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  • Zen

    Uma gota de sabedoria

    Sente-se apenas pelo bem do zazen.

    “Talvez seu zazen ainda seja o zazen de um iniciante ou, algumas vezes, pior do que o de um iniciante. Às vezes, sinto vergonha de mim mesmo quando vejo um estudante praticando muito bem: ‘Ah, ele é muito bom’. Desejaria ser ainda tão jovem quanto ele, mas é tarde demais. De qualquer modo, nossa prática não pode ser melhor do que a de uma rã sentada, mas tudo bem. Assistir alguém praticando um bom zazen é inspirador, não apenas para mim, mas para todos. Se seu zazen for bom o bastante para causar boa impressão, seu zazen será bastante bom, ainda que você não pense assim. Da mesma maneira, ainda que você pense que seu zazen é muito bom e você sinta orgulho de sua experiência de iluminação, se seu zazen não inspirar ninguém, talvez seja uma prática errada.

    “Quando falamos a respeito dos preceitos, dizemos: ‘Não faça isso’, ‘Não faça aquilo’. No entanto, se você estiver fazendo alguma coisa boa como o zazen, não poderá fazer algo ruim ao mesmo tempo. Se você continuar agindo bem, será assim que se observam nossos preceitos. Então, a questão é apenas se sentar, esquecendo tudo a respeito de fama ou lucro. Sente-se apenas pelo bem do zazen. E assim que se tem uma mente que realmente busca o caminho para encontrar seu desejo mais profundo.” Trecho extraído de “Nem sempre é assim”, do mestre Zen Shunryu Suzuki, Editora Religare

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Grande Dúvida

    A maioria das pessoas chega à prática espiritual motivada por um sofrimento que deu origem a um questionamento. Quase sempre, a pessoa está fazendo uma pergunta do tipo “Por que está acontecendo ‘x’?” ou “Por que eu?”.

    Muitas destas pessoas nem dão continuidade à prática num centro de prática séria, e vão embora depois de uma, duas – algumas – visitas. Outras pessoas, depois de algumas sessões de meditação, sentindo algum alívio do problema imediato que as trouxe até o zazen, já relaxam os seus questionamentos. Talvez até se tornem associadas, até venham a se considerar “praticantes”. Mas a verdade é: não chegaram a fazer a pergunta essencial, não se abriram para a “Grande Dúvida” e, assim, ainda não entraram realmente no caminho espiritual.

    Algumas poucas pessoas, ao passar por uma situação de dificuldade, acabam aprofundando as perguntas iniciais (“Por que eu?”, “Por que está acontecendo ‘x’?”) para começar a questionar: “Quem sou eu?”, “Qual é o significado da minha vida?”, “Qual o sentido da vida e da morte?”.

    Estas são perguntas da “Grande Dúvida” – o início da caminhada espiritual. A tradição Rinzai Zen usa os “koans” para provocar a Grande Dúvida. Quanto mais intensamente se vivencie a “Grande Dúvida”, tanto maior será a “iluminação” obtida. Acredito que, na nossa realidade de seres humanos, as nossas “iluminações” são, na verdade, “pequenas iluminações”, pois a diferença entre “ter uma ou algumas experiências de iluminação” e “se tornar uma pessoa iluminada”, ou “se tornar uma pessoa que manifeste plenamente a sua iluminação”, é igual à diferença entre água e vinho.

    Os mestres também nos ensinam que aquela pessoa que se acha “iluminada” não é. Ainda nos ensinam que a prática deve ser constante e pelo resto da vida – e próximas vidas, também.

    Portanto, sempre que acreditamos que encontramos uma resposta à “Grande Dúvida”, é importante que recoloquemos a pergunta e sigamos além, além da resposta atual, além da nossa compreensão deste momento, sempre além, sempre nos aprofundando mais e mais.

    O grande perigo aqui está em achar que encontramos “A Resposta” e que a “Grande Dúvida” já acabou. Vamos cair numa complacência, arrogância – talvez até nos posicionando como prontos para liderar outras pessoas, mas, na realidade, estamos nos iludindo e iludindo os outros. De certa forma, a nossa caminhada espiritual foi abandonada. O nosso Zazen se tornou um “zazen de conforto”, um “zazen de consumo”. Sempre podemos encontrar mais um pedaço da resposta à “Grande Dúvida”.

