O desejo


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O desejo, Matthieu Ricard - Blog Sobre Budismo

Trecho do livro, “Felicidade – A pratica do Bem Estar”, por Matthieu Ricard.

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Ninguém discute o fato de que é natural ter desejo e que ele tem um papel motivacional em nossa vida. Mas há uma diferença crucial entre as profundas aspirações que temos ao longo da nossa vida e o desejo, que não é mais do que um avidez, um tormento, uma obsessão. O desejo pode assumir formas infinitamente variadas: podemos desejar um copo de água fresca, alguém que amamos, um momento de paz, a felicidade alheia; podemos também desejar a nossa própria morte. O desejo tanto pode nutrir a nossa existência quanto envenená-la.

Ele também pode expandir, liberar-se, aprofundar-se e até transformar-se em uma aspiração: a de fazer de si mesmo um ser humano melhor, de trabalhar pelo bem dos outros e atingir o despertar espiritual. É importante, assim, estabelecer uma distinção entre o desejo, que é essencialmente uma força cega, e a aspiração, que é precedida por uma motivação e por uma atitude. Se essa motivação é ampla e altruísta, pode ser fonte das maiores qualidades e realizações humanas. Se é estreita e egocêntrica, alimenta as intermináveis preocupações da vida cotidiana, que se seguem uma às outras como ondas, desde o nascimento até a morte, não trazendo nenhuma garantia de satisfação profunda. Quando essa motivação é negativa, pode dar livre curso a destruições devastadoras.

Por mais natural que seja, o desejo rapidamente se degenera em “veneno mental”, assim que se transforma em um imperativo, uma obsessão ou um apego incontrolável. Um desejo como esse é tão mais frustrante e alienador quanto mais estiver em desacordo com a realidade. Quando estamos obcecados por uma coisa ou pessoa, nós construímos erroneamente uma imagem como se ela fosse cem por cento desejável e possuí-la ou desfrutá-la tornar-se uma necessidade absoluta. A avidez não causa apenas tormentos e angústias; essa posse, ou poderíamos até dizer essa “possessão” daquilo que desejamos, em qualquer situação, só pode ser precária, momentânea, e está sob constante ameaça. É também ilusória, no sentido de que em última análise temos muito pouco controle sobre aquilo que pensamos possuir. Como ensinou o Buda: “Vítima do desejo, como um macaco na floresta, você salta de galho em galho sem jamais encontrar uma fruta, e de vida sem jamais encontrar a paz”.

Os desejos apresentam diferentes graus de duração e intensidade. Um desejo menor, como o de tomar uma xícara de chá ou um bom banho quente, pode, na maior parte das vezes, ser satisfeito com facilidade, sendo frustrado apenas se as condições externas forem muito contrárias. Há ainda desejos como o de ser aprovado em um exame, comprar um carro ou uma casa, quando a realização pode apresentar algumas dificuldades possíveis de vencer pela perseverança e engenhosidade. Finalmente, existe um nível mais básico de desejo, como o de construir uma família, ser feliz na companhia de alguém que escolhemos ou trabalhar com algo de que gostamos.

Realizar esses desejos requer muito tempo, e a quantidade de vida gerada por eles depende tanto das nossas aspirações mais profundas quanto da orientação que pretendemos dar à nossa vida. Queremos que as nossas ações tragam felicidade para a nossa vida ou só buscamos ganhar dinheiro e conseguir um certo status na sociedade? Estabelecemos com nosso cônjuge uma relação de posse ou de reciprocidade altruísta? Qualquer que seja a nossa escolha, participamos todos os dias e em qualquer lugar da dinâmica do desejo.

Em nossos dias, o desejo nunca para de ser alimentado e amplificado pela imprensa, pelo cinema, pela literatura e pela publicidade. Ele nos faz dependentes da intensidade das nossas emoções, por conduzir apenas satisfações de curta duração. Não temos, por outro lado, nem mesmo tempo de avaliar a medida da frustação que nos advém de todos os desejos irrealizáveis, porque outras solicitações logo chegam para substituí-los; distraídos, deixamos sempre para depois esse exame, como também as ações que poderiam nos trazer um sentimento de plenitude digno desse nome. E o carrossel continua a girar.

