só vão se preocupar com notas baixas caso a falta de conhecimento que eles demonstraram diga respeito diretamente a diminuir o sofrimento.

Já no caso da motivação maior de eliminar não só o próprio sofrimento, mas o de todos os seres-mães, e não só isso, mas desenvolver as qualidades todas de um Buda, bom, nesse caso a pessoa não poderia abandonar o trabalho contínuo pelos seres-mães, e se isso inclui respeitar obrigações e deveres, ou uma obrigação ou dever em particular, por mais desagradável ou difícil que seja, por essa motivação maior não deve haver desencorajamento.

E com certeza, mais do que tudo, não devemos usar o darma como uma desculpa para o desleixo. Que o desleixo ocorra, por nossos hábitos arraigados, até certo ponto, tudo bem. Adicionar a essa falta a visão errônea de se desculpar através do darma do Buda, isso é extremamente desvirtuoso.

Em todas as circunstâncias em que algo desagradável ou difícil tiver que ser feito, e pensarmos no darma como uma escapatória, devemos tomar muito cuidado. Na maior parte dos casos é uma mera desculpa.

Basta olhar para as extremas dificuldades que os professores budistas do passado enfrentaram sem se desencorajar. Porque nós achamos que temos mais mérito do que eles, e que as coisas para nós serão mais fáceis? Mais do que isso, porque achamos que os seres-mães que eles ajudaram eram mais fáceis de ajudar do que os seres-mães que temos que ajudar?

No budismo só o que você deve abandonar são as emoções aflitivas: raiva, inveja, orgulho, apego e ignorância. Qualquer coisa que você precise fazer, você deve fazer — apenas sem esses venenos. Não se importar com uma nota baixa é bom, mas isso não significa parar de se esforçar por uma boa nota. Se você só se esforça por uma boa nota pela boa sensação que essa nota porventura lhe traria, então essa não é uma boa motivação. Você deve ter a motivação de ser bem sucedido para beneficiar os outros e dar bom exemplo.

Mesmo que o sistema de conceitos e notas seja naturalmente baseado em competitividade, inveja e orgulho, não precisamos nos envolver com essas emoções aflitivas. Devemos nos ocupar do que é importante na educação, que é aprender, e se disso não vierem boas notas, paciência.

Se a natureza causa sofrimento a todos os seres, porque evitar o sofrimento e porque acreditar na extinção deste?

Não é a natuereza que causa o sofrimento, são as emoções aflitivas. Nós as achamos naturais, mas elas são artificiais. O estado natural é livre de sofrimento.

Passar a vida buscando a iluminação e morrer sem atingi-la não é o mesmo que passar a vida correndo atrás de qualquer outra coisa (ilusória ou não)?

Não, porque a crença na iluminação inclui várias existências (no tempo, no espaço) portanto qualquer progresso naquela direção é o único sentido que poderia haver para qualquer existência singular.

Por que será que algumas pessoas maltratam tanto os animais?

Segundo o Buda, e isso é algo repetido frequentemente pelo proprio Dalai Lama, as pessoas cometem maldades contra os outros e contra si próprias porque desconhecem as verdadeiras causas da felicidade e do sofrimento.

Existe casamento no budismo?

Em todas as culturas budistas existe o casamento — mas o casamento não é necessariamente um assunto religioso. O casamento como um “sacramento”, portanto, não é comum, e as cerimônias budistas de casamento se originaram de uma necessidade das pessoas — muito possivelmente ao comparar com os belos casamentos católicos, ou algo assim.

Da mesma forma que você, se você é fazendeiro, leva um animal de carga para que o sacerdote abençoe, você pode levar sua esposa/esposo para ser abençoado. “Casamento budista” é como consagrar ou abençoar qualquer outra coisa. E você pode fazer isso com qualquer coisa e aspecto da sua vida: resta ter em mente como não desperdiçar o tempo do sacerdote.

As cerimônias de casamento que eu presenciei são muito simples. Cada um oferece e recebe uma echarpe do professor (que é algo que se faz sempre quando se encontra um professor, ou a cada vez que se faz uma oferenda), e ele pode falar por algum tempo sobre como praticar as seis perfeições, por exemplo, no casamento. Alguns casamentos assim duraram menos de 5 minutos. Algumas vezes os noivos podem patrocinar pujas, principalmente de prosperidade e longevidade — que também podem ser patrocinadas fora do contexto do casamento.