    Mas, vamos dizer que você está com o seu questionamento “à flor da pele”. Entrou no caminho espiritual e iniciou uma prática. Aí surge a questão da fé. (continua)

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A iluminação existe?

    A iluminação existe e as pessoas têm como perceber isso, pois têm experiências iluminadas em suas vidas, mesmo que muito breves. Em um belo momento vemos o mundo como maravilhoso e sentimos uma grande e profunda felicidade, quando parece que tudo está certo e é perfeito, mas ao primeiro pensamento e à primeira consideração, essa percepção se esvanece. O que seria, então, a iluminação? Não é um acontecimento extraordinário e especial, mas ao mesmo tempo é extraordinário e especial. Talvez algumas pessoas, tão envolvidas estão com problemas, preocupações, insegurança, raivas e sentimentos menores, que jamais tenham uma experiência iluminada em suas vidas. Essa turbulência sentimental as afasta da percepção pura, mas, no entanto, esta percepção está a qualquer momento disponível, o que acontece é que as pessoas não chegam a percebê-la com facilidade e ela muitas vezes surge em momentos de paz e quietude interna.

    Quando surge um momento como este um sentimento de profunda felicidade pode nos invadir. Esse sentimento de felicidade invasiva é semelhante a quando uma pessoa se apaixona e sabe que é correspondida. No exato momento desta percepção, uma euforia invade a pessoa e ela sente-se profundamente feliz, até que surjam as primeiras perspectivas de problemas, medos ou inseguranças, que irão destruir essa sensação.

    A iluminação não é assim, ela tem esse aspecto de felicidade e plenitude, mas não há um objeto do qual seja dependente, trata-se de uma mudança interna. Como você mudou por dentro todo o mundo lhe parece diferente. O que sucede então é o que chamamos de “Kenshō”, é vermos nossa verdadeira natureza por um breve momento e essa experiência é uma experiência iluminada. Às vezes as pessoas têm essa experiência não exatamente por estarem praticando meditação, mas em qualquer tipo de prática religiosa e a abertura de uma porta mística lhes permite sentir ou perceber como se tivessem levantado a ponta de um véu que lhes possibilitasse ver que do outro lado existe luminosidade.

    No entanto esta experiência se perde com grande facilidade e qualquer pequeno incidente faz com que ela desapareça. Por isso fazemos uma distinção entre o “kenshō”, que é fugaz, e a iluminação verdadeira, que chamamos de “Satori”. “Satori” é ter atingido um estado tal em que esta experiência está disponível sempre. Você pode chamar quando quiser e ela irá lhe invadir. Não que isso seja algo sobrenatural, apenas você aprendeu como fazer a sua mente se comportar daquela forma e quando você faz isso, se dissolvem as distâncias entre sujeito e objeto, entre “eu” e os outros ou entre mim e as coisas. Passa a existir uma identidade entre o “eu” e todas as coisas e é como se o “eu” tivesse desaparecido e essa sensação de totalidade e plenitude é profundamente feliz.

    Talvez algumas pessoas, tão envolvidas estão com problemas, preocupações, insegurança, raivas e sentimentos menores, que jamais tenham uma experiência iluminada em suas vidas.

    Essa sensação possui algumas características interessantes, como por exemplo, ao atingir esse estágio nenhuma pergunta fica sem resposta, não existem dúvidas, dissolvem-se as divisões sectárias entre religiões ou crenças e, então, todas parecem ter um aspecto apreciável e compreensível e por isso surge grande paciência, tolerância e compreensão. Nós praticamos zazen porque é a prática de nossa linhagem, que é focada na iluminação. Já falei algumas vezes que mesmo em nossa escola essa prática não é a mais comum, pois algumas pessoas estão focadas nas cerimônias e demais práticas formais, julgando ser isso o verdadeiro Zen. As práticas formais são apenas técnicas ou métodos para despertar um espírito que facilite o surgimento desta percepção, mas esta exige um treinamento da mente e por isso treinamos uma forma de meditação que pode até ser desconfortável para o corpo, mas o despertar não virá sem este acesso. Não se trata de fé ou crença e, sim, de experiência, portanto tudo que posso lhes dizer é que testem e experimentem e, se vocês tiverem uma pequena experiência, saberão que a grande experiência é possível. Nosso foco é a grande experiência.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (2)

    (continuação da 1ª parte)
    A primeira armadilha que vou tratar não é um “sinal de progresso” – mas é talvez uma das piores armadilhas da nossa prática.