Conheci em Hong Kong alguns desses jovens leões do mercado financeiro, que dormem no chão do escritório em sacos de dormir para poder acordar no meio da noite e, ligados nos computadores, “pegar” a Bolsa de Nova Iorque antes do fechamento. Também eles, à sua maneira, tentam ser felizes, mas sem muito sucesso. Um deles me confidenciou que vai para a praia uma ou dias vezes por ano e fica olhando para o mar, quase surpreendido, vendo como é belo. Nesses momentos acaba refletindo: “Como é estranha a minha vida… e, no entanto, lá vou eu de novo na segunda-feira de manhã”. Falta de senso de prioridade? Falta de coragem? Ficamos grudados na imagem refletida da ilusão, sem usar o tempo livre que nos resta para permitir que, das profundezas mais abissais de nós mesmos, surja a questão: “O que eu realmente quero da minha vida?” Uma vez que tenhamos obtidos uma resposta, sempre haverá tempo para pensar sobre como conseguir o que se quer. Mas não é triste e trágico abafar essa questão?

O desejo alienante

O budismo não recomenda a abolição dos desejos simples nem das aspirações essenciais, mas a obtenção da liberdade no que tange aos desejos escravizadores, aqueles que nos trazem uma multidão de tormentos inúteis. O desejo de alimentar-se quando se tem fome, a aspiração de trabalhar pela paz do mundo, a sede de conhecimento, o desejo de partilhar a nossa vida com os entes queridos, o ânimo que nos incita à liberação do sofrimento: desde que esses desejos não sejam matizados pela avidez e não exijam que obtenhamos aquilo que não pode ser obtido, todos eles podem contribuir para a nossa satisfação profunda. Quando temos uma coisa, queremos uma segunda, e depois uma terceira, e assim por diante. Como terminará isso? Só a derrota ou o cansaço podem fazer cessar, momentaneamente, essa sede de posses, de sensações ou de poder.

Os mecanismos do desejo

A sede de sensações prazerosas é fácil de instalar-se na mente, já que o prazer é obsequioso, amável e está sempre pronto a oferecer-nos os seus serviços. Ele é atraente, inspira confiança e com algumas imagens convincentes consegue afastar qualquer hesitação. O que deveríamos temer em uma oferta tão tentadora? Nada é mais fácil do que tomar o caminho do prazer. Mas a exultação desses primeiros passos dura pouco e logo dá lugar à decepção de nossas expectativas ingênuas e ao sentimento de solidão que acompanha a saciedade dos sentidos. Os prazeres, uma vez satisfeitos, não permanecem, não são acumuláveis, não se conservam e não frutificam: eles desaparecem. Não é nada realista esperar que algum dia eles nos tragam uma felicidade duradoura.

Arthur Schopenhauer, o grande filósofo pessimista, declarou: “Todo desejo nasce de uma falta, de um estado ou uma condição que não nos satisfazem; portanto, enquanto não for satisfeito, ele é sofrimento. Mas nenhuma satisfação é duradoura; ao contrário, sempre é apenas um ponto de partida para novos desejos. Em todo lugar, vemos desejos sendo frustrados e impedidos de se realizar, de diversas maneiras; por toda parte vemos pessoas lutando por eles, e assim eles sempre aparecem como sofrimento. Não há término para o esforço, não há medida e não há fim para o sofrimento.” 1 Essa afirmação é verdadeira mas incompleta. Ela parte do princípio de que não podemos escapar do desejo e do sofrimento por ele perpetuado. Para superar essa condição, precisamos saber como o desejo é criado.

A primeira constatação é de que todo desejo apaixonado (não estamos falando aqui de sensações primárias como a fome ou a sede) é precedido por um sentimento e uma representação mental. A formação dessa imagem pode ser desencadeada por um objeto exterior (uma forma, um som, uma textura, um cheiro ou um gosto) ou interior (uma memória ou um devaneio). Mesmo que sejamos influenciados por tendências latentes, e mesmo que o desejo – primariamente sexual – esteja inscrito na nossa constituição física, ele não pode se expressar sem uma representação mensal. Ele pode ser voluntário ou, aparentemente, se impor sobre a nossa imaginação; pode se formar lentamente ou tão rápido quanto a luz, sub-reptícia ou abertamente; mas a representação sempre precede o desejo ativo, porque o seu objeto deve se refletir nos nosso pensamentos. Por influência do desejo consideramos uma dada pessoa como inerentemente desejável e vemos suas qualidades de maneira exagerada, enquanto minimizamos seus defeitos. “O desejo embeleza os objetos sobre os quais pousa suas asas de fogo”, escreveu Anatole France. Não podemos desejar uma sensação se não a considerarmos agradável. Compreender esse processo nos ajuda a acelerar o diálogo interior que nos permitirá superar o desejo aflitivo.

