Não há ninguém lá fora

Não há ninguém lá fora


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Estava fazendo um zazenkai em Maringá semana passada e uma senhora disse que era inaceitável que disséssemos no Zen que não havia ninguém lá fora para nos ajudar. Eu a compreendo, é realmente muito difícil de aceitar essa postura, mas para o Zen, só podemos contar com nós mesmos.

Mas somos imensamente poderosos no sentido de que podemos construir nosso próprio futuro, podemos alterar nosso carma e um homem pode provocar tremendas mudanças no mundo. Ela insistiu com sua indignação citando os arcanjos e anjos.

Se houvesse alguém que tivesse o poder de ajudar, tivesse compaixão, fosse bondoso e tivesse sabedoria para ajudar, por que ele esperaria você pedir? Eu imagino que se meu filho caísse, não esperaria que ele me implorasse ajuda. Algum de vocês faria isso, algum de vocês diria que só ajudaria se lhe fosse pedido? Alguém diria para seu filho caído: “Se eu ajudar você, você promete se comportar e estudar?”; “Ajudo só se você pedir com fé”?

Se Buda tivesse o poder de nos ajudar, não precisaríamos pedir para ele, já estaria nos ajudando. Alguém que desenvolveu compaixão não espera; então, imaginarmos que existam seres de sabedoria e bondosos lá fora a quem precisamos orar ou pagar para que nos ajudem é uma tolice nossa.

Não parece que é assim que o Universo funciona; ele funciona com ações e consequências. Fazemos coisas e obtemos resultados. Orar é algo bom, pois as pessoas que oram constroem mentes melhores e criam modificações. Não somos Zen-Budistas para acreditar ou pedir algo para alguém, por isso sentamos, e sentar é muito difícil. Tratamos de cuidar de nossas mentes para que elas sejam melhores, mais sábias, com mais clareza e lucidez, sem se agarrar a fantasias. A tarefa dos Mestres é destruir as crenças e fantasias, desconstruir e tirar tudo a que as pessoas possam se agarrar. Só assim os seres poderão ser livres. Por isso Buda disse: “Não acreditem em mim, testem e experimentem”. Vocês podem mudar suas mentes através da prática, mas não podem mudar o mundo através do “esperar que poderes sobrenaturais os socorram”.

O ensinamento Zen é terrível porque as pessoas procuram consolo nas religiões e o Budismo não oferece consolo. Quando uma mulher foi até Buda com um filho morto no colo pedindo a Buda que o ressuscitasse, Buda disse que o faria desde que ela lhe trouxesse um grão de mostarda de uma casa em cuja família nunca tivesse morrido ninguém. Desta forma ele ensinou que o sofrimento faz parte do mundo.

Para o Zen, só podemos contar com nós mesmos.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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