“Nós somos o que nós pensamos.” “Eu nunca disse isso!” -Buda.**

“Nós somos o que nós pensamos.” “Eu nunca disse isso!” -Buda.**


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**Texto traduzido da revista Tricycle, edição impressa, Outono (Agosto-Outubro) 2014.
Tradução do inglês para o português do nosso amigo Icaro Matias.

“We are what we think.” … “I never said that” – The Buddha (título original)

Existem diversos tipos de citações falsas do Buda. Algumas delas dizem, frequentemente e acidentalmente, que foram atribuídas ao Buda, embora elas sejam na verdade palavras de autores budistas modernos. Outras são citações anônimas, ou citações de fontes relativamente desconhecidas, que alguém, em algum lugar, decidiu que teria mais a ver com “o Buda”, como autor. E então, existem versos verdadeiros de escrituras, mas traduzidos de uma maneira que a essência de seus significados se perderam, ou novos significados foram adicionados.

Esta última categoria é bem representada pelas palavras “Nós somos o que nós pensamos. Tudo que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos nós criamos o mundo.” (We are what we think. All that we are arises with our thoughts. With our thoughts we make the world) Você pode reconhecer facilmente estas palavras na abertura do Dhammapada, e alguns leitores podem se perguntar o que seria possível estar errado com esta passagem. Isto não é o que o Buda ensinou? O Buda não disse que o mundo é uma ilusão, que nós nos tornamos o que nós pensamos?

Vamos dar um passo para trás um pouco e olhar para o que a linha de abertura do Dhammapada na verdade diz. Lemos no texto em Pali o seguinte: “Manopubbangama dhamma manosettha manomaya” Eu traduziria isto desta forma: “Os estados Mentais (dhamma) são precedidos pela mente (manopubbangama), ter a mente como mestre deles (manosettha), e são criados pela mente (manomaya).” Os dois primeiros versos do Dhammapada, ambos eles que começam com as palavras Manopubbangama dhamma manosettha manomaya, declaram que sofrimento e alegria surgem inevitavelmente de uma mente impura ou pura, respectivamente. Embora mano pode significar ambos “pensamentos” e “mente”, você notará que não há menção no texto Pali de “o mundo”, e portanto, nenhuma sugestão de que o mundo é criado por nossos pensamentos. A mensagem essencial dos dois versos é que a qualidade ética da mente determina se nós sofremos ou não, então o Buda traz um ponto psicológico, não um ponto ontológico.

Nossa suspeita citação vem de uma versão romântica do Dhammapada, de Thomas Byrom. Byrom era um Inglês que ensinava história e literatura em Harvard e em Oxford, mas nada em sua biografia, cedida por suas editoras, sugere que ele alguma vez ensinou ou estudou Pali, o que pode explicar sua poética mas nada literal natureza de sua tradução.

As ligações religiosas de Byrom provavelmente coloriram sua versão do Dhammapada. Ele era um seguidor da filosofia não-dualista Advaita Vedanta e retirou-se para um Ashram (lugar de retiros espirituais) na Flórida, onde ele passou os últimos anos de sua vida. É claro que um Hindu pode traduzir fielmente um texto budista, ou um budistaum texto hindu, mas neste caso é difícil evitar a conclusão de que Byrom estava disposto a “hindualizar” em particular este ensinamento budista. O Advaita Vedanta tradicionalmente conhecido como o Ashtavakragita, uma tradução que Byrom publicou no final de sua vida, inclui a linha “Você é o que você pensa” (1.11). E embora o Dhammapada não fale que o mundo é criado por nossos pensamentos (ou mente), o Ashtavakragita chega perto falando que: “Toda a criação, fluindo para fora do Eu, é apenas o Eu,” e “Quando o mundo surge em mim, é apenas uma ilusão” (2.4;2.9).

Mas o Buda ele mesmo não ensina que o mundo é uma ilusão? Eu estou certo de que alguns budistas acreditam que ele ensinou, e a existência de textos híbridos Hindu-budistas como o Dhammapada de Byrom, sem dúvida nenhuma é a razão para que eles acreditem nisso. Mas enquanto o Buda disse que nós temos uma ilusão, ou moha, sobre a natureza do mundo, ele não disse que o mundo era uma ilusão, ou maya. Maya é um importante termo no Hinduismo, e enquanto isto também é ocasionalmente encontrado nas escrituras Pali, isto aparece mais nas escrituras apenas com significados mundanos como, engano, fraude, hipocrisia, e assim por diante. O Buda não negou a existência do mundo, embora ele tenha apontado que nós fazemos erros grosseiros de interpretação em relação a nossa experiência dele – nós vermos permanência onde existe apenas mudança, consideramos fontes de sofrimento como fontes de alegria, e acreditamos que existe um Eu separado e permanente quando na verdade esta entidade (Eu) não se separa e nem mesmo existe.

Nem o Buda ensina que nós somos o que nós pensamos. “O que quer que um monge continue a perseguir com seus pensamentos e reflexões, isto se torna a inclinação de sua consciência.” (Dvedhavitakka Sutta, MN 19) é superficialmente similar, mas o contexto torna claro o que significa: que satisfazer certos tipos de pensamentos – tais como sensuais – inclina a mente em uma direção particular.

O Dhammapada de Byrom é deliciosamente lírico, romântico, mas ele promove noções que o Buda teria considerado como “visão incorreta” (micchaditthi), e da visão incorreta surge o sofrimento. Para uma tradução mais fiel ao texto Pali e tão bonita quanto, Eu aconselharia a versão de Gil Fronsdal, que desenvolve os dois primeiros versos do Dhamapada assim:

Toda experiência é precedida pela mente,liderada pela mente,criada pela mente.Fale ou aja com a mente corrompida,e o sofrimento seguirá como a roda da carroça segue os cascos do boi.Toda experiência é precedida pela mente,liderada pela mente,criada pela mente. Fale ou aja com uma mente pacífica,e a felicidade seguirá como uma sombra que nunca parte.

A partir de uma perspectiva budista, pensamentos constituem parte de nossas ações, mas apenas uma parte delas. Se havia uma coisa que o Buda acreditava que nos criava, em um nível mais profundo, isto era o nosso Kamma (karma), ou ação intencional. Nós somos “herdeiros de nosso kamma,” “nascidos de nosso kamma,” ele disse repetidamente. Aspiração sem aplicação é tão ineficaz, destacou ele em outros lugares, como tirar leite de chifre de vaca ou esmagar cascalho pra fazer óleo de gergelim. No final, nossas ações irão falar mais alto que nossos pensamentos.

– Bodhipaksa é um autor budista e professor que nasceu na Escócia e hoje vive em New Hampshire. Quando não está revelando e explicando citações falsas do Buda, ele lidera o Wildmind (www.wildmind.org), um recurso online para meditação.

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2 Comments

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  1. 1
    Big Lui

    Eita! Essa descrição é bem famosa: já vi em livros, áudios, estampas… Nunca pensei na possibilidade que fosse “fake”. Vai ser muito difícil para mim desvincular ela de Buda… Mas enfim, que seja!

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