O Caminho do Discípulo

O Caminho do Discípulo


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O caminho do discípulo não se refere a um   caminho específico de vida. Ele se refere, mais exatamente, ao fato de que   uma vez estando abertos nossos olhos para nossas aspirações mais íntimas,   nossa vida inteira é transformada numa vida de “ouvir o Ensinamento”.

Esse modo de   vida é a mais verdadeira expressão da nossa natureza mais íntima – sem isso, jamais nossas vidas atingirão a realização. Há tantos estilos de vida diferentes, quanto há seres humanos, e apesar disso, estamos todos   unidos pela nossa natureza humana. A partir dessa base comum, encontramos nossa unidade neste ato de ouvir o Ensinamento. Os patriarcas da Terra Pura,   esclarecem que a religião não é nada em especial, mas algo fundamental, que é compartilhado por toda a humanidade. Essa visão foi depois melhor desenvolvida por Shinran.

O Budismo tem três elementos básicos: Ensinamento, Prática e Iluminação. Primeiro toma-se refúgio no Ensinamento, depois pratica-se o que ele transmite e,   através disso, obtém-se a iluminação. Tal é o caminho do Budismo.

Entretanto, como mostrará um estudo histórico, os budistas nem sempre se sentiram satisfeitos com esse caminho franco e direto. Sempre houve um desejo de   entender os Ensinamentos de Buda em termos intelectuais, um desejo que às vezes se sobrepõe à real mensagem do Budismo. O Budismo requer apenas que   vivamos e morramos de acordo com o que o Buda ensinou; a abordagem   intelectual apenas tem complicado e obscurecido essa verdade simples. Quanto maior o ímpeto para a lógica, mais o Ensinamento perde do seu significado religioso. Quando abordado de uma forma puramente intelectual, o Ensinamento   é reduzido a pouco mais que uma especulação filosófica. E o Ensinamento não é especulação, ele existe para nós, aqui neste exato momento.

Constantemente recebemos o Ensinamento, independentemente de “entendê-lo” ou não. Aquilo que entendemos intelectualmente é um mero dogma ou crença doutrinária,  não é o Ensinamento ativo e vivo no qual podemos basear nossas vidas. Isto não é religião no sentido que a palavra japonesa shukyo (A palavra japonesa Shu significa Essencial e a palavra Kyo é o   Ensinamento) – religião – implica.

Por trás do   desejo de entendimento intelectual sempre se levanta uma espécie de vaidade, um sentimento de que o Ensinamento é algo que alguém pode utilizar para si   próprio, e por si próprio. Isto nada mais é que afirmação do ego– envolve a visão de que o Buda nada mais é que um homem e que o Budismo é nada mais que uma coleção de dizeres de uma pessoa chamada Shakyamuni.

Essa visão intelectual, esquece o inteiro significado do relacionamento entre Ensinamento e discípulo. O verdadeiro entendimento do Ensinamento necessita da transcendência do ego, esse mesmo ego que busca entendimento racional.   Quando o ego é transcendido, vemos que as palavras do Buda, vindas do mundo de Nyorai – o absoluto – não são simplesmente os Ensinamentos de algum “grande homem”.

Portanto, a verdade mais profunda dessas palavras está além da compreensão do simples nível de entendimento humano. Seu significado nos parece somente se   devotarmos nossa vida inteira a ouvir e aprender o que delas provêm. Assim   sendo, o verdadeiro significado do Budismo está disponível apenas àqueles que ouvem, guardando a postura de discípulos.

Acho que a principal razão pela qual o Budismo tem conseguido manter sua vitalidade como religião, apesar da contínua tendência à intelectualização, é que   muitas pessoas simples – não homens de estudo e conhecimento – têm  tomado refúgio no Ensinamento, têm seguido seriamente suas intenções e têm vivido suas vidas à sua luz. São essas pessoas que têm preservado o espírito vivo do Budismo. Para elas, o Budismo tem sido sempre o caminho do   Ensinamento, da Prática e da Iluminação.

Os patriarcas da Terra Pura foram homens que, movidos pela sinceridade dessas pessoas simples, dedicaram suas vidas ao caminho do Budismo. Eles não tiveram a   intenção específica de iniciar uma tradição – a da Terra Pura – em contestação a outras Escolas Budistas. Eles, simplesmente detectaram o engano daqueles que se aproximam do Budismo pelo lado intelectual,   reconhecendo que o Ensinamento não é algo para ser tomado racionalmente, mas exatamente algo para ser ouvido com toda a integridade do ser.

Assim sendo,  os patriarcas da Terra Pura revelaram a direção na qual repousa o verdadeiro espírito do Budismo. Na verdade eles nos mostram que todos os   homens sem exceção, podem receber o Ensinamento, desde que se voltem para as origens da vida. Isso não é difícil de entender. Todos têm pai e mãe,   e todos são nutridos pelo mundo ao seu redor – essas verdades fundamentais de existência mantêm cada ser com vida. Ninguém brota do solo. É neste nível de entendimento, que se encontra o mínimo denominador comum da vida, em que todos os seres humanos ouvem o Ensinamento em completa igualdade.

Assim sendo, o Ensinamento da Terra Pura é um caminho universal, no qual os patriarcas da Terra Pura enfatizaram que a vida religiosa é a mais verdadeira vida para o espírito humano. Quando enxergamos além de todas as diferenças superficiais – inteligência, habilidade, personalidade e características  morais – voltamos à nossa natureza original, sem sofisticação, e nos   encontramos no caminho do discípulo, ouvindo o Ensinamento na simplicidade do coração. Tal é a promessa da vida, a promessa revelada no Ensinamento de Shinran.

Rev. Takashi Hirose

Sobre o autor

Takashi  Hirose nasceu em 1924 em Kyoto, no Japão. Segundo filho de uma família de monges budistas, recebeu a ordenação aos 9 anos de idade. Em 1942, entrou para a Universidade Otani, em Kyoto, uma universidade budista ligada ao Templo Higashi Honganji. Finalmente, recebeu o seu doutorado em Budismo Shin   e em 1960 começou sua carreira de professor universitário. De 1970 a 1975 ele licenciou-se e durante este período fez palestras de Budismo Shin, por todo o Japão. Em 1980 foi eleito Reitor da Universidade Otani. O Dr. Hirose dirige o Grupo de Estudos Monko-sha, que se ocupa de pesquisas de  textos clássicos do Budismo Shin. Palestrista popular, o Dr. Hirose é também autor de vários livros e artigos sobre Budismo Shin.

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