O ego

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Um ego saudável é absolutamente necessário para a gente funcionar direito neste mundo!

Fizeram-me uma pergunta bastante interessante outro dia: “Agora aqui vai uma pergunta que estou querendo fazer há muito tempo. O Buda falou (ou dizem que ele falou) que o apego gera sofrimento e que para acabar com o sofrimento temos que acabar com o apego, certo? Pois bem, com o Zazen tenho tomado consciência do meu enorme apego ao meu EGO!! É verdade! Parece que eu me dou muita importância. Pois bem, o que é que eu faço agora? Qual é o exercício para diminuir o apego ao EGO. Continuo sentando e meditando??”.

Hum… vejo duas respostas para esta pergunta. Primeiro, que bom que você tem apego ao seu ego! Um ego saudável é absolutamente necessário para a gente funcionar direito neste mundo! Então, por favor, cuide bem de seu ego! Aí surge a questão sobre o que fazer para se ter um ego saudável. Quem teve a bênção de crescer numa família saudável, provavelmente já tem um ego saudável. Mas, dependendo da história pessoal de cada um, às vezes pode ser conveniente e apropriado fazer terapia com um bom psicoterapeuta (psicólogo ou psiquiatra) com quem se sinta afinidade. Os traumas pessoais podem prejudicar o funcionamento adequado do ego. Tem coisas que somente uma boa terapia pode resolver. A Espiritualidade não pode substituir a terapia nestes momentos. Também a terapia não pode substituir a espiritualidade, e aí vamos para a segunda resposta.

Em lugar de ficar numa dualidade de apegar-se ou desapegar-se do ego, que tal pensar em termos de “transcender” o ego, encontrar aquele espaço de não dualidade em que você possa manifestar a sua Natureza Buda 1 naturalmente? Com isto, poderá deixar o ego cumprir o seu papel sem que ele tente ser mais do que é.

A nossa prática não é bem para “matar o ego”, mas, de certa forma, domesticá-lo, deixá-lo fazer aquilo pelo qual existe, sem mais nem menos. Para isto, primeiro, temos que acolhê-lo com o mesmo carinho com que acolhemos uma criança e aceitá-lo como ele é – parar de brigar com ele. A partir desta aceitação, ganhamos espaço e tranquilidade para observá-lo e aprender como ele funciona – para depois “administrá-lo” e escolher de que forma seria mais apropriado deixar o ego se manifestar no mundo.

Temos, sim, que nos desapegar do orgulho, das raivas e ressentimentos, dos medos, e toda uma série de gostos e desgostos, opiniões, conceitos e preconceitos, e aprender a vivenciar cada momento em sua plenitude. Não vamos deixar de ter sentimentos e emoções, mas vamos aprender a não ser controlados, nem movidos pelas nossas emoções. Não vamos deixar de ter pensamentos, mas vamos aprender a não ser controlados, nem movidos pelos nossos pensamentos.

Mais ainda: não vamos interpretar mal a própria palavra “desapego” – não vamos deixar de nos relacionar com os outros, de amar e ser amados, mas vamos, sim, aprender a respeitar os outros e não ficar tentando controlá-los, nem nos deixar ser controlados.

Então, como vamos fazer? A nossa prática é formidável e tem três aspectos, nenhum dos quais deve ser esquecido: o Zazen, corretamente sentado; o estudo do Dharma, através dos textos e do relacionamento com um professor de Dharma qualificado; e a prática dos Preceitos, junto com uma Sangha saudável. Quando um destes elementos falta, a nossa prática vai ficar limitada, mas não é por isto que não vamos fazer o melhor que pudermos.

Mesmo que não tenhamos um professor qualificado ou mesmo que não tenhamos Sangha, podemos nos sentar em zazen, estudar os textos e nos esforçar ao máximo para evitar o mais possível as armadilhas do caminho. Podemos considerar todas as pessoas à nossa volta como os nossos professores, cada um ensinando de seu jeito um pedacinho do Dharma. Podemos considerar todos os acontecimentos de nossa vida como o Dharma se manifestando, nos ensinando constantemente. Podemos considerar todas as pessoas com quem nos relacionamos como a nossa Sangha, grupo com quem praticamos os Preceitos. Mas, o caminho solitário é muito, muito difícil.

Melhor seria praticar com um grupo, pois se o grupo for zeloso mesmo, sempre procurando manter os preceitos, todos vão poder se ajudar mutuamente na prática. É o espaço perfeito para exercitar a gratidão e a compaixão, observar as nossas ações junto com pessoas que compartilham a mesma prática. Mais uma vez, se não tiver professor de Dharma, alguém que já passou por treinamento, vai ser bem mais difícil. Mesmo assim, não é por isto que não devemos procurar praticar da melhor forma possível, especialmente se há uma pessoa com “rakusu” (que já recebeu os preceitos) para coordenar o grupo. É só tomar bastante cuidado, o tempo todo, para não cair nas armadilhas de autoilusão ou de ilusão grupal. Para isto, a constante relembrança dos preceitos, a prática de arrependimento, além de constante reflexão sobre o seu próprio comportamento e ações são necessárias.

Sentar em zazen e mais zazen é imprescindível – mas somente sentar em zazen daria num beco sem saída, pois sem o estudo do Dharma e a Prática dos Preceitos, depois de um tempo, o zazen acaba estagnando-se, sem progredir além de um certo ponto. Tem que ser Zazen corretamente sentado, e isto não é fácil. Como saber se o seu zazen está correto? Isto também não é fácil, mas, em princípio, mesmo que a gente se sente “sem objetivo, sem meta”, mesmo assim, quando o Zazen é correto, a gente deve perceber um aprofundamento da prática, uma abertura cada vez maior do Olho de Sabedoria e do Coração de Compaixão, e constante autotransformação.

E nesta autotransformação, que possamos nos tornar a Paz, transcendendo o ego pequeno, manifestando mais e mais a nossa Natureza Buda.

Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.


1) Precisamos tomar cuidado de não interpretar Natureza Buda como uma espécie de “santinho onisciente e perfeito” que estaria aguardando ali dentro de nós, só precisando das condições para se expressar. A coisa não é bem assim e prefiro considerar Natureza Buda como o potencial para se iluminar e o fato de que todos os seres naturalmente procuram o bem-estar e a felicidade. Desta forma, de acordo com a interpretação Mahāyāna, mais cedo ou mais tarde, todos os seres irão buscar o Caminho e tornar-se budas. Voltar

Texto extraído e editado do livro “A Vida Compassiva – Compaixão”, de autoria de Isshin-sensei, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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