    Chama-se “atalho espiritual”, ou “spiritual bypassing” em inglês, e é encontrada em vários caminhos espirituais. A palavra “bypass” significa literalmente “passar pelo lado”, e a melhor tradução que consegui neste contexto para o português foi “atalho espiritual”. Mas é uma tradução que pode levar a uma compreensão errônea do conceito.

    As décadas de 1950 e 1960 foram um período de grande expansão da malha rodoviária norte-americana com a construção das grandes “interstate highways” (rodovias interestaduais). Isto facilitou bastante a locomoção de uma parte do país ao outro e unificou o país de ponta a ponta, mas também trouxe um efeito colateral que talvez não tivesse sido previsto, e que dificilmente vemos sendo comentado: o declínio e até a “morte” de um grande número de cidadezinhas e vilarejos. Devido aos “atalhos” que agora passavam pelo lado destas cidadezinhas, criados pelo novo sistema rodoviário, veículos que antes passavam por dentro daquelas pequenas cidades – e sempre com alguns dos motoristas parando para comer num dos restaurantes, para abastecer num dos postos de gasolina, ou para fazer compras numa das lojas – agora passavam direto – passavam “pelo lado”, correndo para destinos variados, para desespero dos comerciantes locais. Algumas destas cidadezinhas se tornaram cidades fantasma mesmo e todas elas sofreram consequências econômicas graves.

    Quando ouço a palavra “bypass” é esta a imagem que me vem à cabeça: vilarejos sofrendo ou morrendo como preço pelo “atalho rodoviário”.

    Devido à cirurgia de ponte aorto-coronária ou ponte de safena, que é chamada de “coronary bypass” em inglês, temos a tendência de pensar em “bypass” como algo sempre benéfico, pois, em lugar de “lojinhas indo à falência”, temos pessoas recuperando a saúde, com uma ponte que “passa pelo lado” de uma parte danificada do sistema circulatório.

    Mas este não é o caso de “spiritual bypass”, ou “atalho espiritual”, em que questões internas do praticante de um caminho espiritual são deixadas de lado, baseando-se numa compreensão errônea da prática.

    Alguns exemplos disto são:
    1. uma pessoa que não sabe expressar raiva, que é vista como um modelo de paciência e bondade, mas que no fundo é apenas uma pessoa reprimida e que deve sofrer por conta disso;
    2. uma pessoa que vive o padrão de “codependência”, anulando-se a si mesma no esforço de ser aceita e amada, mas que acaba sendo percebida como “santa” pelos incautos num grupo de prática espiritual.

    A prática correta demanda que cuidemos das nossas questões internas, exige a superação de nossos condicionamentos e traumas – pede o esclarecimento de nossa “sombra”. Não podemos desprezar as nossas emoções. Pelo contrário, a prática correta deve nos levar a uma integração corpo-mente-emoções cada vez melhor. (Continua)

    Assistam a uma palestra da autora sobre o tema

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A prática quando estamos sós

    Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

    É para se sentar com todos que se vem à Sangha, esta é a razão de sua existência. Mas se o fazemos por causa de uma liderança, a prática não é forte, porque a prática no zen não depende da liderança. A tradição é se sentar sozinho durante longo período e visitar o mestre de vez em quando para tirar dúvidas, para mostrar aquilo que se pensa ter realizado, para expor e receber uma confirmação. Se nossa prática depende dos outros, ela é fraca. Deveríamos ser capazes de nos sentar sozinhos em nossas casas e nos reunirmos com a Sangha para apoiar os outros praticantes, não vindo, somente, porque naquele dia o professor estará presente. Isso, para o professor, é como se ele visse sua própria fraqueza, porque sua força é fazer praticantes fortes e não pessoas dependentes. Não é isso que o professor quer.

