Estamos todos interligados: um testemunho

Estamos todos interligados: um testemunho


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Uma linda manhã de primavera em Kyoto, dia 5 de maio de 2013.  Céu azul, sem uma nuvem sequer, sol brilhando e um friozinho acolhedor.  Levantamos cedo, eu, Rev. Jean e um amigo, Sandro para mais um tour nessa maravilhosa cidade, antes de entrarmos para os preparativos de nossa ordenação no dia seguinte.  Decidimos ir ao Ryoan-ji ver o famoso “jardim de pedras” que forma um dragão e ao Kinkaku-ji, o maravilhoso templo dourado.  Saímos cedo pois sabíamos que com aquele tempo lindo o afluxo de gente a esses dois locais turísticos ía ser grande.  Tomamos nosso café e pegamos o ônibus para o noroeste da cidade.

Chegamos ao Ryoan-ji, o templo do dragão e fomos seguindo as pessoas pelo parque até entrar no pavilhão principal e depois ir conhecendo os aposentos do templo.  Nesse instante ouvimos o português brasileiro ser falado perto de nós.  Dois casais bem jovens, nos seus vinte e poucos, conversavam animadamente, ora andando na nossa frente, ora um pouco mais afastado.  Eram duas descendentes de japoneses e dois “gaijins”, com o perdão da expressão.

Estavam sempre perto, mas não falamos com eles. Fomos ao Kinkaku-ji e mais uma vez os encontramos várias vezes, mesmo em um parque tão grande.

Na hora de ir embora, uma multidão se formava no ponto de ônibus quase em frente a entrada do parque e nós três, resolvemos dar uma de brasileiros: “vamos descer a ladeira e pegar o ônibus no ponto de baixo, um antes e evitamos a confusão”. Pensamento muito egoista, confesso.  Contudo, quando descíamos a rua, avistamos uma galeria de ukyo-e (pinturas japonesas) bem moderna. Paramos e entramos para apreciar as pinturas e comprar algumas para o meu pai como lembrança da viagem. Demoramos pelo menos uns 40 minutos na loja e saímos em busca de nosso ponto de ônibus. Nesse tempo, pelos menos uns 3 já haviam passado.

Chegamos ao ponto e ainda esperamos uns bons 15 minutos pelo transporte, que aparece praticamente vazio, o que nos permitiu nos acomodar nos assentos.  Subimos a rua e chegamos ao ponto do Kinkaku-ji que parecia ter duplicado em quantidade de pessoas, mesmo tendo vários ônibus passados já.

Como tudo no Japão: zero confusão para entrar no ônibus, todos subiram com muita calma, mas o coletivo ficou bem cheio. Eu e Sandro cedemos nossos lugares para duas senhoras japonesas (que só faltaram levar-nos para almoçar de tanta gratidão!) e Rev. Jean ficou no assento segurando as sacolas com nossas últimas comprinhas.  Trocamos algumas palavras em português e então ouvimos uma voz feminina: “Que bom encontrar brasileiros aqui!”.  E parados no corredor ao nosso lado, os dois casais que nos “seguiram” e foram “seguidos” por nós a manhã toda.

O percurso de 20 minutos até nosso albergue foi de muito papo e troca de informação sobre Nara, Uji, Kyoto, Tokyo. Dicas para cá, dicas para lá e nos conectamos ali mesmo nos nossos facebooks.  No retorno ao Brasil, trocamos algumas fotos e ficamos “conectados” desde então, mas sem muita interação, além de um “curtir” aqui e acolá.

Além de meu trabalho religioso e também tenho um trabalho secular: trabalho em uma empresa de consultoria de tecnologia bem conhecida do mercado e muito grande, liderando o departamento de vendas.  Há um mês mais ou menos, meus colegas de execução de projetos estavam em busca de um razoável número de profissionais, analistas (pessoas em início de carreira) e consultores.  Como vivemos um período antagônico no mercado de trabalho em nosso país, estava complicado em achar mão-de-obra adequada, quando recorri ao Facebook, postando uma vaga de analista para meus amigos e pedindo indicações.

Quase que imediatamente, o Juliano um dos quatro de Kyoto me chama no messenger dizendo que estava interessado na vaga e que embora tecnologia não fosse a área dele, gostaria de competir por ela, na esperança de trocar de atuação profissional.  Encaminhei o ótimo curriculum dele para meus pares para análise.

No final de várias entrevistas, o Juliano foi aprovado, tendo seu potencial reconhecido e finalmente…. contratado!  ORa, todos sabem como é esse processo de procura de emprego tanto para o lado empregador como do empregado. Contatos, envios de muitos Curricula e uma grande batalha para que haja confiança mútua.  Mas o mais chave de tudo é NETWORKING, ou seja, se fazer conhecer e ser conhecido pelas pessoas certas nos locais certos e, claro, na hora certa.

Resolvi contar isso aqui para vocês como uma maneira  de demonstrar na prática o que á “originação dependente” que tanto falamos no budismo.  Mais do que o karma, mas sim, as condições que são geradas por nós e pelos que nos cercam para que a realidade exista.  Alguns podem falar que o relatado acima foi o “destino”, ou que um deus “nos colocou frente a frente” ou ainda que “os astros conspiraram” para que essa conexão se estabelecesse (embora eu não consiga ver o planeta Marte e a estrela Sirius conversando sobre o tema!).   Mas não é nada disso.  Simplesmente, por mais incrível que possa parecer, nós todos fomos criando uma teia de acontecimentos sucessivos que culminou com essa conexão, fazendo com que um encontro fortuito, de 7 brasileiros dentro de um ônibus, numa manhã ensolarada de primavera, em Kyoto, pudesse alterar a carreira profissional de um deles, praticamente um ano depois… o mais incrível é que ele vai começar a trabalhar na empresa exatamente no dia que fará 1 ano que nos conhecemos: 5 de maio!

Mas o que teria acontecido se eu tivesse resolvido tomar uma xícara de café a mais naquele dia? Ou se tivéssemos invertido a ordem dos templo (o que chegamos a discutir no café da manhã: Ryoanji ou Kinkakuji primeiro)? Se tivéssemos esperado o primeiro ônibus em frente ao templo (o Juliano e seus amigos demoraram mais que nós lá dentro)? Se meu pai não gostasse de ukyo-e e eu não tivesse entrado na galeria por causa dele?  Se eu não tivesse adicionado o Juliano no meu Facebook ou se ele ignorasse minhas postagens?  Como seria o presente hoje?

Com esse relato, quero deixar a mensagem de que não podemos de maneira alguma desprezar o nosso presente, deixar de prestar atenção nos mínimos detalhes de nossa vida e de seus acontecimentos. Não podemos deixar de se importar com os outros e principalmente entender que nós fazemos nosso presente, nós o construímos momento a momento, segundo a segundo…

Namu Amida Butsu

Rev. Mauricio Hondaku

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