“Não acreditem em mim. Testem!”

“Não acreditem em mim. Testem!”


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Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos.

O grande mestre da Escola Sōtō Zen que trouxe o Zen da China para o Japão, chamava-se Eihei Dōgen. Ele tornou-se monge aos doze anos de idade porque seu pai e sua mãe faleceram e o tio que podia cuidar dele era um monge da escola Tendai, uma Escola Vajrayana. As Escolas Vajrayana se caracterizam pelo uso de recitações, visualizações e mantras. Eihei Dōgen, depois de muito treinamento, foi até a China porque se sentia insatisfeito com o que tinha aprendido até aquele momento na Escola Tendai e depois na Escola Rinzai, que era uma forma de Zen que tinha chegado ao Japão uns cinquenta anos antes do Sōtō Zen. Assim, Dōgen começou a procurar um mestre na China.

Era por volta do ano 1223, e ir do Japão à China naquela época era uma aventura muito perigosa. Normalmente, de cada quatro viajantes, um morria. O companheiro de Dōgen, Miōzen, faleceu na China. Quando Dōgen retornou, trouxe seus ossos. Mas o que importa é que Dōgen depois de procurar mestres em vários lugares e sentir-se insatisfeito, encontrou Tendo Niojo, um herdeiro da tradição Caodong, que era Abade de um mosteiro. Dōgen treinou com ele durante cinco anos. Após esse período, um dia, praticando meditação, Tendo Niojo repreendeu um monge que estava ao lado de Dōgen, porque aquele havia adormecido. E, tomando seu chinelo, bateu no monge dizendo: “Como pode você desperdiçar esse momento e dormir na prática do zazen?”. Neste momento, Dōgen foi tomado por um despertar profundo e subitamente ele entendeu sua natureza, a natureza última, a natureza do Universo, da vida.

Assim, mais tarde ele foi procurar Tendo Niojo em seu quarto, acendeu um incenso e disse: “Mestre, corpo e mente foram abandonados; deixei cair meu corpo e minha mente, eu os abandonei”. E nesse momento, Tendo Niojo entendeu que Dōgen havia se iluminado, o aprovou e mais tarde lhe deu o certificado de transmissão do Dharma. Dessa forma Dōgen voltou ao Japão e começou a ensinar aquele Dharma que havia aprendido com Tendo Niojo.

Mas o que é esse despertar? Nós somos profundamente enganados por nós mesmos. Nós acreditamos na nossa identidade, no nosso corpo e nossa mente como separados de todo o resto. Nós não conseguimos perceber que a vida é só uma e que somos manifestações da vida. Nós não percebemos que nós e todos os seres pertencemos à mesma vida, que nós e a humanidade somos um. Por não perceber isso, nós estamos sujeitos a nascimento e morte. Por que nascemos e morremos? Porque acreditamos no nosso “eu”. E esse “eu” nasce e morre. Mas a vida não nasce e morre. Nossa visão é muito pequena e, porque estamos mergulhados nessa minúscula percepção individual, temos medo da morte, temos medo do sofrimento, não conseguimos viver plenamente porque não sabemos morrer para nós mesmos. Esse ensinamento, esse Dharma, não é exclusivo do Budismo, ele está escondido em vários outros lugares.

Posso citar aqui várias passagens dos evangelhos cristãos com o mesmo ensinamento. Paulo diz “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo que vive em mim”. São João da Cruz diz “Eu morro porque não morro”, o que significa, “Eu estou morto porque não morro para mim mesmo; como não sei morrer para mim mesmo, eu morro”. Então, eu morro porque não morro. Se nós ao menos conseguíssemos morrer para nós mesmos, poderíamos subitamente enxergar nossa própria eternidade e grandeza. Aqueles que conseguem libertar-se do seu eu, do seu ego, tornam-se completamente diferentes, porque os sofrimentos não podem mais alcançá-los da mesma forma, porque as angústias não têm mais o significado que tinham, porque as perdas são só ondas na superfície do mar.

O mar é belo, as ondas surgem e desaparecem. Nós, quando olhamos o mar, o vemos belo, perfeito, lindo e jamais nos preocupamos com o fato de que as ondas morrem na beira da praia. Quando olhamos a humanidade, sofremos as suas misérias, mortes e perdas, porque olhamos sob a perspectiva de um “eu” individual. Mas quando olhamos o mar, não choramos pelas ondas. Quando olhamos as florestas, não choramos pelas folhas que caem das árvores. Nós conseguimos ver que é uma floresta. Conseguimos ver que ela continuamente nasce e morre, e ela é a própria vida se manifestando. Nós somos isso, a própria vida se manifestando e porque não enxergamos, estamos perdidos. Por isso sentamos em zazen, para nos esquecer de nós mesmos, porque aquele que consegue esquecer-se de si mesmo, pode ser iluminado por todas as coisas.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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