Dhammam saranam gacchami

Dhammam saranam gacchami


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Como buddhistas tomamos refúgio também no Dhamma, a segunda joia. As características do Dhamma que o tornam objeto de refúgio são expressas em páli da seguinte forma:

svakhato bhagavata dhammo sanditthiko akaliko ehipassiko opanayiko paccattam veditabbo vinnuhi

            A tradução (mais uma vez, do professor Ricardo Sasaki) é como segue:

O Dhamma bem exposto pelo Bem-Aventurado, visível aqui e agora, não limitado pelo tempo, que convida a vir e ver, que leva ao interior, para ser experienciado pessoalmente pelo sábio.

Vamos comentar de modo breve tais características. Além das referências mencionadas nos textos anteriores adiciono aqui o livro do David Kalupahana, a history of buddhist philosophy, especialmetne o capítulo XI, intitulado pensamento religioso popular. Vejamos agora as explicações acerca das características do Dhamma.

1 – Svakhato bhagavata dhammo: o Dhamma é bem exposto pelo Bem-Aventurado.  Não devemos entender isso no sentido de ser o Dhamma algum tipo de verdade absoluta e definitiva, imutável. Tal qualidade diz respeito a clareza com a qual o Buddha ensina, seu modo preciso e sem ambiguidades de ensinar. Se não se pode falar de verdades absolutas por conta da nossa linguagem, isso não impediu o Buddha de falar verdades em sentido pragmático, ou seja, falar de modo claro aquilo que conduz a nibbana, ao fim do sofrimento.

2 – Sanditthiko: visível aqui e agora.  Esta segunda característica diz respeito ao teor experiencial do Dhamma. Aquilo que o Buddha ensina foi por ele experimentado e pode ser experimentado pelos que seguem este caminho. Kalupahana aponta para o fato de que, nesse sentido, sendo a iluminação a cessação das tendências contaminantes, o que muda na mente liberta é o modo de se relacionar com os objetos, não as fontes da experiência. Outro ponto importante é que, sendo visível aqui e agora, o Dhamma pode ser compartilhado, não se trata de uma negação, de uma não-visão ou um não-entendimento.

3 – Akaliko: não limitado pelo tempo. Não devemos entender isso no sentido de atemporal ou eterno, sob pena de entrarmos em contradição com grande parte dos textos buddhistas e com o teor geral do ensinamento. O Dhamma é aplicável a tempos diferentes, ou seja, não é fruto de um contexto cultural específico que desaparecendo o levaria consigo. Esse modo de pensar, por não se colocar dentro de uma lógica absolutista não torna o relativismo condenável em si mesmo. Ao mesmo tempo que o Dhamma mantem sua integridade ele se adapta a elementos presentes em cada cultura com a qual se integra.

4 – Ehipassiko: que convida a vir e ver. Tal característica diz respeito a verificabilidade do Dhamma, para usar a expressão de Kalupahana. Não há segredo escondido, existem adptações, gradações entre praticantes, mas para os preparados, todo o Dhamma se revela de modo pleno. Essa é uma possibilidade ou uma porta sempre aberta, trilhemos ou não. Por isso o convite está sempre aí, sempre vale, depende de nós ir e ver.

5 – Opanayiko: que leva ao interior.  O Dhamma conduz a eliminação das raízes do mal, a saber, cobiça, ódio e confusão. Ver-se livre disso é realizar plenamente o ensinamento e isso não implica acesso a uma realidade metafísica transcendente.

6 – Paccattam veditabbo vinnuhi: para ser experienciado pessoalmente pelo sábio. Sábio não implica necessariamente um Q.I. Elevado, diz respeito a ser prudente, perceber as consequências negativas das ações e se abster de tais ações, perceber a importância de adotar uma vida moral, seguir um determinado treinamento, tendo em vista a felicidade para si e para os outros.

Notemos que nenhum tipo de fé cega ou confiança cega na mera autoridade não é exigida aqui, como em tudo mais. A confiança, o respeito, o compromisso resultam de ser possível experimentar coisas que o Dhamma promete. Tal possibilidade alimenta o caminho.

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