O possível e o impossível

O possível e o impossível


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Quando tomamos os votos e os praticamos sinceramente, compreendemos que somos incompletos.

A certa altura, podemos amadurecer a decisão de “formalizar” nossa prática, escolhendo um professor de quem receber ensinamentos seguros, aos quais toda a nossa atenção será dedicada. Para aqueles de nós que não se decidiram pelo caminho monástico, é hora então de tomarmos refúgio nos três tesouros (Buddha, Dharma e Sangha) numa cerimônia que no zen é chamada de jukai ou zaike tokudo – 在家得度. Nessa oportunidade, há um grande espírito de comprometimento e fazemos vários votos solenes. Em sua síntese, tais votos dão conta de que adotamos uma meta infinita e que nos empenharemos até a sua conclusão, sem concessões, sem tentar reduzi-la ao racional, à nossa lógica. Um dos votos, por exemplo, está centrado na ideia de que não devemos praticar para nossa exclusiva compreensão e liberação (da ignorância), mas que deveríamos dedicar todo nosso esforço para a liberação de nada menos que todos os seres existentes. Aqui, se exigirmos uma resposta à pergunta “é possível ou não?” antes de seguirmos adiante, talvez nunca avancemos mais um passo sequer. Por outro lado, talvez motivados pela pouca experiência ou por uma “fé apressada”, podemos adotar tal objetivo sem sequer pestanejar, certos de que daremos conta, não importa quanto tempo seja necessário. Talvez (e repito, talvez) os votos tenham também por “função” nos abrir os olhos para nossas limitações. O texto que segue, extraído de “Sōtō Zen an Introduction to zazen”, capítulo 1, de Shohaku Okumura-sensei, em tradução livre, aborda estas reflexões.

“Quando estudamos o eu e compreendemos que estamos interconectados com todos os seres, quando nos tornamos discípulos de Buddha, nós nos arrependemos por todo o karma prejudicial que fizemos no passado oriundo de nosso corpo, fala e pensamento. Nós temos de praticar o arrependimento momento a momento sempre que nos virmos nos desviando do saudável modo de vida.

Vez após outra nós tomamos refúgio no Buddha, Dharma e Sangha e renovamos os quatro votos do bodhisattva:

    Seres são incontáveis; faço voto de libertá-los.
    Delusões são inexauríveis; faço voto de findá-las.
    Portais do Dharma são ilimitados; faço voto de penetrá-los.
    O caminho de Buddha é insuperável; faço voto de realizá-lo.

Estes votos nos guiam no caminho de Buddha. Damos um pequeno passo de cada vez e continuamos a achar que nossa prática é incompleta. Estes votos não têm fim. Seres sencientes são inumeráveis, então não podemos salvá-los todos. Delusões são inexauríveis, por isso nunca as eliminamos todas completamente. Portais do Dharma são ilimitados, então nós nunca podemos adentrá-los todos. O caminho de Buddha é insuperável, então, nossa prática continua sem fim. Quando tomamos os votos e os praticamos sinceramente, compreendemos que somos incompletos.

Em outro sentido, ao tomar estes votos, nós decidimos não atravessar o rio até a outra margem (da liberação). Fazemos o voto de sermos o último a ali chegar. Esta é a razão por que os chamamos votos de bodhisattva. Se todas as pessoas são bodhisattvas, então não haverá ninguém na outra margem. Todos os bodhisattvas trabalham nesta margem a qual chamamos samsara. Usando nosso corpo e mente na prática, tentamos tornar este mesmo mundo na outra margem. E porque corpo e mente têm suas limitações, nossa prática também tem as suas.

Esta é a razão por que temos de praticar o arrependimento. Apenas recitar os versos de arrependimento nas cerimônias não é o bastante. Embora tomemos refúgio em Budha, Dharma e Sangha, somos negligentes. Ainda que saibamos que vivemos com todos os seres em uma rede de originação interdependente, nós frequentemente nos desviamos, e somos capturados em um fazer e pensar egocêntricos. Sempre que tenhamos consciência de nosso desvio do caminho apropriado, deveríamos apenas retornar à direção correta. Este retornar é importante.”

Organização: Rodrigo Daien

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