O Luto

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O FUNERAL COMO UMA PARTE IMPORTANTE DO PROCESSO DE LUTO

Morte – algo que não pode permanecer inquestionável

Com relação ao trágico incidente do ataque à escola primária anexa à Universidade de Educação de Osaka no ano passado[1], o psicopatologista Dr. Hissao Nakai com base na afirmação: “a lembrança da tragédia não serve para desgastá-la, mas sim para purificá-la”, fez a seguinte declaração: “A purificação é um processo de trabalho do luto. É um processo que marca a relação entre nós, após a perda de uma pessoa querida, com a condição inexaurível de que esta pessoa já partiu para a eternidade, não nos sendo mais possível chamá-la de volta. No Budismo chamamos isso de Jôbutsu, tornar-se Buda, Iluminar-se. Penso que o Jôbutsu, na realidade é uma questão para o coração daqueles que sobreviveram – o que chamo de ‘desgaste da lembrança’ ”. (Extraído do livro Sei In Sei U, do Dr. Hissao Nakai).

O coração daquele que perde para a morte uma pessoa importante, fica totalmente desnorteado. Por mais que se tente conformar-se com palavras como “destino”, não deixamos de indagar: “por que morrer desta forma?” O Mestre Rennyo[2] em uma de suas epístolas destinadas às famílias em luto escreveu: “isto é um fato real”[3] – Ofumi fascículo 4, epístola 9.

Para as pessoas desorientadas perante o infortúnio da morte, e conseqüentemente, com o inevitável sofrimento, o Buda Shakyamuni ensinou-nos sobre o sofrimento advindo da morte e o sofrimento pela separação daqueles que amamos, através da necessidade de clarear e esclarecer[4], para então podermos aceitar e acolher esses conceitos. Em suma, o Dr. Nakai refere-se ao Jôbutsu, (Iluminar-se, tornar-se Buda), como equivalente ao fato de resignar-se e conformar-se com a morte.Isso não significa o mesmo que esquecer. A pessoa falecida “está morta”, porém, esta conjugação verbal não teria ao mesmo tempo o sentido de que o “morto está existindo” de alguma forma?[5]

 A respeito da possível conformação/compreensão

Para se alcançar tal estado de esclarecimento, é necessário tempo. Assim como no episódio da saída pelos quatro portais do palácio, conforme ensina a tradição, onde o príncipe Gautama[6] depara-se com os quatro sofrimentos: nascimento, envelhecimento, doença e morte; não podemos pensar que este episódio serviu de pretexto imediato para o príncipe abandonar a vida mundana para dedicar-se ao caminho monástico. Passando por um longo e difícil período de ascetismo, para só então, posteriormente obter a Iluminação sob a árvore Bodhi, é que, a partir deste momento, pela primeira vez, o Buda, revendo seus motivos para abandonar o mundo e tomar o manto, foi tomado pela palavra sofrimento, percebendo o real sentido desta palavra. Penso que isso seria o mais próximo das verdadeiras circunstâncias.

Em nossas mentes, sequer ousamos pensar em ascetismos tão severos quanto os do Buda, mesmo assim, tendo como guia os seus ensinamentos, vivenciando-se de corpo e alma o processo de luto, será que não podemos alcançar o Jôbutsu (tornar-se Buda, Iluminar-se) pela compreensão do sofrimento?

A série de procedimentos para o funeral que se seguem logo após o falecimento de uma pessoa, são procedimentos que iniciam uma parte do processo de luto.

Quando se transpõe o tempo/espaço do período incomum dos ritos fúnebres, de certa maneira, a pessoa morre para o mundo onde convivia com a pessoa que veio a falecer, acompanhando-a no processo do renascer para o mundo dos que estão mortos.

Obviamente, quanto mais profunda a relação com a pessoa falecida, mais profundamente e mais vezes o rito fúnebre é revivido interiormente. Comemos o oferecimento de alimentos no altar, que a pessoa falecida não mais come e vomitamos boas e más recordações vividas com a aquela pessoa. Assim, repetindo esse processo, vamos compreendendo e aceitando a morte de uma pessoa que nos é querida.

Quanto mais pungente o processo, quanto mais doloroso, mais forte é o encadeamento da conformação/compreensão possível com a conformação/resignação do próprio ciclo de nascimento e morte.

 

O importante papel dos ritos fúnebres

Conforme as palavras do Mestre Shinran[7]: “ao cerrar meus olhos para a vida, atirem-me ao rio Kamo[8] para servir de alimento aos peixes”, tem-se a impressão equivocada de que o Mestre desaprovava os ritos fúnebres. Entretanto, podemos considerar essa forma de funeral como um sepultamento por submersão. Penso que o Mestre deixou em testamento o pedido de jogá-lo ao rio porque este corre para o mar; o mar que o Mestre tanto apreciava. De qualquer maneira, pelo fato do Mestre Shinran celebrar todo mês um rito em memória de seu Mestre, Hônen[9], além do conteúdo de suas cartas, conjeturamos que é impensável que o Mestre Shinran desaprovasse os ritos fúnebres que se seguem após o falecimento. Claro que não se tratava de ritos com orações para os mortos ou por suas almas.

Mas como e por que será que o Mestre Shinran se voltava para o Mestre Hônen, que estava morto? Afinal, será que não podemos dizer que era um processo pessoal de confirmação do Nembutsu[10]? Um processo de confirmação do Jôbutsu?

