O Buddha não anda por você

O Buddha não anda por você


Pinterest

Um dos maiores desafios que o Buddha representou para a religião brahmāṇica de sua época foi quanto ao papel do intermediário entre o homem comum e o objetivo último da religião.

Uma característica da religião preconizada pelos textos sagrados dos brāhmaṇas, os Vedas, era a importância do rito como elemento de manutenção da harmonia do mundo. Tais ritos dependiam de uma elaborada sequência de ações rituais, sacrifícios e mantras que deveriam ser realizados de uma forma precisa. Os especialistas e mantenedores de tais ações eram os brāhmaṇas, uma casta especializada de homens que aprendiam seu ofício desde muito cedo em escolas onde esses conhecimentos e práticas eram transmitidos.

Não é difícil perceber que, por essa razão, os brāhmaṇas ocuparam um lugar fundamental na vida religiosa da Índia védica. Indivíduos das outras castas, ainda que podendo participar em certa medida das atividades religiosas, dependiam invariavelmente do conhecimento especializado dos brāhmaṇas.

Os aristocratas eram responsáveis pelas diversas atividades envolvendo a governança e a administração, enquanto os comerciantes cuidavam de toda a rede de troca de mercadorias e sustentação econômica das sociedades. Aristocratas e comerciantes eram ambos aceitos como parte importante da sociedade, sendo ‘duas vezes nascidos’ , ou seja, aceitos ritualmente como pertencentes ao mundo brahmâṇico. Aos trabalhadores manuais nada restava além do trabalho servil e repetitivo.

Entra o Buddha em cena, e juntamente com outros líderes religiosos, questiona a necessidade do homem do meio intercedendo entre o homem comum e sua salvação/libertação. Mas o caminho indicado pelo Buddha não é fácil.

O Buddha dos textos antigos ensina, de um lado, que não é necessário um sacerdote para intermediar o caminho espiritual, mas de outro lado, aquele que resolver se aventurar nesse caminho necessitará de mais qualidades que aquelas no comum das pessoas: precisará de esforço, determinação nas ações virtuosas, disposição de renúncia, energia na concentração, desapego em relação às próprias noções.

Tal caminho heroico causa um equilíbrio nos poderes. Aristocratas, comerciantes e mesmo os trabalhadores manuais não mais dependem do especialista religioso. Mas agora precisarão provar seu valor interior e embarcar num caminho em que passividade e terceirização não têm vez. E exatamente porque sempre haverá pessoas que não estão dispostas à renúncia, ao esforço, à busca, é que nas décadas e séculos seguintes, mesmo no seio buddhista, voltará o especialista religioso, o profissional que conhece os ritos, as palavras ‘encantadas’, os comentários secretos, sem o qual o caminho espiritual só pode ser trilhado pela metade, mas que contentemente será recebido para poupar ao indolente o próprio caminhar.

A compreensão da natureza humana é essencial, assim, para compreender o desenvolvimento de uma religião. O Buddha dos textos antigos abriu um caminho que qualquer um poderia entrar, mas teria que se esforçar de maneira inigualável.

Aos poucos, entretanto, essa própria classe de homens e mulheres enobrecidos pelo esforço de seus ideais tornou-se aos olhos do povo (e muito frequentemente aos próprios olhos) ela própria uma nova casta brahmâṇica sacerdotal, dotada de conhecimentos inatingíveis, dona das ‘palavras’ e ‘segredos’ que o homem comum necessitará aceitar e devotar-se.

Desta tensão entre independência e indolência, uma parte da história do Buddhismo surgirá, estendendo-se pelas regiões e eras muito além da Índia da época do Buddha.

Categories

6 Comments

Add yours
  1. 2
    Jorge

    brilhante texto, professor!
    apesar da clareza, simplicidade e sinceridade do Buddha o conhecimento volta sempre a ser ‘sofisticalizado’ e daí transformado em poder.
    bom que neste texto o senhor deixa claro que a culpa não é só dos detentores ou ‘sofisticalizadores’ do conhecimento, mas também do buscador vitimado pela preguiça…

  2. 4
    Joao Bissoto

    Ótimo texto. Lembrando-nos de nossa responsabilidade perante nossa condição espiritual e do árduo caminho necessário à Iluminação. Muitos budistas de hoje se esquecem disso e consideram que o simples fato de frequentarem templos os aproxima da condição de Buda. Excelente reflexão a qual nos levou com seu texto. Muito obrigado!

+ Leave a Comment