Esse ponto de vista do budismo é próximo àquele apresentado pelas ciências cognitivas. Segundo Aaron Beck, as emoções são sempre geradas pela cognição e não o contrário. Pensar em uma pessoa atraente dá origem ao desejo, pensar no perigo gera o medo, pensar em uma perda provoca tristeza e pensar que um limite foi transgredido desencadeia a raiva. Quando sentimos uma dessas emoções, não é muito difícil reconstituir o encadeamento de pensamentos que conduziu a ela.

Por sua parte, Seligman afirma: “Há trinta anos, a revolução trazida pela psicologia cognitiva derrubou ao mesmo tempo Freud e os behavioristas, pelo menos nos meios acadêmicos […]. Segundo a teoria freudiana clássica, com efeito, são as emoções que determinam o conteúdo dos pensamentos.” 2 Este último ponto de vista talvez seja correto nos casos das crises emocionais que, à primeira vista, nos parecem irracionais; nas crises de angústia agudas; ou nas fobias graves que são a expressão de fixações formadas no passado. Isso não diminui o fato de que essas tendências resultem de uma acumulação de imagens e de pensamentos.

Geralmente, uma vez que o desejo começou a se estabelecer na mente por meio das imagens mentais a ele ligadas, ou nós o satisfazemos ou o reprimimos. O primeiro caso representa uma capitulação do autocontrole; o segundo, desencadeia um conflito. O conflito interior criado pela repressão é sempre uma fonte de tormento. Há a opção de entregar-se ao desejo. É como dizer: “Por que tornar tudo tão complicado? Vamos satisfazer o desejo e não se fala mais nisso.” O problema é que nós nunca vamos nos satisfazer: essa satisfação é um mero adiamento de novos desejos. As imagens mentais vão sendo criadas pelo desejo e ressurgem com rapidez. Quanto mais satisfazemos os nossos desejos, mais essas imagens se multiplicam, nos invadem e aprisionam. Quanto mais água salgada bebemos, mais sedentos ficamos. O repetido reforço das imagens mentais leva à adição e à dependência, tanto mental quanto física. Quando chegamos a esse ponto, a experiência do desejo e sentida mais como escravidão do que como prazer. Perdemos a nossa liberdade.

Outro exemplo clássico é o da coceira. Queremos instintivamente aliviá-la, coçando-nos. Esse coçar é certamente agradável no instante em que o fazemos, as a coceira não tarda a voltar, mais irresistível do que nunca, e acabamos por voltar a nos coçar – até sangrar. Confundimos coçar com curar. Quando decidimos não nos coçar mais, apesar do forte anseio que persiste, não é porque a vontade não esteja presente, mas porque aprendemos com a experiência que isso leva à dor e que se deixarmos acalmar o fogo da coceira, o tormento logo passará. Não se trata de uma repressão doentia, nem de uma questão de moral ou de princípios, mas de uma ação inteligente em que preferimos um bem-estar durável à alternância entre alívio e dor. Trata-se de uma medida prática, baseada na análise e no bom senso. O filósofo budista indiano do século II, Nagarjuna, resume esse processo: “É bom coçar-se quando vem a coceira, mas é melhor quando ela não vem. É bom satisfazermos os nossos desejos, mas é melhor quando estamos livres deles” 3. O principal obstáculo a essa liberdade é nossa resistência a toda forma de mudança interior que acarrete esforço. Preferimos declarar, corajosamente: “Quanto a mim, escolhi me coçar”.

É possível tornar-se mais atento à maneira como se formam as imagens mentais e adquirir a compreensão, e depois o controle, sobre a evolução dessas imagens. A repressão (ou a satisfação) só acontecerá quando a intensidade do desejo tornar-se tal que seria doloroso insistir em não realizá-lo. Mas no caso em que as imagens mentais se formam e se desfazem naturalmente, não há nem intensificação nem repressão do desejo. No capítulo dedicado aos antídotos, examinamos diversos métodos ou técnicas para conservar a liberdade quando ele está presente, sem no entanto reprimi-lo. À medida que a força das imagens mentais diminui, não nos submetemos mais ao desejo, e isso pode ocorrer sem que tenhamos que lançar mão da menor atitude repressiva. As poucas imagens que ainda surgirem não são mais do que centelhas fugidias no espaço da mente.

