Cooriginação dependente

Cooriginação dependente


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Trago hoje, e ao longo das próximas semanas, para os leitores deste blog uma conferência dada por um grande monge da tradição theravada de nosso tempo: Nyanatiloka Mahathera. Esta conferência é a terceira numa série de quatro, publicadas sob o título fundamentals of buddhism (Fundamentos de buddhismo). O tema é um dos mais profundos e difíceis de tratar, a caber o surgir condicionado ou cooriginação dependente. Espero que ajude a trazer luz sob este tema tão importante e tão denso.

Hoje me sinto na obrigação também de explicar a escolha da foto de capa do texto. David Hume, um grande filósofo do século XVIII lidou com a questão da causalidade ao longo de sua produção filosófica. Um exemplo que ele  gostava de dar para explicar o fenômeno da conjunção constante entre evento A e evento B era o das bolas num jogo de bilhar, daí a foto. Claro que as conclusões de Hume acerca da causalidade são deveras diversas das que encontraremos nos suttas, mas a título de ilustração simples da dinâmica “ação-resultado da ação” podemos usar este modelo.

Créditos da foto: http://www.synthesisips.net/blog/people-are-not-billiard-balls/

 

Vamos ao texto.

 

III – PATICCA-SAMUPADDA:  COORIGINAÇÃO DEPENDENTE[1]

 

Não é sem alguma hesitação que ouso falar a vocês acerca da mais profunda das doutrinas budistas, paticca-samupadda, “ cooriginação dependente”, ou seja, o surgimento condicional de todos os fenômenos físicos e mentais comumente agrupados sob as rubricas tradicionais “ser vivo”, “indivíduo” ou “pessoa”. Assim, devidamente consciente da grande dificuldade em falar de assunto tão intricado diante de um público talvez não muito familiarizado com a filosofia budista, devo tentar com todas as forças evitar, na medida do possível, todos os detalhes altamente técnicos ou detalhes que possam confundir. Usarei uma linguagem clara e simples, para que qualquer um de vocês possa acompanhar minhas explicações. Ao mesmo tempo não devo perder de vista o real objetivo e propósito pelo qual o Buddha ensinou esta doutrina para o mundo. Deste modo, pedirei que vocês ouçam cuidadosamente e deem às minhas palavras atenção completa e indivisa. Peço ainda que tentem reter em mente aqueles poucos termos técnicos em páli e inglês que usarei repetidamente durante minha palestra.

Vocês podem não estar cientes de que, até os dias atuais, o significado e propósito reais de paticca-samupadda são praticamente desconhecidos dos estudiosos ocidentais. Com isto, entretanto, não quero dizer que ninguém no ocidente jamais falou ou escreveu acerca desta doutrina. Não, muito pelo contrário. Não há nenhuma outra doutrina budista acerca da qual acadêmicos[2] e aspirantes a acadêmicos do ocidente tenham escrito e discutido tanto – mas entendido tão pouco – quanto precisamente a doutrina de paticca-samupadda.  Caso desejem ter uma ideia clara destas especulações – em grande parte absurdas e imaturas – e interpretações fantasiosas, frequentemente baseadas em mera imaginação, podem ler o apêndice de meu Guia do Abidhamma Pitaka.[3] Parece que raramente um desses autores ou conferencistas colocou para si mesmo a questão de saber por que razão o Buddha pensou ser necessário ensinar tal doutrina. Decerto não foi para dialética ou ginástica mental. Muito pelo contrário! Paticca-samupadda mostra as causas e condições para todo sofrimento no mundo e como, pela remoção destas condições, o sofrimento pode não mais surgir no futuro. P.S. mostra de fato que nossa existência presente, com toda sua aflição e sofrimento, é condicionada, ou, dito de modo mais exato, causada pelas volições afirmadoras da vida ou pelo kamma de uma vida anterior, e que nossa vida futura depende das volições afirmadoras da vida e do kamma presentes. Sem tais volições, nenhum renascimento futuro ocorrerá, portanto, a libertação do ciclo de renascimentos será encontrada, deste ciclo indócil do Samsara. Este é o objetivo e propósito finai da mensagem do Buddha, a saber, libertação do renascimento e do sofrimento.