O casamento budista se assemelha de alguma forma ao cristão? Exige-se castidade? Virgindade? É para a vida toda?

Casamento, no budismo, é assunto civil, da cultura. Não existe uma noção de “sacramento”, como no cristianismo. O Budismo se adaptou a dezenas, talvez centenas, de culturas ao longo de seus 2600 anos, que tinham maior ou menor ênfase no casamento e nesses atributos secundários — de toda forma, são irrelevantes para o budismo.

O Budismo está imerso em culturas que tem formas de família muito parecidas e muito diferentes da cristã. Existem até mesmo culturas budistas onde a poligamia e a poliandria são comuns. (O proprio Buda, antes de assumir a disciplina monástica, era polígamo). Tudo é impermanente, portanto não existe casamento para sempre, no máximo o que vai acontecer é um morrer antes do outro. Virgindade é um valor em algumas culturas budistas, em outras não faz importância alguma. É importante entender que isso não é relevante para o budismo ou para a prática budista, embora possa ter importância de acordo com a cultura, num aspecto meramente cultural.

Já o caminho monástico tem como uma de suas definições a castidade.

Ter filhos é reprovável no Budismo? Afinal, ao se ter filhos está-se gerando criaturas que vão sofrer…

O reino humano é o melhor para a prática que pode levar além do sofrimento, e não se está gerando criaturas — já que não há “criaturas” no budismo, nem alguém pode “gerar” algo, no sentido de tirar do nada — mas apenas criando causas e condições para um renascimento auspicioso — o renascimento mais auspicioso, que é o renascimento humano.

Os próprios Budas, no fundo eles nascem da sabedoria — mas muitas vezes eles têm, além da sabedoria transcendente, uma sabedoria corporificada na forma de uma mãe, e a compaixão corporificada na forma de um pai. Em outras palavras, ao invés de pensar em trazer ao reino humano alguém que vai meramente sofrer, podemos aspirar trazer alguém que vai sofrer bem menos que em outro reino, e, melhor do que isso, aspirar ajudar a manifestar alguém que vai ajudar a diminuir o sofrimento dos outros — um bodisatva ou um buda.

Caso opte por não casar nem ter filhos serei mal-visto pelos budistas?

O objetivo da prática budista não é ser bem-visto, nem mesmo bem visto pelos budistas ou pelo seu professor ou sua sangha. Você deve buscar a virtude e ser autêntico, e não produzir uma imagem perante os outros.

Nenhuma boa ação em geral é obrigatória para alguém que tomou voto de bodisatva. Para quem não tomou voto de bodisatva, não existe nem mesmo a obrigação de ajudar os outros — apenas de não os prejudicar. Quando porém se toma o voto de bodisatva, se faz o voto de ajudar os outros. No budismo ter filhos é uma forma de ajudar um ser a ter um nascimento humano, e possivelmente um caminho espiritual. Mas em nenhum lugar está dito que esta ou aquela ação meritória devem necessariamente ser realizadas. Você deve realizar ações meritórias de acordo com as necessidades dos seres e sua própria capacidade. Enquanto que evitar uma boa ação pelas próprias preferências ou inclinações seja ruim, nada nos obriga a uma ação meritória em particular.

Um bodisatva tomado de total destemor, não opera de acordo com inclinações adventícias, mas de acordo com as necessidades que surgem. Grandes bodisatvas podem até mesmo produz o nascimento de uma consciência determinada — isto é, vão copular para conceber um determinado ser que viram, com seu olho de sabedoria, no bardo. Assim eles podem pensar “vou dar nascimento a meu mestre, fulano”, ou “vou tirar sicrano do inferno”. Há inclusive bodisatvas cuja principal prática, difícil de compreender na nossa cultura, é engravidar grandes quantidades de mulheres. E o caso da mãe de Asangha e Vasubhandu, que percebeu que não conseguiria ser uma grande praticante e fez aspirações para que tivesse um filho que fosse um grande prativcante — e deu a luz a dois luminares do mahayana.

“Não manter, pois, seres queridos, pois não vê-los só nos traz dor. Não se acham amarras naqueles sem seres bem ou mal queridos.” (Dhammapada) Budistas se desapegam completamente de seus familiares?

