O que Buda descobriu

O que Buda descobriu


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Texto extraído do livro “O que faz você ser budista?“, páginas 27-30, por Dzongsar Jamyang Khyentse.

Sem um único instrumento científico, o príncipe Sidarta sentou-se sobre o chão coberto de capim kusha, debaixo de uma árvore ficus religiosa para investigar a natureza humana. Após um longo período de contemplação de que todas as forma, inclusive nossa carne e ossos, assim como todas as nossas emoções e todas as nossas percepções, são compostas: são o produto da junção de de duas ou mais coisas. Quando dois ou mais componentes se juntam, surge um novo fenômeno: pregos e madeira se transformam numa mesa; água e folhas se transformam em chá: devoção e um salvador se transformam em Deus. O produto final não tem existência independente de suas partes. acreditar que ele realmente exista de forma independente é o maior dos enganos. Nesse meio tempo, as partes passaram por uma mudança. Simplesmente por estarem reunidas, sua natureza se alterou e, juntas transformaram-se em uma outra coisa – elas passaram a ser “compostas”.

Sidarta compreendeu que isso se aplica não só à experiência humana, mas a toda matéria, ao mundo inteiro, ao universo, pois todas as coisas são interdependentes, todas estão sujeitas a mudanças. Em toda a criação, não há um único componente que existe em um estado puro, permanente, autônomo. Nem o livro que você está segurando, nem os átomos, nem mesmo os deuses. Tudo o que existe na esfera da nossa mente, mesmo que apenas em imaginação – como, por exemplo, um homem com quatro braços –, depende da existência de alguma outra coisa. Assim, Sidarta descobriu que a impermanência não significa morte, como geralmente pensamos; significa mudança. Tudo o que manda em relação a uma outra coisa, ainda que seja a menor das alterações, está sujeito à lei da impermanência.

Por essa compreensão, Sidarta, finalmente, encontrou um meio de contornar o sofrimento da mortalidade. Ele aceitou que a mudança é inevitável e que a morte é apenas um componente desse ciclo. Além disso, deu-se conta de que não existia um ser todo-poderoso capaz de reverter o caminho que leva à morte; assim, também não havia nenhuma esperança que pudesse aprisioná-lo. onde não há esperança cega tampouco há decepção. Se a pessoa sabe que tudo é impermanente, não precisa se agarrar a nada; com essa atitude, ela não pensa em termos daquilo que tem e do que lhe falta e, portanto, vive plenamente.

O fato de Sidarta ter acordado da ilusão da permanência justifica que o chamemos de Buda, Aquele que Despertou. O que ele descobriu e ensinou – vemos agora, 2.500 anos depois – representa um tesouro inestimável que tem inspirado milhões de pessoas, educadas e analfabetas, ricas e pobres, do Rei Ashoka a Allan Ginsberg, de Kublai Khan a Gandhi, de S.S. o Dalai Lama aos Beastie Boys. Por outro lado, se Sidarta estivesse conosco nos dias de hoje, ficaria mais do que um pouco decepcionado, pois, em sua maior parte, suas descobertas permanecem sem serventia. O que não quer dizer que a tecnologia moderna seja tão fenomenal que as descobertas de Sidarta tenham sido refutadas: ninguém se tornou imortal. Todos têm de morrer em algum momento; estima-se que 250.000 seres humanos o façam todos os dias. Pessoas próximas a nós já morreram e vão morrer. No entanto, ainda ficamos chocados e tristes quando alguém que nos é caro falece, e continuamos à procura da fonte da juventude ou de uma fórmula secreta para longa vida. Idas a lojas de produtos orgânicos, frascos de cremes anti-rugas, como DMAE e retinol, aulas de power yoga, ginseng coreano, cirurgia plástica, injeções de colágeno e loções hidrantes, são claros indícios de que secretamente compartilhamos com o Imperador Qin o desejo pela imortalidade.

O Príncipe Sidarta não queria nem precisava mais do elixir da imortalidade. Ao compreender que todas as coisas são compostas, que a desconstrução vai até o infinito e que nenhum dos componentes, em toda a criação, existe em um estado puro, permanente e autônomo, ele encontrou a libertação. Uma coisa formada por agregação (ou seja, todas as coisas) e sua natureza impermanente são intimamente ligadas, como a água e o gelo. Quando colocamos uma pedra de gelo num copo, as duas coisas vêm juntas. Do mesmo modo, quando Sidarta olhava para alguém andando aqui ou ali, mesmo a mais saudável das pessoas, ele via aquela pessoa como viva e, mesmo tempo, desintegrando-se. Talvez lhe pareça que esse é um jeito pouco divertido de viver a vida, mas pode ser uma experiência incrível enxergar os dois lados – e muito gratificante, também. Não é como viver numa montanha-russa de esperanças e desilusões, subindo e descendo todo o tempo. Quando enxergamos as coisas dessa maneira, elas começam a se dissolve à nossa volta. Nossa percepção dos fenômenos se transforma e, de certo modo, se aclara. É tão fácil ver como as pessoas ficam presas na montanha-russa e, naturalmente, temos compaixão por elas. Um dos motivos pelos quais sentimos compaixão é o fato de a impermanência ser tão óbvia e, ainda sim as pessoas não a enxergam.

Texto extraído do livro “O que faz você ser budista?“, páginas 27-30, por Dzongsar Jamyang Khyentse.

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