Do desejo à obsessão

O desejo obsessivo que costuma acompanhar o amor apaixonado deturpa a afeição, a ternura e a alegria de apreciar e compartilhar a vida com alguém. Ele é o oposto do amor altruísta. Surge de um egocentrismo doentio que acarinha a si mesmo no outro ou, ainda pior, busca construir a própria felicidade às expensas do outro. Esse tipo de desejo só quer se apropriar das pessoas, dos objetos e das situações que o atraem para ter controle. Considera a atração como uma característica inerente àquela pessoa, cujas qualidades ele amplia, enquanto subestima os defeitos. “O desejo embeleza os objetos sobre os quais pousa as suas asas de fogo” 4, ressaltou Anatole France.

A paixão romântica é o maior exemplo desse tipo de cegueira. Eis como o dicionário define paixão: “Um amor poderoso, exclusivo e obsessivo. Afetividade violenta que atrapalha o julgamento.” Ela é alimentada pelo exagero e pela ilusão e insiste em que as coisas sejam outras, diferentes de como realmente são. Como uma miragem, o objeto idealizado é insaciável e fundamentalmente frustrante.

E quando ocorre uma louca paixão sexual? Podemos concordar com Christian Boiron, escritor e CEO, segundo o qual “a atração sexual não é patológica, mas também não é uma emoção. É a expressão normal de um desejo, como a fome e a sede”. Mesmo assim, ela faz surgir em nós as mais poderosas emoções porque sua força deriva dos cinco sentidos: visão, tato, audição, paladar e olfato. Na ausência da liberdade interior, qualquer experiência sensorial intensa engendra apegos e nos subjuga cada vez mais. Ela se parece com o redemoinho de um rio: nós não lhe damos muita atenção, pensamos que podemos nadar ali sem problemas, mas quando o turbilhão acelera e fica mais profundo, somos sugados para dentro dele sem nenhuma esperança de resgate. Já a pessoa que consegue manter uma perfeita liberdade interior experimenta todas essas sensações na simplicidade do momento presente, com o deleite de uma mente livre de apegos e expectativas.

O desejo obsessivo é reflexo da intensidade e da frequência das imagens mentais que o desencadeiam. Como um disco riscado, fica repetindo o mesmo leitmotiv. É uma polarização do universo mental, uma perda de fluidez, que prejudica a liberdade interior. Alain escreveu: “Este amante desprezado, que se contorce sobre a cama em vez de dormir e que medita sobre vinganças terríveis. O que sobraria da sua ferida se ele não pensasse mais sobre o passado e sobre o futuro? Este ambicioso, ferido no coração por um fracasso, onde procurará ele sua dor, senão em um passado que ressuscita e em um futuro que inventa?”

Essas obsessões tornam-se muito dolorosas quando não são atendidas e vão ficando cada vez mais fortes quando o são. O universo da obsessão é um mundo onde a urgência se vincula à impotência. Somos pegos por uma engrenagem de tendências e pulsões que conferem à obsessão um caráter lancinante. Outra de suas características é a insatisfação fundamental que ela suscita. Ela não conhece a alegria e muito menos a plenitude ou a realização. Não poderia ser de outra maneira, já que aquele que é vítima da obsessão insiste em buscar alívio exatamente naquelas situações que são as causas do seu tormento. O dependente de drogas reforça a sua dependência, o alcoólatra bebe até chegar ao delírio, o amante desprezado olha para a foto da sua amada o dia todo. A obsessão gera um estado de sofrimento crônico e de ansiedade, aos quais se somam, por sua vez, o desejo e a repulsa, a insaciabilidade e a exaustão. Na verdade, ela é um adendo às causas do sofrimento.

Estudos indicam que diferentes regiões do cérebro e diferentes circuitos neurais estão em ação quando “queremos” alguma coisa e quando “gostamos” dela. Isso nos ajuda a compreender pelo qual, quando nos acostumamos a sentir certos desejos, tornamo-nos dependentes deles – continuamos a sentir a necessidade de satisfazê-los mesmo quando já não gostamos do sentimento que provocam. Chegamos ao ponto de desejar sem gostar, desejar sem amar. No entanto, podemos querer ser livres da obsessão, que machuca porque nos compele a desejar aquilo que não nos agrada mais. Podemos, também, amar alguma coisa ou alguém sem necessidade desejá-los.

