Mente de Principiante?

Mente de Principiante?


Pinterest

Recentemente, tive a grata oportunidade de assistir a (mais) uma excelente palestra do prof. Joaquim Monteiro, com comentários de Isshin-sensei, realizada pela sangha irmã “Águas da Compaixão”. A palestra discorreu, dentre outros interessantíssimos assuntos, sobre um questionamento quanto ao emprego do vocábulo “principiante” (no original “beginner”) no best-seller “Mente Zen, Mente de Principiante”, do muito respeitado mestre zen Shunryū Suzuki-rōshi. Qualquer praticante zen já o leu. Alguns o lerão sempre.

Aqui já se lança um questionamento que aprendemos ser pertinente, na realidade um problema que os especialistas julgam de difícil solução, qual seja, o das traduções de textos capitais para línguas que lhe são totalmente estranhas, muitas vezes até mesmo carentes de vocábulos equivalentes. Basta dizer que a universidade Stanford trabalha nas traduções de textos do mestre Dōgen (fundador da escola Sōtō Zen) e não publica novo material desde 2010! Segundo Isshin-sensei, há possibilidade de que os trabalhos sejam apresentados ao público concluídos e na forma impressa e que o projeto da Stanford não previsse a divulgação da totalidade da empreitada, mas apenas excertos. Saiba mais.

Mas vamos ao texto: “Para os estudantes do Zen, o mais importante é não serem dualistas. Nossa “mente original” inclui em si todas as coisas. Ela é sempre rica e auto-suficiente. Você não deve perder esse estado mental auto-suficiente. Isto não significa uma mente fechada e sim, na verdade, uma mente vazia e alerta. Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito. Se você discrimina demais, você se limita. Se é exigente ou ambicioso em excesso, sua mente não é rica nem auto-suficiente. Se nossa mente perder sua auto-suficiência original, todos os preceitos se perderão. Quando sua mente se torna exigente, quando você anseia por algo, você acaba por violar os preceitos: não mentir, não roubar, não matar, não ser imoral e assim por diante. Se você conservar sua mente original, os preceitos se manterão por si próprios.” (Mente Zen, Mente de Principiante, Editora Palas Athena, como publicado)

Bem, o que observou o prof. Joaquim em sua exposição é que o kanji apropriado a representar um agente que se principia em algo seria grafado de forma diversa, a saber, 初心者 – sho-shin-sha (substantivo), “beginner”, e o kanji utilizado no livro, 初心 – sho-shin, “original”, “intention”, “initial”, “resolution”, por sua vez indicaria um estado ou qualidade, daí o sentido mais preciso, preferível, seria “inicial”. Concluindo, o termo no livro deveria ser entendido como mente inicial, original, e não “mente de principiante”. Mais: não se trataria de uma “mente virginal”, apenas livre de preconceitos e aberta para o que der vier, mas um estado específico que se alcança com o desenvolvimento da meditação, portanto, envolvendo algum grau de perícia, uma qualidade que no contexto do livro inversamente se consagrou negativa, pois ali há clara intenção de denunciar o vício dos que têm sua “xícara cheia”, ou seja, não admitem reparos às suas certezas. A exposição ainda explorou amplamente que estado seria esse e como seria atingido.

Prof. Joaquim Monteiro enfatizou posteriormente que “a referida palestra só tem por intenção colocar algumas questões pertinentes e não apresentar uma conclusão definitiva sobre um tema tão complexo”. Creio, contudo, que essa ressalva não diminuiu em nada a originalidade da exposição e o convite à reflexão.

Da perspectiva pretendida pelos expositores, parece que o status desse “iniciante”, alguém que simplesmente ignora os fundamentos do que se propõe realizar, cai bastante, não? De fato, uma condição inicialmente positiva de abertura e ausência de preconceitos pode mais à frente facilmente ser confundida com inocência desculpável e, nesse caso, essa condição em nada nos ajudaria a partir de determinado ponto do caminho e é evidente que tanto melhores serão os resultados a serem obtidos, quanto maior for nossa habilidade, não é mesmo? Será que um monge em treinamento pode se desculpar de seus erros apelando somente para sua inábil “mente de iniciante”? Essa certamente é uma outra questão que surge e que não podemos ignorar, não?

Isshin-sensei lembrou ainda que mestre Shunryū Suzuki não dominava inglês plenamente, o que é visível quando se ouve algumas das palestras que deram origem ao seu livro e que podem ser ouvidas aqui. É provável, neste contexto, que o mestre tivesse dificuldade de expressar conceitos totalmente ignorados em cultura tão diversa da sua, eventualmente tenha escolhido, por engano, vocábulos em inglês que entendia serem compatíveis com os termos originais, ou tentava explanar por aproximação, consciente disso. Como conclui Isshin-sensei, ele estava ensinando o que era possível aos ouvintes assimilarem. Outros professores do Dharma confessaram ter escolhido mal alguma palavra quando tentavam se expressar no idioma dos ouvintes.

Enfim, importante dizer que não pretendo aqui mais que sugerir uma reflexão. Para o aprofundamento do tema, assistam ao vídeo da palestra e reflitam: que tipo de mente é preferível em cada etapa do caminho?

Organização: Rodrigo Daien

Categories

+ There are no comments

Add yours