Grande Fé

Grande Fé


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O segundo elemento essencial a uma boa prática é uma “Grande Fé”. Fé na prática, fé nos ensinamentos, fé no professor – um ser humano, com falhas humanas, que tem mais experiência no Caminho e algum tanto de “iluminação” manifestada. E, mais ainda, fé na sua possibilidade de poder manifestar a sua própria “iluminação”, de encontrar a “resposta” à sua Grande Dúvida.

Inicialmente, pode ser que parte desta fé você encontre depositando fé nos outros. Você gostou e confia no seu Professor de Darma. Ou admira um praticante budista e confia nele. Mas os seres humanos são literalmente isto: seres humanos, sujeitos a falhas. Podem nos desiludir. Mais ainda: uma das funções dos Professores de Darma é “puxar o tapete” debaixo de nossos pés. Podem até nos provocar, fazendo com que manifestemos a nossa “sombra”, na esperança de que possamos “iluminar” este aspecto nosso que foi trazido à luz. Nestas horas, podemos até nos sentir “traídos” pelo Professor, enquanto não estamos compreendendo o que ele está tentando nos ensinar. Portanto, temos que ir além desta fé inicial, depositada em seres humanos externos a nós mesmos. De um lado, temos que amadurecer e aprofundar a nossa fé no Professor e outros seres humanos, temperando-a com fé nos ensinamentos e no próprio Darma – passo-por-passo.

E os ensinamentos, que foram transmitidos já durante 2.600 anos – podemos depositar fé neles? Podemos, mas isto também tem suas limitações, pois a transmissão dos ensinamentos depende da comunicação e das palavras, sempre sujeitas às mais variadas interpretações. Transcrições de diálogos entre grandes mestres e os seus alunos não nos transmitem o contexto, o cenário, todos os detalhes que fizeram com que aquelas palavras fossem as mais apropriadas para aquele aluno naquele momento.

No Zen, encontramos inúmeros exemplos de professores que, num momento dizem uma coisa e, em outro momento, dizem exatamente o contrário. Será que estão mentindo? Será que são loucos? Ou será que estão simplesmente falando exatamente aquilo que é mais apropriado àquele momento, àquele contexto, àquele aluno – para convidá-lo a tomar o próximo passo de aprendizagem? Como alunos do Zen, existem momentos que podemos nos desesperar com um professor que parece estar se contradizendo. Como é forte, nestes momentos, o sentimento de “Mas você não falou ‘x’ antes? Por que está falando ‘y’ agora? Qual é a verdade, ‘x’ ou ‘y’?”.

Conheço uma mestra moderna que faz isto o tempo todo. Será que ela é louca? Não acho, não. Acho que ela está simplesmente me desafiando a mergulhar para dentro e encontrar a MINHA verdade – e desafiando outras pessoas com quem ela faz a mesma coisa a fazer o mesmo mergulho para dentro. Não é um processo fácil. Mas certamente me oferece a oportunidade de me aprofundar na fé verdadeira que preciso cultivar – a Grande Fé. Fé na minha própria Natureza Buda, fé no Universo, fé no Darma, fé na minha prática, fé em mim mesma. Fé para atravessar a noite escura da alma – ou as noites escuras da alma. É aí que entra o terceiro pré-requisito da prática. (continua)

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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