Formações e Consciência

Formações e Consciência


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Apresento hoje as explicações acerca de mais duas proposições da fórmula acerca da cooriginação dependente.

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Chegamos agora à segunda proposição: Sankhara-paccaya vinnanam: “Através das formações kâmmicas (na vida passada, a presente) consciência é condicionada. ” Em outras palavras: através do kamma, ou atividade volitiva na vida prévia, a vida consciente no nascimento presente é condicionada.

Aqui, afirmamos o seguinte: os cinco elos – consciência, fenômenos físicos e mentais, as seis bases da vida mental, impressões e sensações (vinnana, nama-rupa, salayatana, phassa, vedana) – aqui dizem respeito apenas ao kamma resultante (vipaka), fenômenos neutros, representando assim o lado “passivo” da vida. Entretanto, os cinco elos que constituem o kamma, a saber, ignorância, formações kâmmicas, desejo sedento, apego e processos vitais kâmmicos (avijja, sankhara, tanha, upadana, kamma-bhava) representam o lado “ativo” da vida[1]. Devemos, pois, considerar os cinco elos passivos, como consciência e etc., como cinco resultados (vipaka), e os cinco elos ativos, como avijja, etc., como cinco causas. Assim, a vontade afirmadora da vida ou volição, (cetana) que se manifesta nessas cinco causas kâmmicas, é a semente da qual toda vida brota e da qual brotará novamente no futuro. Nossa segunda proposição, portanto, mostra que nossa vida consciente presente é o resultado de nossas formações kâmmicas produzidas em vidas passadas, e que sem estas formações kâmmicas pré-natais como causa necessária, nenhuma vida consciente jamais se desenvolveria no útero materno.

Desta forma, as formações kâmmicas são, para a consciência do renascimento do ser embrionário, quando de sua concepção no útero materno, uma condição mediante o kamma ou causa. Da mesma maneira as formações kâmmicas atuam com relação a todos os elementos da consciência moralmente neutros. Assim também, os cinco tipos de consciência sensorial com objetos desejáveis e agradáveis são o resultado, ou vipaka, de formações kâmmicas pré-natais; e aquelas com objetos indesejáveis e desagradáveis são o resultado de formações kâmmicas prejudiciais.[2]

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Chegamos à terceira proposição, a saber: Vinnana-paccaya nama-rupam: “Através da consciência os fenômenos mentais e físicos (que compõem nossa assim chamada existência individual) são condicionados. ” O significado dessa proposição pode ser inferido a partir do Mahanidana Sutta (DN 15), onde se diz: “Se a consciência (vinnana) não aparecesse no útero materno, os fenômenos mentais e físicos (nama-rupa) surgiriam? ”[3]

O fenômeno mental (nama) refere-se aqui aqueles sete fenômenos mentais universais inseparáveis unidos à toda consciência resultante do kamma, junto com os cinco tipos de consciência sensorial. Estes sete fenômenos mentais universais e inseparáveis são: sensação, percepção, impressão, volição, vitalidade, atenção e concentração. Na consciência mental resultante do kamma eles são aumentados por mais três ou quatro fenômenos. O fenômeno físico (rupa) refere-se a este corpo e seus vários órgãos, faculdades e funções. Nota: Nos textos canônicos são mencionados apenas vinte e sete fenômenos físicos, enquanto que nos comentários o número é aumentado pela adição da mente ao conjunto do físico (lit. base-do-coração).

Agora, como os fenômenos mentais, nama, são condicionados pela consciência? E como o são também os fenômenos físicos ou rupa?

Todo e qualquer estado de consciência, como explicado anteriormente, é para seu concomitante fenômeno mental, como sensação, etc., uma condição mediante a co-nascença ou surgimento simultâneo (sahajata-paccaya).  A consciência não pode surgir e existir sem sensação, nem sensação sem consciência; do mesmo modo, todos os demais fenômenos mentais que pertencem aos mesmos estados de consciência são unidos de modo inseparável numa unidade, sem existência independente. Estes fenômenos mentais são, como sempre, somente aspectos diferentes daquelas unidades de consciência que, como relâmpagos, brilham por um momento para logo em seguida desaparecerem para sempre.

Mas como a consciência (vinnana) pode ser uma condição para os vários fenômenos físicos (rupa)?

Em planos de existência nos quais a matéria e a mente existem p.ex., o reino humano, no momento da concepção a consciência é uma condição absolutamente necessária para o surgimento do fenômeno físico orgânico; é uma condição mediante a co-nascença. Se não há consciência a concepção não ocorre, e não aparece nenhum fenômeno material orgânico. Ao longo da vida, entretanto, a consciência é, para o já surgido fenômeno físico condição mediante pós-nascença ou surgimento posterior (pacchajata-paccaya), e também mediante a nutrição (ahara), porque a consciência forma um escoro e apoio para a conservação do corpo. Do mesmo modo que a sensação de fome é uma condição para a alimentação e conservação deste corpo já surgido, a consciência é para este mesmo corpo uma condição e suporte mediante a co-nascença ou surgimento posterior. Se a consciência não surgisse mais, os órgãos físicos iriam gradualmente cessar de funcionar, perderiam suas faculdades e o corpo morreria. É deste modo que devemos entender a proposição: Vinnana-paccaya nama-rupam: “Através da consciência os fenômenos mentais e físicos são condicionados”.

 

 

[1] Conferir diagrama no final do texto.

[2] É de fato a qualidade dos cinco objetos sensoriais atribuídas a cada ser que, quanto ao principal, decide o grau de sua felicidade ou infelicidade mundana.

[3] Todas estas traduções de nama-rupa como “nome e forma”, etc., são totalmente deslocadas. Nama-rupa = naman ca rupam ca (MN 9), isto é, “o mental e o físico”, a parte sua aplicação em paticca-samupadda, é o nome dado aos cinco grupos de existência, a saber, os quatro nama-kkhandhas ou grupos mentais (sensação, percepção, formações mentais, consciência), e o rupa-kkhandha, ou grupo corpóreo. Aqui, no contexto de paticca-samupadda, nama refere-se somente a três grupos mentais: sensação, percepção e formações mentais, enquanto que o grupo consciência fica separado para mostrar que toda vida física e mental dos seres é dependente dele.

 

Créditos da foto: http://jornalprimeiraimpressao.com/site/?p=1680

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