O Grou e a Tartaruga

O Grou e a Tartaruga


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O Grou e a Tartaruga

Quando uma pobre velhinha soube que o Buda Shakyamuni iria pregar em sua vila, ela resolveu doar uma lamparina a óleo, para que mesmo escurecendo, o Buda pudesse continuar a pregar seus valiosos Ensinamentos. Mas como ela era muito pobre, os locais fizeram pouco caso dela, dizendo que era muita pretensão, querer doar uma lamparina. Na Índia é muito comum o oferecimento de lamparinas, que simbolizam as luzes da sabedoria que dissolvem as trevas da ignorância.

Mesmo sendo tão pobre que não tinha dinheiro nem para comprar óleo, muito decidida, a velhinha resolve vender seus cabelos para comprar óleo e poder fazer sua doação, seu Danna. Conta-se que o vendedor de óleo, quando soube que a velhinha estava vendendo seus preciosos cabelos com o intuito de comprar o óleo  para a lamparina a ser oferecida ao Buda, comovido, acabou oferecendo-os de graça para ela. Com isso, algumas vertentes da lenda contam que ela fez de seus cabelos, o pavio da lamparina.

E assim ela realiza sua doação e vai ouvir os Ensinamentos do Buda. Todos da vila estavam presentes e havia muitas lamparinas, doadas pelos locais mais ricos e poderosos. Quando repentinamente soprou uma forte ventania, ventania de tempestade que apagou todas as lamparinas, empurrando-as para o lago próximo, que se enchia rapidamente com a enchente. Somente a lamparina da pobre velhinha manteve-se heroicamente acesa, levada pelo vento a pousar sobre uma flor de lótus. Quando a flor de lótus que mantinha a lamparina estava prestes a afundar, um tsuru (grou) que sobrevoava o lago, pegou-a em seu bico a flor de lótus com a lamparina e pousou no meio do lago. Mas começava a chover cada vez mais forte ao longe, na cabeceira do rio e o lago enchia cada vez mais, deixando o tsuru numa difícil situação, pois se ela alçasse vôo, a lamparina se apagaria.

Mas eis que de repente, para surpresa de todos que presenciavam a cena, o grou começou a subir e se mover até a beira do lago, quando segura, viu-se que o tsuru havia pousado exatamente em cima de uma tartaruga que prontamente levou-a sã e salva junto com a lamparina até terra firme.

É uma bela estória de não-discriminação e o valor da doação (Danna) de coração e intenção verdadeiras. Enseja o desejo de que mantenha-se a longevidade dos Ensinamentos graças ao bom coração de pessoas como a velhinha da lenda.

Essa é a estória que ilustra o simbolismo do castiçal em forma de tsuru e tartaruga do nosso altar. Além disso, contam as lendas mais antigas que o tsuru vive mil anos e a tartaruga dez mil anos. São símbolos da longevidade, mas que significam a Sabedoria infinita, a infinitude dos Ensinamentos, e a Vida Infinita do Buda Amida que se mescla com a Luz infinita que não se apagou…. e não se apaga.

Quando se é usado o arranjo “Itsutsugussoku” (Ornamento de 5 Oferecimentos), quando no altar são colocados dois vasos, dois castiçais e um incensário, isso para os grandes ritos como o de Ação de Graças em Memória do Mestre Shinran (Hô On Kô), observe-se que os dois castiçais possuem detalhes muito sutis. O tsuru do lado direito (o que é mantido comumente) tem o bico aberto, assim como a tartaruga, pronunciando A. Já a dupla do lado esquerdo (de quem olha) têm a boca fechada emitindo UN, juntos eles simbolizam o OM (A-Un). No nosso caso do Higashi Honganji, a folha de lótus no bico do tsuru tem um cacho de sementes de lótus voltado para nós, simbolizando as sementes do Ensinamento dirigidos a nós. No lado interno deste caule há um botão de flor de lótus que simboliza o Amida, por isso ele está voltado para dentro, virado para o Buda. E voltado para fora, uma folha ainda fechada, pronta para se abrir, expandindo os Ensinamentos.

Nada que está no altar é destituído de função e/ou simbolismo, tudo tem uma bela ilustração. Quando visitarem um templo, prestem atenção nestes detalhes, na riqueza dos ornamentos. Cada peça é um Ensinamento em si.

 Rev. Sayuri Tyôjun

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