    Durante toda a história do budismo, o esforço de todos os mestres foi de criar praticantes melhores que eles e que pudessem sucedê-los. Tantos mestres viram suas linhas, suas escolas, desaparecerem, porque não houve sucessores. Por ter isso ocorrido tantas e tantas vezes, a maior alegria de um mestre é ver grandes e fortes alunos que não dependem dele. Numerosos mestres tiveram apenas um discípulo sucessor, raríssimos tiveram centenas. Somente mestres como Buda tiveram muitos sucessores. Seria interessante nós examinarmos o que é a prática, como ela se estabelece. A prática, na verdade, só tem sentido se é usada na vida diária. Infelizmente, em nossa vida diária, temos que vestir máscaras e atuar em papéis que não são o papel do praticante. Alguns deles são verdadeiros impeditivos da realização espiritual. Então, a prática da vida diária é um enorme desafio, pois temos, frequentemente, que agir de outra forma. Na Sangha você pode – e deve – aceitar todas as falhas e erros dizendo: “Não tem importância, vamos tentar mais uma vez”. Se os alunos estão fazendo bem o ritual, o professor pode mudar algo, porque o melhor é que as coisas nunca funcionem muito bem para que possamos nos aperfeiçoar. Se alguém é uma pessoa bem treinada para determinada função, é conveniente tirá-la daquele papel em que ela se sai bem, para que ela passe a fazer algo em que não se saia tão bem. Se alguém ficar fazendo uma tarefa para a qual está bem preparado, será ruim para ele, para o seu ego, não lhe fará bem. Na verdade, a Sangha não deve funcionar muito bem, deve servir de caminho de aperfeiçoamento.

    Na nossa vida profissional funciona tudo ao contrário, você irá escolher a melhor pessoa para determinada tarefa e irá exigir dela proficiência. Frequentemente você terá que ser intolerante, fazer cobranças e assumir seu papel tal como ele é. Quem é policial tem que ser policial, chefe de cozinha tem que ser chefe de cozinha, integralmente. O professor tem que ser severo, cobrador. O policial tem que ser duro, incorruptível, e muitas vezes, intolerante. Embora a cada momento tenhamos que medir os limites das situações, não há regras claras, esse é o desafio da vida: viver sem ensaio. A Sangha não é assim. Nós podemos saber se somos bons praticantes quando as condições não são boas, quando chove e faz frio, e mesmo assim, as pessoas vão praticar. Isso é uma boa prática. Porque ir praticar quando as coisas estão maravilhosas, não tem nenhum mérito.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Joko Beck e a função de um Centro Zen

    Hoje eu quero falar sobre a função de um Centro Zen. De uma maneira geral, podemos dizer que é apoiar a prática; e é claro que é verdade. Mas temos um monte de ilusões sobre Centros Zen como também temos sobre os professores. E uma coisa que tendemos a pensar é que um Centro Zen deveria ser um lugar muito agradável para mim – em outras palavras, deve ser não ameaçador (risos). Eu acho que um bom centro deve ser bastante ameaçador às vezes! Não é função de um centro cuidar do seu conforto ou da sua vida social. Com isso não quero dizer que não devemos ter eventos sociais – eu acho que são ótimos -, mas não são a principal função de um centro. A função de um Centro Zen não é prover as pessoas de uma vida social. Não tem necessariamente o papel de fazê-las se sentirem bem, e não é para fazê-las se sentirem especiais.

    Essencialmente, um centro é uma ferramenta poderosa para ajudar-nos a despertar. Como uma sangha praticando em um centro, precisamos, sim, nos apoiar uns nos outros, mas a natureza desse apoio pode não ser exatamente o tipo de apoio que é frequentemente visto num escritório. Você sabe, o namorado de uma moça a deixa – “Oh! coitadinha! Sabe, quando o MEU namorado me deixou…” (risos) e lá vamos nós! Há uma atitude de “somos todos vítimas juntos nessa” que NÃO é apoio. Quanto mais praticamos, bem, menos este tipo de apoio falso é o que se encontra num centro bom.

    Deve ser um lugar, então, que nos dá apoio, sim, mas que também nos desafia, e nesse sentido somos todos professores uns dos outros. Alguns dos ensinamentos mais poderosos em um Centro Zen nada têm a ver com o professor; às vezes o ensino vem de outra pessoa, vindo diretamente da experiência dessa pessoa. Para ser honesta, estar ciente do que a prática real é e compartilhá-la com os outros – é isso que torna um centro um tipo de lugar diferente para se estar.

    Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossas fantasias.

    Infelizmente, Centros Zen tendem a ser um pouco ego-perpetuantes: nós queremos que eles sejam maiores, melhores e mais importantes que o centro do outro cara, com certeza! Há correntes de ego muito sutis que podem circular em um Centro Zen, como em qualquer outra organização, se não tivermos um cuidado especial.

