Desapego, uma desculpa para a indiferença?

Desapego, uma desculpa para a indiferença?


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Uma certa vez, perguntaram-me se acreditava que o conceito Budismo Engajado era genuinamente Budista ou se era uma ideia ocidental de caridade e boas ações sendo aplicadas ao Budismo. Expliquei que honestamente acreditava e sentia que o Budismo em toda sua essência já é e sempre foi sobre envolvimento social, bondade e todas estas coisas que hoje identificamos como atividades de um Budismo Engajado. Expliquei que como o Budismo tem sido incorporado em várias culturas, estas culturas tem também influenciado como o Budismo tem sido praticado, o que em alguns casos, acredito, tendem a obscurecer as atividades socialmente engajadas de budistas.

Pessoalmente sou entusiasmado em ser e praticar um Budismo Engajado e encorajo todos a minha volta a fazerem o mesmo. Encorajo todos os membros e discípulos a expressarem suas práticas Budistas na sociedade através de trabalhos sociais em que quaisquer de suas capacidades e habilidades podem ser desejadas e se adequem. No entanto, depois de pensar um pouco sobre esta questão, me perguntei se talvez eu estivesse tão comprometido com a ideia de Budismo Engajado que eu facilmente compreendi e ajustei em meu entendimento sobre o Budismo.

 “Ninguém discordaria que os ensinamentos internos e práticas que guiam a transformação e libertação do EU (self) são a essência do Budismo. Mas a percepção e consciência que estas práticas desenvolvem não são aplicadas ao longo do dia – em nosso trabalho, em nossas relações, e em nossas reações a crises sociais mais próximas de nós e ao redor do mundo – então ‘altruísmo’ passa a ser um eufemismo para o egoísmo, e desapego uma desculpa para a indiferença.” – Fred Epsteiner, ‘The Path of Compassion: writing on Socially Engaged Buddhism’

Taigen Dan Leighton em seu livro ‘Faces of Compassion: Classic Bodhisattva Archetypes and Their Modern Expression’ (em tradução não oficial: ‘Faces da Compaixão: Arquétipos Clássicos de Bodhisattva e suas Expressões Modernas’), ele fala sobre como na profunda essência de ser um bodhisattva está a noção de “despertar universal ou iluminação de todos”. Mais pra frente ele ainda afirma que, “Eles existem para guiar e prover o socorro aos sofrimentos dos seres, e oferecer a todos uma abordagem à uma vida espiritual mais significativa.”

Estas declarações em si, realmente não falam necessariamente sobre o conceito de Budismo “engajado” porque elas ainda têm em seu coração uma missão subjacente, não óbvia, implícita, de propagação. Enquanto que para mim, a ideia de Budismo “engajado” é trabalhar dentro da sociedade de uma maneira que reflita nossos ensinamentos Budistas, sem um motivo claro de proselitismo. Em outras palavras eu não acredito que seja um tipo de compensação do tipo quid pro quo; nós damos e fazemos sem qualquer expectativa.

 “Ao seguir ensinamentos sobre generosidade, paciência, conduta ética, meditação balanceada, e compreensão do que é essencial, nós podemos vir a viver também para beneficiar os outros. Assim, nós também aprendemos compaixão por nós mesmos e vemos que nós não estamos separados da pessoa que imaginávamos como afastadas de nós e como opostas às nossas esperanças e desejos. Eu e Outro se desenvolvem juntos.” – Leighton, ‘Faces of Compassion’, pg. 26

Então em outras palavras nós seguimos ensinamentos que estão na essência do Budismo e percebemos que nós não podemos manter estes ensinamentos apenas conosco, para si, porque nós também estamos conectados a todas as outras pessoas, e como diz Leighton, “EU e Outros se desenvolvem juntos”. A ideia de que ao seguirmos o Budismo nós nos afastamos da vida é uma falta de compreensão da doutrina. A literatura Budista é cheia de homens e mulheres vivendo normalmente e praticando o Budismo com sucesso.

“Pode ser agradável a certas pessoas viver uma vida reclusa em um lugar tranquilo longe de barulho e perturbação. Mas é certamente mais louvável e corajoso praticar o Budismo vivendo entre seus semelhantes, ajudando-os e a serviço deles. Talvez pode ser útil em alguns casos para uma pessoa viver recluso por um tempo, a fim de melhorar a sua mente e personalidade, como uma formação moral, espiritual e um treino intelectual, para se fortalecer o bastante para mais tarde voltar e ajudar os outros. Mas se alguém vive a vida inteira em solidão, pensando unicamente em sua felicidade e libertação, sem se importar com os demais seres, isto certamente não está de acordo com os ensinamentos do Buda, que são baseados em amor, compaixão e serviço aos outros.” – Walpola Rahula, ‘The Path of Compassion’, pg. 103

Penso que existem varios escritos que auxiliam no assunto para estar seguro em afirmar que a prática na sociedade ajudando outras pessoas é realmente uma prática Budista importante e legítima.

O capítulo 22 do Sutra de Lótus diz: “Quando vemos alguém que não recebe este sutra pela fé, você deve mostrar a ela algum outro profundo ensinamento meu, ensine-o, beneficie-o e leve-o a contentar-se. Quando você fizer tudo isto, você será capaz de retribuir os favores que lhe foram dados pelo Buda.”

Talvez seja um exagero, mas nesta declaração “beneficie-o e leve-o a contentar-se” entendo serem instruções que dizem que independente de haver ou não alguém que toma fé no Sutra de Lótus, ou qualquer outro profundo ensinamento do Buda, nós ainda devemos considerar como podemos beneficiar as pessoas e leva-los ao contentamento. Em outras partes do Sutra de Lótus é dito que inumeráveis benefícios surgirão aquele que eleva O Sutra de Lótus, então quando nós fazemos com que alguém se contente, eles não estão nos alegrando, mas em vez disso a nossa prática e expressão do Sutra de Lótus.

Não é importante quão grande ou pequeno o esforço pode parecer para a pessoa que está fazendo, é o fazer que realmente significa algo. No início nossos esforços podem parecer triviais, mas eles são importantes, nada mais que isso. Se nós olhamos apenas para alcançar um grande objetivo, então nós nunca deveríamos sequer ter começado. É melhor começar que sonhar. Ao definir os objetivos, muitas vezes incentiva-se a quebrar este objetivo em pedaços menores, que faz com que a tarefa pareça menor e mais viável. Cada pequeno esforço é realmente monumental quando você considera que a inércia de não se importar é superada pelo simples primeiro paço. Existem várias maneiras de se envolver, ouça sua paixão, o que te guia, o que te move. Comece por aí. Dê um tempo e não sinta que apenas porque você começou com algo e isso não diz nada ao seu coração você não pode tentar alguma outra coisa. Faça o que sente que é certo, o que acha que tem um talento especial, e faça isso com a alegria de praticar como um bodhisattva.

*tradução livre do texto “Detachment an Excuse for Indifference?” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

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