Não podemos separar a cerimônia fúnebre em dois tipos de ritos: o rito em função do morto e um rito em função dos vivos. Mas, na atualidade, a maioria das pessoas pensa que se trata somente de rito em benefício do morto. Assim sendo, entre a classe intelectual, surgem aqueles que discutem sobre a desnecessidade dos ritos fúnebres, declarando que ao morrer não é necessária a realização do rito fúnebre. (Evidentemente isso significa desejar um funeral simples, mas realizado de todo coração. Mas, se o funeral fosse algo totalmente desnecessário, seria o mesmo que atualmente, em dias de coleta de lixo orgânico, enfiar o cadáver num saco plástico e jogá-lo para o lixeiro levar).

Porém, para os que vivem, o funeral e a série de ritos que se seguem, são uma parte muito importante do processo de luto. É claro que não podemos desprezar os que são contra os funerais e que defendem sua opinião criticando o procedimento “for business” de muitos monges e empresas funerárias, com suas atitudes por demais impessoais, visando apenas o lucro.

Para a família enlutada, o rito fúnebre deve ser algo fora do comum, pegando-o desprevenido. Assim, se monges e empresas funerárias forçarem a idéia de que seu trabalho é um trabalho cotidiano como outro qualquer, acabam quebrando o importante sentido cerimonioso que este possui.

Sentimentos que não se consegue exprimir em palavras

No ano passado, após as explosões simultâneas decorrentes do atentado terrorista em Nova York, todo dia 11 de cada mês, e também no 100º dia do atentado, transmitiu-se através da mídia, ao mundo todo, o estado de espírito da população nova-iorquina, nas aberturas das cerimônias em homenagem aos mortos, realizadas pelo comitê de serviço memorial, sempre se enfocando os familiares dos mortos.

São pessoas que não possuem o costume de celebrar os ritos de 49 dias de falecimento, e nem de celebrar ritos mensais ou anuais em memória de seus mortos, mas para se tentar aceitar um fato tão irracional como a morte, surgiram novos processos de luto que se adequaram naturalmente às formas preestabelecidas pela tradição budista.

Após o episódio ocorrido na escola primária de Ikeda, passamos a ouvir mais sobre a maior união de esforços em prol do movimento Children’s Kokoro no Kea (Children’s Care for the mind). Se fosse antigamente, também seria possível juntar as mãos silenciosamente diante de Jizô Bosatsu[11].

Penso que também é importante, mesmo nas escolas públicas, a homenagem às crianças já falecidas, como o rito de plantio de árvores pelos estudantes, que em silêncio, suspiram palavras que calam bem fundo no coração.

Ao se passar por todo esse processo, um dia, aquele sentimento impossível de se expressar em palavras poderá ser entendido como um pedido: “por favor, enxerguem com firmeza e determinação nossas vidas, posto que a vida deve ser vivida até o dia da morte”. Assim sendo, penso que chegará o dia em que poderemos nos conformar/ compreender a morte de nossos amigos.

Rev. Ken Kadowaki (Professor da Universidade Otani – Kyoto – Japão) – traduzido pela Reva. Sayury Tyojun

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[1] O autor se refere ao ataque de um indivíduo desequilibrado, ocorrido em 8 de junho de 2001, numa escola primária em Ikeda, elegante subúrbio da cidade de Osaka, no Japão, que resultou na morte de 8 crianças de 6 a 8 anos de idade a facadas, ferindo outras, sendo que 15 foram internadas, e destas, 6 em estado grave. O assassino invadiu a escola escalando uma janela, por volta das 10h15 (23h15 de Brasília), armado com uma faca de cozinha de 15 cm de comprimento. Imediatamente começou a esfaquear aleatoriamente crianças e professores. No total, 23 pessoas, incluindo dois adultos, ficaram feridos, num ataque que durou 12 minutos. Identificado como Mamoru Takuma, de 37 anos, que quando preso, falava frases incoerentes, alegando ter tomado uma forte dose de tranqüilizantes, que já tentara suicídio duas vezes, e que queria ser preso para ser executado. Mais tarde, a polícia averiguou que o assassino já havia passado por tratamento em hospital psiquiátrico e em três oportunidades foi tratado por crises de esquizofrenia.

[2] Rennyo-Shônin: VIII Patriarca da transmissão e reformador do Budismo Shin no Japão.

[3] Referência à morte como a única certeza após o nascimento.

[4] O autor, no texto original em japonês, faz uso de um jogo de palavras com os verbos akirameru, foneticamente iguais e de flexões muito parecidas, que tanto pode significar “esclarecer, clarear” como “conformar-se, resignar-se”. Sendo que para o ideograma que indica o verbo conformar, resignar, no Budismo há uma conotação especial que significa iluminar, compreender.

[5] Em japonês diz-se shinde iru (morto está), sendo o verbo ‘estar’ indicativo de existência de um ser vivo. O autor aponta para a aparente contradição de se unir a condição “morto” com o verbo “estar” que implica em existir.

[6] Sidarta Gautama que nasceu no século VI a.C. como príncipe do povo dos Shákyas, no norte da Índia e que mais tarde viria a se tornar o Buda, fundador do Budismo.

[7] Shinran-Shônin, Patriarca Fundador do Budismo Shin (Escola Jôdo-Shin-Shû) no Japão.

[8] Rio que atravessa a cidade de Kyoto, onde vivia o Mestre Shinran por ocasião de seu falecimento.

[9] Hônen Shônin, Mestre de Shinran e Fundador da Escola da Terra Pura (Jôdo-Shû) no Japão.

[10] Ponto fundamental dos ensinamentos da Doutrina da Terra Pura, onde ao se recitar o Nome Sagrado do Buda Amida através da fórmula “Namu-Amida-Butsu”, o fiel praticante abandona todo o pensamento de auto-poder e se entrega de todo coração ao Poder Salvífico do Buda Amida, o Buda da Vida e Luz Infinitas.

[11] Bodhisattva Ksitigarbha, o Bodhisattva que abriga em si todas as virtudes, popularmente é considerado o protetor das crianças e dos viajantes.

 

 

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