O Dhamapada é um texto ligado ao hinayana, a forma inferior de prática. No hinayana as emoções perturbadoras são atacadas através do afastamento dos objetos que as “produzem”. Assim, se uma pessoa tem apego por sorvete de chocolate, ela não pensa nesse sorvete, não chega perto do sorvete e assim por diante.

Pessoas pelas quais temos carinho especial são um obstáculo a prática da equanimidade. Mas no mahayana e no vajrayana se lida com as emoções perturbadoras de outra forma. Ao invés de se afastar do objeto, a emoção é considerada em si mesma. Assim um praticante do vajrayana pode ter um carro esporte — não é ele que determina seu apego. Se o carro for roubado, arranhado, e o seguro não existir ou não cobrir, se ele sofrer, aí ele conhece seu apego. Se ele não sofrer, então é um bom praticante do desapego, em meio aos objetos.

Da mesma forma se uma pessoa nos irrita. O método hinayana é se afastar da pessoa. No mahayana e no vajrayana há métodos para gerar compaixão e utilizar essa irritação no caminho.

De toda forma todos os seres sencientes devem ser considerados nossa família querida e próxima. Isso é comum aos três veículos, hina, maha e vajra.

Como desenvolver-se espiritualmente verdadeiramente, aprofundar-se em doutrinas autênticas e libertadoras ao ponto de poder auxiliar quem deseja, sem deixar de pagar as contas, viajar com a namorada, ajudar a mãe, estudar, trabalhar, dedicar-se aos amigos?

Nada disso é um impedimento, aliás, é parte da prática. A única coisa essencial para o caminho é encontrar um professor qualificado e tornar-se seu aluno. O grau de aprofundamento e o estilo de vida da pessoa não são vinculados um ao outro, mas à conexão com o guru e o próprio carma da pessoa. Assim é imprescindível gerar méritos, onde quer que se esteja.

Só é necessário mudar o estilo de vida caso a pessoa, colocando as prioridades em ordem correta, e entendendo que ela, no caso particular dela, não de todos ou qualquer um, não consegue praticar naquele estilo de vida. O melhor é não mudar o estilo de vida, desde que ele não seja conducivo à desvirtude.

Nada do que você mencionou é conducivo à desvirtude. Mesmo assim pode ser difícil para algumas pessoas coadunar a prática espiritual com essas coisas, mas isso é apenas falta de mérito daquelas pessoas em particular. Por outro lado, nenhuma dessas coisas é essencial, e portanto a pessoa que não consegue, se ela entende que nada disso adianta sem a prática espiritual, deve abandonar o que for preciso.

No meu caso particular, não tenho inclinação a nenhuma dessas coisas. Só pago as contas porque não quero maiores problemas, mas tento fazer contas que eu possa pagar sem trabalhar remuneradamente. Não gosto de viajar, minha mãe não precisa ajuda nesse momento, não gosto de estudar. Não trabalho remuneradamente há uma década. Não tenho nenhum apego por amigos, mas sempre tem muitos por perto (moro numa comunidade), sem falar na internet. Por outro lado, amigos que não estão interessados na prática espiritual, no meu caso, são apenas perda de tempo. Se eu fosse um praticante mais estável, não teria problema, e até deveria, me relacionar com mais gente e gente mais perturbada. Como não tenho essa estabilidade, me relaciono proximamente apenas com a sanga. Mas esse, como disse antes, é o meu caso particular. Há muitos praticantes que conheço e que fazem tudo isso que você citou, e ainda assim praticam bem melhor e mais do que eu.

Porque existe uma concentração de centros no sul e sudeste do pais? Isso não é discriminação?

Os centros de dharma surgem em torno de uma sangha, não o oposto. Não é uma agência central que cria filiais, mas pessoas que por si mesmas viajam, trazem professores e enfim encontram outras pessoas com uma conexão semelhante e então organizam grupos. Quando há uma sangha, daí um centro se forma — e só aí os lamas dão um nome ao grupo, e o grupo vira um centro formalmente. A atividade missionária quase não existe no budismo em geral, e não existe no budismo tibetano, porque o budismo não é proselitista. Assim, não é de nenhum planejamento que surgem mais ou menos grupos. Os grupos surgem inteiramente da iniciativa das pessoas que moram numa região, não de uma deliberação dos professores de “ah, agora vamos fundar um centro lá naquele lugar”.

Veja também

Se você está começando no caminho no budista, acesse:
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Se você já é um praticante avançado, acesse:
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