Harmonia

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Quando dizemos na cerimônia “Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia”, isso é de fato o que a Sangha deveria ser: o lugar da harmonia. Mas a Sangha é feita de pessoas e as pessoas são cheias de egos e defeitos e por causa disso, produzem atrito. Dizemos, então, que a Sangha funciona como um pilão de arroz: batemos no arroz e porque um se arrasta no outro, perde a casca. Nós, na Sangha, sofremos atritos; porque sofremos atritos, perdemos nossa casca e porque perdemos nossa casca, podemos nos tornar puros. A Sangha não é o lugar onde a harmonia existe, mas é o lugar onde buscamos ficar de tal forma que a harmonia se crie. Como fazemos isso?

Os preceitos são cheios de regras a esse respeito. Já nos dezesseis primeiros preceitos, existe um que diz: “Não se eleve”, principalmente, “não se eleve rebaixando os outros”. Então, quando vemos defeitos nos outros e citamos esses defeitos, automaticamente estamos dizendo que não temos os defeitos apontados nos outros. Na verdade, a prática budista significa, para esse preceito, que “eu não vejo defeitos nos outros, sei das dificuldades que as outras pessoas têm, mas não posso ser cego para as dificuldades que tenho”. Por causa disso, quando encontro defeito em alguém, devo procurar me concentrar nas qualidades dessa pessoa e imediatamente devo citá-las: “tal pessoa tem esses e esses defeitos, porém, tem todas essas outras qualidades”. Devemos apontar suas virtudes, virtudes que muitas vezes nós mesmos não temos.

O que mais nos atrapalha, a todo momento, é termos um ego, uma vaidade e uma noção de separação. Estou separado dos outros, por causa disso, eu penso que ajo melhor do que os outros. Devo me calar a respeito de todas essas coisas e devo procurar fazer com que as pessoas manifestem suas qualidades. Sobre minhas qualidades devo me calar. Sobre minhas dificuldades, também devo me calar, pois sei que tenho dificuldades e não é útil ficar falando sobre elas, apenas devo tentar me corrigir. O melhor caminho é o silêncio. Calar e agir. Não devemos enxergar, quando os outros apontam alguma dificuldade nossa, um ataque ao nosso ego. Nesse momento, devemos nos perguntar: “Quem se incomodou?”, “Quem se importa com isso?”. Meu orgulho e minha vaidade se importam com isso, por isso me importo e não quero ser criticado. Meu orgulho e minha vaidade são meus grandes inimigos, pois, são a manifestação do meu ego, portanto, eles fazem a separação. Se me sinto separado, então, estou prisioneiro do ego; se estou prisioneiro do ego, sou prisioneiro de nascimento e morte. Eu nasço e morro porque tenho um ego. Se eu morrer para mim mesmo, não existe mais ninguém para morrer, me livro da morte. Para perder o medo da morte, devemos perder o medo de ter um ego ferido e um ego que desaparece. Para nos livrarmos da morte, temos que morrer agora. Agora. Morri.

Morri para mim mesmo, nada importa. Se nada importa, se o que os outros dizem não importa, se não existe nada que possa me ferir, então, eu superei o ego. Se o professor no zen nos corrige ou aponta um erro, não nos defendemos, não nos justificamos, apenas fazemos gasshô e agradecemos. Mas isso é muito difícil. Por isso pedimos “sente-se em zazen e abandone-se, esqueça o passado, esqueça o futuro, esqueça-se de si mesmo; se se esquecer de si mesmo, então estará livre”. Enquanto houver comentários discriminativos – “gosto disso e não daquilo” – há um ego se manifestando. “Eu prefiro isso” é um ego falando. “Não gostei da atitude de Fulano” é um ego falando. “Eu gostei do elogio que o professor me fez” é o ego falando. Esse ego é nossa ilusão, nossa prisão fundamental. Por causa dele nós estamos aqui, presos em corpos e por causa dele nós nascemos e morremos. O ensinamento de Buda para escapar do sofrimento e escapar de tudo, de velhice, doença e morte, está baseado principalmente em morrer para si mesmo. Morrer para seu próprio ego, morrer para sua vaidade, é para isso que treinamos. Não é para sermos importantes, sermos iluminados, alcançarmos algo, sermos melhores que outros, não é para nada disso. É para nos esquecermos de nós mesmos. Enquanto pensarmos “eu sou melhor”, estamos presos.

Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

Imagem “O rakusu, esse símbolo que carregamos, uma miniatura do manto de Buda, possui na sua parte de trás uma imagem de uma agulha de pinheiro. Os pinheiros quando crescem sozinhos ficam tortos, mas em uma reserva cheia de pinheiros, um incomoda o outro ao crescer se encostando e se apoiando em busca da luz do sol, desta forma eles crescem retos. Por isso a agulha de pinheiro é o símbolo da Sōtō Zen. Daí a importância da Sangha.” – Genshō-sensei

Organização: Rodrigo Daien

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