    E algumas reflexões sobre a sangha: um ponto é crucial – quanto mais tempo as pessoas vêm praticando, menos importante deve ser o papel externo delas. E por isso eu não quero que as pessoas que vêm praticando por muito tempo presumam que elas sempre serão monitoras – às vezes, sim, claro, mas quanto mais avançado o aluno, mais eu quero que a sua influência seja sentida através da sua prática e através da sua vontade de não parecer importante e de deixar os alunos mais novos começarem a assumir algumas das posições externamente visíveis.

    A marca de alunos seniores é trabalhar quando ninguém sabe que eles estão lá. Eu vejo pessoas trabalhando no escritório do Centro em horários estranhos; às vezes eu estou voltando das compras e eles estão trabalhando duro. Isso é um sinal de prática madura, fazer o que deve ser feito mantendo a nossa própria importância fora disso.

    Pessoalmente, eu estou tentando ir por esse caminho, minimizando a enorme importância dada ao papel do professor. E eu quero que isso se aplique a todos os alunos mais velhos. Então, se você sente que não está tendo a oportunidade de fazer o que você costuma fazer, ÓTIMO! Então você tem algo muito bom com o que praticar.

    Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossas fantasias. Assim, em nossa chateação, acabamos retornando à base da prática – que é, tanto quanto eu posso colocar em palavras, assumir mais e mais a posição de um observador em nossas vidas.

    Com isso quero dizer que tudo em nossas vidas vai continuar a ocorrer – os problemas, as dificuldades emocionais, os dias agradáveis, os altos e baixos, que são aquilo de que consiste a vida humana -, mas é a capacidade de não ser pego – de apreciar o que está acontecendo quando é “bom”, de ter tranquilidade quando é “ruim”, e de observar tudo isso, que é o trabalho contínuo.

    A marca do amadurecimento da prática é simplesmente a capacidade, mais e mais e mais, de perceber o que está acontecendo e não ser fisgado por isso. Fácil falar, mas provavelmente de 15 a 20 anos de prática rigorosa são necessários antes que nós sejamos dessa forma uma boa parte do tempo.

    E isso não é o estágio final. Quando não há nenhum objeto, nenhuma pessoa, nenhum evento, nenhuma coisa no mundo que me fisga, aos quais eu esteja preso – quando não há nenhum objeto e nenhum self observando -, então, há uma virada para o que seria, para dar-lhe um nome, o estado iluminado.

    Nunca conheci ninguém que eu sentisse que tivesse alcançado isto, mas algumas pessoas têm-se saído bem e, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa assim, você sentirá a diferença que há em alguém que não é fisgado pela vida (necessitado, desejando ardentemente algo ou alguém, insistindo em que a vida seja de certa maneira) – você perceberá que tal pessoa está em paz e livre.

    Estas são as pessoas que são uma influência curativa e benéfica sobre toda a vida que está perto delas. Elas não precisam fazer nada – a cura vem da maneira como elas são. Essa transformação é o que queremos da nossa prática. Temos muita sorte de ter essa oportunidade nesta vida. Vamos aproveitá-la e fazer o nosso melhor.

    Palestra da mestra Zen Joko Beck. Tradução de Isshin-sensei e Muriel Paraboni.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Harmonia

    Quando dizemos na cerimônia “Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia”, isso é de fato o que a Sangha deveria ser: o lugar da harmonia. Mas a Sangha é feita de pessoas e as pessoas são cheias de egos e defeitos e por causa disso, produzem atrito. Dizemos, então, que a Sangha funciona como um pilão de arroz: batemos no arroz e porque um se arrasta no outro, perde a casca. Nós, na Sangha, sofremos atritos; porque sofremos atritos, perdemos nossa casca e porque perdemos nossa casca, podemos nos tornar puros. A Sangha não é o lugar onde a harmonia existe, mas é o lugar onde buscamos ficar de tal forma que a harmonia se crie. Como fazemos isso?

    Os preceitos são cheios de regras a esse respeito. Já nos dezesseis primeiros preceitos, existe um que diz: “Não se eleve”, principalmente, “não se eleve rebaixando os outros”. Então, quando vemos defeitos nos outros e citamos esses defeitos, automaticamente estamos dizendo que não temos os defeitos apontados nos outros. Na verdade, a prática budista significa, para esse preceito, que “eu não vejo defeitos nos outros, sei das dificuldades que as outras pessoas têm, mas não posso ser cego para as dificuldades que tenho”. Por causa disso, quando encontro defeito em alguém, devo procurar me concentrar nas qualidades dessa pessoa e imediatamente devo citá-las: “tal pessoa tem esses e esses defeitos, porém, tem todas essas outras qualidades”. Devemos apontar suas virtudes, virtudes que muitas vezes nós mesmos não temos.