Pesquisadores implantaram, em determinada região do cérebro de ratos, eletrodos que produziam sensações de prazer quando estimulados. Os ratos descobriram que podiam aumentar a intensidade do prazer ao apoiar os eletrodos em uma barra. A sensação de prazer era tão intensa que eles logo abandonaram todas as outras atividades, inclusive a alimentação e o sexo. A busca dessa sensação transformou-se em uma sede insaciável, uma necessidade incontrolável, e os ratos pressionaram a barra até caírem mortos de exaustão.

Desejo, amor e apego

Como distinguir entre o amor verdadeiro e o apego possessivo? O amor altruísta pode ser comparado ao som puro que vem de um copo de cristal, e o apego ao dedo que, ao tocar a beira do copo, abafa esse som. Reconhecemos desde o princípio que a ideia de uma mor desprovido de apego é relativamente estranha à sensibilidade ocidental. Ser desapegado não significa que amamos menos a pessoa, mas que não estamos centrados no amor por nós mesmos nos escondendo no amor que dizemos sentir pelo outro. O amor altruísta é a alegria de compartilhar da vida daqueles que estão à nossa volta – os nosso familiares, os nossos amigos, os nossos companheiros, a nossa esposa ou o nosso marido – e contribuir para a felicidade deles. Amamos o outro por aquilo que ele é e não através da lente distorcida do egocentrismo. Em vez de ficarmos apegados ao outro, temos que ter em mente a felicidade dele; em vez de esperar que ele nos traga alguma gratificação, podemos receber o seu amor recíproco com alegria.

E depois podemos ir ampliando e estendendo esse amor. É preciso ser capaz de amar todas as pessoas incondicionalmente. Amar um inimigo – isso é pedir demais? Esse empreendimento pode parecer impossível, mas baseia-se em uma observação muito simples: a de que todos os seres, sem exceção, querem evitar o sofrimento e conhecer a felicidade. O amor altruísta genuíno é o desejo de que isso possa se realizar. Se o amor que oferecemos depende do modo como somos tratados, nunca seremos capazes de amar o nosso inimigo. No entanto, é certamente possível ter a esperança de que ele pare de sofrer e seja feliz!

Como conciliar esse amor incondicional e imparcial com o fato de que temos na nossa existência relações preferenciais com certas pessoas? Tomemos o sol como exemplo. Ele brilha para todos, com o mesmo calor e a mesma claridade, em todas as direções. Mas há seres que, por diversas razões, se encontram mais perto dele e que, por isso, recebem mais calor. Mas em nenhum momento essa situação privilegiada é uma exclusão. Apesar das limitações inerentes a qualquer metáfora, compreendemos que é possível gerar em si mesmo uma bondade a partir da qual chegamos a olhar para todos os seres como se fossem pais, mães, irmãos, irmãs ou filhos. No Nepal, por exemplo, chamamos qualquer mulher mais velha do que nós de “grande irmã”, e a mulher mais nova, de “pequena irmã”. Essa bondade aberta, altruísta e atenciosa, longe de diminuir o amor que sentimos por aqueles que nos são mais próximos, só o faz aumentar, aprofundar-se e ficar ainda mais belo.

É claro que temos que ser realistas – concretamente é impossível manifestar da mesma maneira a nossa afeição e o nosso amor por todos os seres vivos. É normal que os efeitos do nosso amor envolvam mais determinadas pessoas do que outras. No entanto, não há razão para que uma relação especial que temos com um amigo ou um companheiro limite o amor e a compaixão que sentimos por todas as pessoas. A essa limitação, quando surge, damos o nome de apego. O apego é nocivo na medida em que, sem propósito algum, restringe o campo de ação do amor altruísta. É como se o sol deixasse de brilhar em todas as direções e se reduzisse a um estreito feixe de luz. O apego é fonte de sofrimento porque o amor egoísta se bate contra as barreiras que ele mesmo levantou. A verdade é que o desejo possessivo e exclusivista, a obsessão e o ciúme só têm sentido no universo fechado do apego. O amor altruísta é a mais expressão da natureza humana, quando essa natureza não é viciada, obscurecida e distorcida pelas manipulações do ego. O amor altruísta abre uma porta interior que torna inoperante o sentimento de importância de si mesmo e, portanto, também o medo desaparece. Ele nos permite dar alegremente e receber com gratidão.

