O Dharma da Cebola

O Dharma da Cebola


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“O problema do budismo é o sujeito que pensa, ou seja, o eu. O budismo acha que as diferentes pessoas vivem em mundos diversos. Cada um de nós vive no mundo que vê e compreende. As coisas são vistas pelas diferentes pessoas de maneiras diferentes, adquirindo significados diversos. Assim, certas coisas são vistas por algumas pessoas e passam desapercebidas por outras. Isso decorre das experiências anteriores da pessoa, bem como da situação dela no momento em questão. Tais são os princípios conhecidos como Originação Dependente e Não-Eu. O homem é produto de variadas causas. Se formos retirando as causas, uma a uma, não sobra nada. O homem é como uma cebola composta por cascas superpostas”.

Esta é a analogia da cebola, proposta pelo Prof. Rev. Takehashi. Cada um de nós é formado por inúmeras camadas de experiências, circunstâncias, aprendizado, habitat, influência cultural, social, econômica e genética. Se despirmos o homem de suas camadas, nada restará. Desta conclusão, chegamos ao conceito de Não-Eu. Ou seja, é o Despertar, a libertação do Eu a partir da consciência de que o Não-Eu não é simplesmente extinção ou nulidade, ou vazio niilista. Pois é a partir do nada, da vacuidade que surgem todas as possibilidades. Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, proclama a física, mas o conceito budista de vazio anula até mesmo o conceito de espaço e tempo.

Em nosso Seminário sobre Ritualística ocorrido em fevereiro, ressurgiu a questão.

– Quando descascamos a cebola até o fim, o que resta? Perguntou Rev. Takehashi.

– Restam as lágrimas. Respondeu nosso amigo.

Ora, a resposta impulsiva e com o intuito de ser apenas engraçada, na verdade contém um ensinamento profundo que longe de contra-argumentar a analogia, reforça-a ainda mais.

O Eu é um agregador de causas, que está totalmente subordinado ao princípio da Originação Dependente, e este Eu agrega tudo baseado em seu apego a suas paixões mundanas (Bonnô) – é o cerne da condição humana.

Uma vez despido de suas camadas, desvela-se o Não-Eu. Porém, o Eu é mais persistente, resiliente, mesmo submetido a pressões, ricocheteia entre as paredes do espaço e tempo e mantém-se insubjugado e acuado pelo conceito de anulação do Eu pelo Não-Eu. Nesta situação, creio que cabe a resposta “restam as lágrimas”. O ser humano verte lágrimas pela dicotomia alegria versus tristeza. Ambas são o resultado extremo de nossas paixões, penso eu. Em outras palavras, o ser humano, incapaz de desfazer-se de suas camadas, ainda persiste em suas paixões mundanas (Bonnô) materializadas em forma de lágrimas. Quando nem sequer lágrimas restarem no final do processo de descascar a cebola, este indivíduo certamente é um ser Desperto.

Mas para nós, até o fim, restariam apenas as lágrimas. Restando apenas a Compaixão do Buda Amida para a salvação do Eu que chora.

Revª. Sayuri Tyôjun

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