    O que mais nos atrapalha, a todo momento, é termos um ego, uma vaidade e uma noção de separação. Estou separado dos outros, por causa disso, eu penso que ajo melhor do que os outros. Devo me calar a respeito de todas essas coisas e devo procurar fazer com que as pessoas manifestem suas qualidades. Sobre minhas qualidades devo me calar. Sobre minhas dificuldades, também devo me calar, pois sei que tenho dificuldades e não é útil ficar falando sobre elas, apenas devo tentar me corrigir. O melhor caminho é o silêncio. Calar e agir. Não devemos enxergar, quando os outros apontam alguma dificuldade nossa, um ataque ao nosso ego. Nesse momento, devemos nos perguntar: “Quem se incomodou?”, “Quem se importa com isso?”. Meu orgulho e minha vaidade se importam com isso, por isso me importo e não quero ser criticado. Meu orgulho e minha vaidade são meus grandes inimigos, pois, são a manifestação do meu ego, portanto, eles fazem a separação. Se me sinto separado, então, estou prisioneiro do ego; se estou prisioneiro do ego, sou prisioneiro de nascimento e morte. Eu nasço e morro porque tenho um ego. Se eu morrer para mim mesmo, não existe mais ninguém para morrer, me livro da morte. Para perder o medo da morte, devemos perder o medo de ter um ego ferido e um ego que desaparece. Para nos livrarmos da morte, temos que morrer agora. Agora. Morri.

    Morri para mim mesmo, nada importa. Se nada importa, se o que os outros dizem não importa, se não existe nada que possa me ferir, então, eu superei o ego. Se o professor no zen nos corrige ou aponta um erro, não nos defendemos, não nos justificamos, apenas fazemos gasshô e agradecemos. Mas isso é muito difícil. Por isso pedimos “sente-se em zazen e abandone-se, esqueça o passado, esqueça o futuro, esqueça-se de si mesmo; se se esquecer de si mesmo, então estará livre”. Enquanto houver comentários discriminativos – “gosto disso e não daquilo” – há um ego se manifestando. “Eu prefiro isso” é um ego falando. “Não gostei da atitude de Fulano” é um ego falando. “Eu gostei do elogio que o professor me fez” é o ego falando. Esse ego é nossa ilusão, nossa prisão fundamental. Por causa dele nós estamos aqui, presos em corpos e por causa dele nós nascemos e morremos. O ensinamento de Buda para escapar do sofrimento e escapar de tudo, de velhice, doença e morte, está baseado principalmente em morrer para si mesmo. Morrer para seu próprio ego, morrer para sua vaidade, é para isso que treinamos. Não é para sermos importantes, sermos iluminados, alcançarmos algo, sermos melhores que outros, não é para nada disso. É para nos esquecermos de nós mesmos. Enquanto pensarmos “eu sou melhor”, estamos presos.

    Tomo refúgio na Sangha, o lugar da harmonia.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

    Imagem “O rakusu, esse símbolo que carregamos, uma miniatura do manto de Buda, possui na sua parte de trás uma imagem de uma agulha de pinheiro. Os pinheiros quando crescem sozinhos ficam tortos, mas em uma reserva cheia de pinheiros, um incomoda o outro ao crescer se encostando e se apoiando em busca da luz do sol, desta forma eles crescem retos. Por isso a agulha de pinheiro é o símbolo da Sōtō Zen. Daí a importância da Sangha.” – Genshō-sensei

    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (1)

    Tive o prazer de estar presente, como mestra convidada, aos retiros de Alan Wallace no CEBB. Tem sido uma maravilha poder constatar as semelhanças e diferenças entre o nosso Zen e o Dzogchen Tibetano.

    Numa das palestras, baseada no texto “A Essência Vajra”, de Dudjom Lingpa, ele falou dos “nyams” (sinais de progresso) na prática tibetana. Imediatamente me lembrei de experiências e estados de espírito que muitos praticantes do Zen vivenciam.