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6 Comments

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  1. 1
    ELCY CUNHA BERANGER

    LEONARDO, EIS UM TEXTO QUE NOS FARÁ VOLTAR POR VÁRIAS VEZES A ELE. SEMPRE VOLTO 4, 5 VEZES À CADA UM. VOCÊ, SEM QUERER ENSINAR, ATRAVÉS DELES, VAI NOS PRESENTEANDO COM SABEDORIA, APRENDIZADO E AMOR. ABRAÇO GRANDE E PAZ. _/_

  2. 2
    Aléssia Ducasse

    LEONARDO,
    Parabéns pela escolha deste maravilhoso texto : (Trecho do livro, “Felicidade – A pratica do Bem Estar”, por Matthieu Ricard) .
    Isto é o que podemos dizer, com ALEGRIA:
    QUE ENSINAMENTO AUSPICIOSO!
    Muito obrigada, Aléssia.

  3. 5
    Flávio

    Gostei muito do texto! Ele veio ao encontro de algumas inquietações pessoais, o amor com liberdade e uma perspectiva ética para o desejo, e já sou muito grato ao autor e ao editor, o Leonardo, por dividir conosco essas reflexões.

    Só queria fazer umas anotações que espero sejam construtivas:

    – Que a psicologia cognitiva contribua hoje para a compreensão da psique, é fácil concordar; daí a dizer que tenha “derrubado” Freud é um tanto ingênuo, e justamente do ponto de vista acadêmico.

    Entendi que, segundo o autor, o sofrimento tem na sua raiz o desejo não-elaborado (fora de aspirações moralmente construtivas). Nesse contexto, a psicanálise pode explicar o sofrimento psíquico “grave”, mas, por algum motivo não esclarecido, não explica “todos os outros”? Ele diz que todo sofrimento nasce, de qualquer forma, da “acumulação de imagens e de pensamentos”, para, mais à frente, afirmar que “as imagens mentais vão sendo criadas pelo desejo e ressurgem com rapidez”. Ora, mas não são as imagens mentais, segundo o autor, que criam os desejos?

    Não quero com isso refutar a abordagem cognitivista, mas apenas enfatizar a inconsistência do argumento de que desejos, enquanto pulsões não-elaboradas, não podem gerar as tais imagens mentais. Podemos discutir como seu léxico chega à mente, como modulá-las, como ressignificar nossos desejos, mas dizer que eles são criados por imagens mentais e que, por conseguinte, o desaparecimento destas é o próprio desaparecimento do desejo, não me parece defensável pelos próprios argumentos do texto.

    É preciso lembrar ainda que o conhecimento da ciência não é feito de iconoclastia, mas de uma dialética que absorve, remodela e amplia conceitos antigos. Mesmo os erros do passado têm seu valor: são as perguntas do presente.

    – Outra observação: “Estudos indicam”, “pesquisadores implantaram” não me parecem boas alternativas explanatórias. As fontes são essenciais, até para podermos avaliar nós mesmos os méritos desses experimentos. Apesar disso, o argumento do autor, que se desenha sobretudo no plano ético, pode encontrar nos princípios compartilhados de seus leitores um bom fundamento. É isto que me faz agradecê-los.

  4. 6
    José Benetti

    Olá!
    Muito obrigado por compartilhar esses belos ensinamentos.
    Realmente preciosos e nos fazem pensar em como levamos nossas vidas.
    Também fiquei com questões parecidas com as do Flávio e acredito que ele foi bem ponderado nas colocações, fazendo ao mesmo tempo uma crítica necessária.
    Porém, Flávio, olhando melhor fiquei com a impressão de que Mathieu Richard não está propriamente defendendo uma posição cognitivista. Primeiro, tem questões de tradução que tem que ser levadas em conta. A própria palavra “mente”, que aparece pouco neste texto e poderia estar mais no texto original, num contexto budista/tibetano tem muitas conotações. Li, sim, que os pensamentos geram o desejo (e achei estranho), mas também li que ele fala em “imagens mentais” (e isso não é propriamente um pensamento).
    Enfim, o que ele parece apontar é que se reconhecemos que o ciclo desencadeado por uma sucessão de desejos, o que invariavelmente nos leve ao sofrimento, pode ser “desligado”, “redirecionado”, “liberado” (palavras “minhas”) pela mente, então estamos lidando com um campo mais familiar.

    Gratidão!
    E alegria!

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