Penso que depois do que vocês acabaram de ouvir, não é preciso dizer que P.S. não pretende ser, como vários estudiosos ocidentais imaginaram, uma explicação acerca das origens primeiras de todas as cosias; e que seu primeiro elo, avijja ou ignorância, não deve ser considerado um primeiro princípio sem causa a partir do qual, no decurso do tempo toda vida física e consciente evoluiu. P.S. ensina simplesmente a condicionalidade, a natureza dependente, de todos os múltiplos fenômenos da existência, sejam eles físicos ou mentais; condicionalidade que afeta tudo que acontece, seja no reino físico, seja no mental. P.S. mostra que a soma de fenômenos físicos e mentais conhecida pelo nome convencional “pessoa” ou “indivíduo” não é de todo o resultado de acaso cego; mas que cada fenômeno neste processo da existência é completamente dependente de outros fenômenos como condições; e que, portanto, com a remoção daqueles fenômenos que formam as condições para o renascimento e o sofrimento, tanto o renascimento quanto o sofrimento irão cessar e acabar. Isto como disse antes, é o ponto vital e o objetivo do ensinamento do Buddha: libertação do ciclo de renascimento com toda sua aflição e sofrimento. Deste modo, P.S. serve para elucidar as segunda e terceira nobres verdades acerca da origem e extinção do sofrimento, na medida em que explica estas duas verdades desde sua base ou fundamento até o topo, dando a elas uma forma filosófica fixa.[4]

Nos discursos do Buda, P.S. é normalmente apresentada mediante doze elos dispostos em onze proposições. Eles são como segue:

1.Avijjapaccaya sankhara: “Através da ignorância, as volições que produzem renascimento ou formações kâmmicas, são condicionadas. ”

2.Sankhara-paccaya vinnanam: “Através das formações kâmmicas (na vida passada, a presente) consciência é condicionada. ”

3.Vinnana-paccaya nama-rupam: “Através da consciência os fenômenos mentais e físicos (que compõem nossa assim chamada existência individual) são condicionados. ”

4.Nama-rupa-paccaya salayatanam: “Através dos fenômenos mentais e físicos as seis bases (da vida mental, i.e. os cinco órgãos dos sentidos e a consciência como sexto) são condicionados. ”

5.Salayatana-paccaya phasso: “Através das seis bases a impressão (sensória e mental) é condicionada. ”

6.Phassa-paccaya vedana: “Através das impressões (sensórias ou mentais) a sensação é condicionada. ”

7.Vedana-paccaya tanha: “Através da sensação o desejo ardente é condicionado. ”

8.Tanha-paccaya upadanam: “Através do desejo ardente o apego é condicionado. ”

9.Upadana-paccaya bhavo: “Através do apego, o processo do tornar-se (que consiste nos processos vitais ativo e passivo, ou seja, o processo kâmmico que produz renascimento e, como resultado, o processo do renascimento) é condicionado. ”

10.Bhava-paccaya jati: “Através do processo do tornar-se (processo produtor de kamma) o renascimento é condicionado. ”

11.Jati-paccaya jaramaranam, etc.: “Através do renascimento, decadência e morte, tristeza, lamentação, dor, aflição e desespero são condicionados. Assim surge toda essa massa de sofrimento (no futuro). ”

Eis de modo abreviado toda P.S. ou cooriginação dependente. Agora, vamos examinar cuidadosamente as onze proposições uma a uma.

 

[1] Segunda conferência pela Fundação Dona Alphina Ratnayaka, University College, Colombo, 1938.

[2] Adotamos a palavra acadêmico como tradução para scholar neste caso, pois entendemos que a palavra estudioso aqui não fornece a dimensão de estudo formal que scholar sugere.

[3] Publicado pela BPS (1983). Nota do autor

[4] Para uma exposição detalhada das quatro nobres verdades, veja Nyanatiloka, A Palavra do Buddha, (BPS, 1981)

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