    Apesar de serem considerados sinais de progresso, estas experiências e estados também podem representar armadilhas, se não forem resolvidos corretamente. Se são “armadilhas”, por que seriam também “sinais de progresso”? Porque são vivências e estados que podem surgir à medida que a prática vai se aprofundando, permitindo que material (lembranças, associações, atitudes) que estava escondido na mente inconsciente possa aparecer, ser visto e libertado. Isto é bom e necessário.

    Mas, se o praticante levar estas experiências excessivamente a sério, elas se tornam armadilhas, podendo até causar ao praticante uma crise que leve ao abandono da prática – em lugar de se manter firme, sob a boa orientação de um professor qualificado, até superar a crise, quando que se dará o florescimento do “sinal de progresso”.

    Devido a este perigo de ocorrer uma crise, pessoalmente, ressalto mais o aspecto “armadilha” do que o aspecto “sinal de progresso” desse tema.

    Nesta nova série de textos que inicio, vou procurar abordar algumas destas armadilhas. Enquanto estiver aguardando pelo próximo artigo, que tal ir se lembrando de momentos de crise na sua prática para refletir sobre este conceito de “armadilha / sinal de progresso”? (Continua)

    Autora: Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    O zen-budismo e o acreditar

    Os jogos da vida são apenas o que são: jogos.

    O que chamamos de “eu” é mais ou menos como o eixo de um redemoinho. Há movimento, você vê o centro do redemoinho e diz: “Há um eixo”. “Parece” que há um eixo. Na verdade, há um, enquanto existe o redemoinho. Cessou o redemoinho, cadê o eixo? Nós somos redemoinhos nesta existência, movimentos e fluxos de pensamentos, paixões, etc. Nosso “eu” é o eixo, mas, na verdade, nós não somos redemoinhos. Nós somos o céu azul.

    Não há almas, nem espíritos, nem ninguém lá fora para nos ajudar. Nem ninguém para nos premiar, nem ninguém para nos castigar. Tudo é ação e consequência. Você caminha sobre os resultados dos seus atos. Os seus atos provocam resultados. Os resultados são tudo o que você tem. Nós somos “movimento” no Universo. Fenômenos, como os redemoinhos.

    De onde saem as agitações da nossa mente? Da nossa crença nos jogos da vida. A vida é constituída de muitos jogos com os quais nós nos comprometemos. Por exemplo, quando as pessoas começam a torcer por um time de futebol, ele tem bandeira, hino, camiseta, cor; nós podemos nos comprometer com o jogo do time de futebol e começarmos a torcer por ele. Há gente que começa a torcer e se compromete tanto com aquela paixão que é capaz de sair do jogo e brigar com o torcedor do time oposto e é capaz de matar ou morrer. Não é verdade? Nós sabemos que é assim.

    No entanto, o jogo foi uma fantasia criada em algum momento e nós acreditamos nela. Todo o resto da vida também é constituído assim. Nós entramos numa empresa e o que é uma empresa? Um jogo. É toda uma armação como um time: tem um nome, uma meta e vamos lutar por aquilo e nos comprometer. Se alguém nos diz uma palavra desagradável, não dormimos direito de noite. Se não atingimos nossa meta, nos sentimos frustrados. No entanto, quem se lembrará das nossas vitórias? Das nossas derrotas?

    Há uma pergunta que eu já fiz para milhares de pessoas. Vamos testar aqui de novo. Seus pais e avós são pessoas importantes para você? Todos acham que são importantes… Muito importantes para você? Então, seus bisavós também, pois são os pais dos seus avós. Por favor, cada um tem oito bisavós. Você sabe o nome dos oito? Ninguém sabe. Por que ninguém sabe?

    Você pensa que é importante. Mas eu tenho uma notícia para você. Sangue do seu sangue, carne da sua carne, seus descendentes, seus bisnetos não se lembrarão nem do nome de você. Muito menos das suas humilhações, derrotas, vitórias… não se lembrarão. Você será esquecido. Por que você acha que é importante? Quando acontece alguma coisa, você sempre pode dizer: “Daqui a cem anos, ninguém vai se lembrar”.

    E por que a gente se importa tanto? Porque nós entramos no jogo, entramos com aquela paixão de nos comprometer com um jogo como nos comprometemos com um time de futebol. Os jogos da vida são apenas o que são: jogos. As paixões são assim, os amores são assim, os empregos são assim.

    Todas as coisas que nos parecem importantes, na verdade não são. O que seria realmente importante? Não é a poeira que o redemoinho levantou. A única coisa realmente importante é o “céu azul”. Ele vai estar lá depois de todos os redemoinhos passarem.

