O amor e as relações


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Trecho do vídeo: O amor e as relações, por Dzongsar Khyentse Rinpoche. Transcrito por Luciano Ribeiro. Então, digamos que você já tenha um noivo ou noiva, ou marido, ou esposa. Vocês estão amarrados, basicamente. Vocês já tem alguém. E agora, o que fazemos? Devemos ir em frente ou devemos virar monges?

Se você já tem um parceiro, é importante lembrar que no budismo, toda a ideia – especialmente no budismo mahayana – o propósito central de praticar o budismo mahayana é levar todos os seres à liberação. Liberação é liberdade, basicamente. E muitas vezes dar liberdade “a todos os seres sencientes” é um pouco como construir uma escada para o céu. É quase abstrato, impensável.

“Todos os seres sencientes?” Talvez o meu vizinho, sim. Algumas centenas, pode ser, mas “todos os seres sencientes” é um pouco demais. É abstrato.

Mas mesmo aquele que não é capaz de liberar e dar liberdade a todos os seres sencientes, nós podemos pelo menos começar levando liberação e liberdade ao nosso próprio parceiro, esposa e marido. E este é um conselho muito prático, devo dizer.

Muitas vezes, quando estamos tendo uma relação, estamos basicamente estrangulando um ao outro. Sabe, asfixiando um ao outro? E isso não é uma relação. Vocês deveriam dar liberdade um ao outro. Para quem a sua esposa, marido, namorado, namorada, está mandando mensagens, com quem ele ou ela está… sabe? Liberdade. Dê espaço. Liberdade.

Eu acho que isso é importante. Na realidade, mesmo se você tem um relacionamento muito bom, eu sugeriria retirar-se de sua esposa ou marido, namorado ou namorada por pelo menos uma hora por dia. Não falar, não mandar mensagens, não comunicar nada. Eu acho que ajudaria.

((De qualquer forma, por último vou concluir isto, assim podemos continuar com as perguntas.))

O próprio Buda Sakyamuni disse que todos devemos tratar nossa vida, tudo o que chamamos de vida familiar, o que seja, como uma experiência de um hotel. É como um hotel, os grandes hotéis. Pessoas fazem check-in e fazem check-out. Entende? É assim que é. A nossa vida é assim. Novos amigos entram, velhos amigos saem.

E esse é um ensinamento tão maravilhoso por que é assim que a nossa vida é. Esta é a beleza da temporalidade. As coisas temporárias são tão boas. É muito prazeroso e bonito. Quando as coisas estão estagnadas para sempre, isso cheira mal. Vocês deveriam pensar que esta vida com seu marido, esposa, namorado ou namorada é muito temporária.

Mesmo aqueles que não se separem durante essa vida em que respiram, algum dia, um de vocês terá de morrer. E quando morrerem, vocês se separam.

Depois que você morrer, provavelmente por três dias você vai se lembrar do nome do seu marido ou esposa. Lá pelo quarto ou quinto dia você se lembra apenas de metade do nome. Pelo décimo dia você não se lembra nem se ele era ele, se ela era ela, se ele era ela ou se ela era ele. E depois, lá pelo vigésimo dia, você não se lembra nem mesmo que aquele era um ser humano.

Então, as forças das próximas vidas começam a se formar. Por exemplo, se você vai renascer como um pássaro, seu amor e admiração… sabe, sempre querer cheirar seu namorado ou namorada, é substituido por sentir-se faminto ao ver um verme. Por que você está prestes a se tornar um pássaro agora e se sente com vontade de voar e tudo mais. A partir desse momento, quem você chamava de querido marido, esposa, namorado ou namorada… este capítulo está encerrado.

E na próxima vez que vocês se verem, pode ser que você tenha renascido como um pombo e se sentar… sabe, onde os humanos comem pão, migalhas… sabe, ao lado de seu ex-marido, ex-esposa, ex-namorado ou ex-namorada… você talvez nem note. E ele ou ela também talvez não vai notar.

E é assim que nós jogamos esses jogos samsaricos.

Seria maravilhoso se nós pudéssemos ir para algum lugar lá em cima e olhar para baixo, para cada vida que nós já tivemos antes. De fato, isso é o que os Arhats podem fazer.

Seria tão triste e feliz, alegre e maravilhoso. Quantas pessoas teriam se enforcado pelo amor de vocês? Quantas pessoas devem ter passado fome pelo amor de vocês? E vocês mesmos, quantas vezes devem ter se enforcado por amor e relacionamentos, por outros?

Lembrem-se da temporalidade. E isso não é só para relacionamentos, é para tudo. Este copo de café poderia ser o meu último. Este livro que estou segurando poderia ser o último livro que vou segurar. E se vocês puderem ter este tipo de atenção, então você pode realmente desfrutar e amar. “Nossa, que livro bom!” Porque de outro jeito, estamos sempre pensando na próxima coisa.

Basicamente, planejando viver para sempre.

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2 Comments

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  1. 2
    Paulo Reis Junior

    Aquilo que acreditamos ser real, ainda que exista efetivamente, não significa que compreendemos e muito menos que sabemos como usufruir dos benefícios inerentes. O corpo é único, a mente é única, a existência é única, tudo é diferente… …nesta existencia ou de outro corpo, mente…

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