    Na verdade, nós somos eternos, só não somos eternos como indivíduos. Só que queremos ser eternos como indivíduos, como “eus”.

    Quando entra um aluno na sala querendo aprender sobre o ZEN, na verdade eu tenho pena, porque tudo que vai acontecer é uma destruição. Ele faz perguntas e recebe respostas terríveis. Tudo que era precioso para ele vai embora. Como a sua crença de que seus antepassados são importantes para você. Não são. Se fossem você se lembraria dos nomes dos seus bisavós. Você só se lembra dos nomes daqueles que você conheceu, no fundo, é ou não é? Se não os viu fisicamente, grande é a chance de não se lembrar dos seus nomes.

    Eu estava fazendo uma palestra na Universidade Federal em Florianópolis e uma mulher perguntou: “Mas o Senhor não acredita em nada?” e eu disse: “Mas o ZEN não é religião de acreditar, o ZEN é religião de despertar. É outra coisa”. Às vezes as ilusões são tão confortáveis. Imaginem dois guichês assim: “Mentiras confortadoras” e “Verdades desconfortáveis”. Todo mundo vai ao “Mentiras confortadoras”, não é? Porque “Verdades desconfortáveis” não é pra muita gente.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Os cinco tipos de zen – Final

    (continuação da 1ª parte)

      Shōjō Zen

    O terceiro tipo de Zen é o Shōjō, literalmente significando “pequeno veículo”. Esse é o veículo ou ensinamento que deve levar você de um estado mental (delusão) para outro (iluminação). Esse pequeno veículo é assim chamado porque é destinado a acomodar somente uma pessoa. Você pode, talvez, compará-lo a uma bicicleta. O veículo grande (Mahāyāna), por outro lado, é mais parecido com um carro ou ônibus: ele leva outras pessoas junto. Por esta razão o Shōjō é um Zen que foca apenas na paz mental da pessoa. Aqui temos um Zen que é budista, mas um Zen que não está de acordo com os maiores ensinamentos de Buda. Ele é mais certamente um Zen apropriado para aqueles que não são capazes de alcançar o mais íntimo significado da iluminação do Buda, como por exemplo, que a existência é um todo inseparável, que cada um de nós possui o cosmos em sua totalidade. Sendo isso verdade, consequentemente nós não podemos atingir a genuína paz mental simplesmente buscando nossa própria salvação e continuar indiferente ao bem-estar dos outros. Existem, entretanto, aqueles que simplesmente não conseguem acreditar na realidade de tal mundo. Não importa quão frequentemente sejam ensinados de que o mundo relativo das distinções e opostos ao qual eles se apegam é ilusório, é o produto de suas visões errôneas, eles não conseguem acreditar de outra maneira. Para tais pessoas, o mundo pode ser completamente mau, cheio de pecado, discórdia, sofrimento, assassinatos e desesperos dos quais eles tentam escapar.

      Daijō Zen

    A quarta classificação é chamada Daijō Zen, Grande Veículo (Mahāyāna), e este é um verdadeiro Zen Budista por ter como sua proposta principal o kenshō-godō (見性), que é enxergar sua verdadeira natureza e realizar o Caminho na sua vida diária. Para aqueles capazes de compreender a importância da experiência da iluminação do Buda e que tenham o desejo de quebrar suas visões ilusórias do Universo e experienciar a realidade absoluta e indiferenciada, o Buda ensinou este modo de Zen. O Budismo é essencialmente uma religião de iluminação. O Buda, após seu supremo despertar, passou cerca de 50 anos ensinando o modo pelo qual as pessoas poderiam perceber suas próprias naturezas. Seu método tem sido transmitido de mestre a discípulo até os dias de hoje. Desta forma pode-se dizer que o Zen que ignora, nega, ou faz pouco da iluminação, não é o verdadeiro Zen Daijō Budista.

    Na prática do Zen Daijō, sua principal meta, no começo, é despertar sua verdadeira-natureza, mas ao iluminar-se você percebe que o Zazen é mais que um meio de iluminação – ele é a manifestação de sua verdadeira-natureza. Neste tipo de Zen, que tem como objeto o “despertar” (Satori), é fácil considerá-lo erroneamente como apenas um meio. Um sábio professor, entretanto, apontará desde o início que o Zazen é na verdade a manifestação da natureza-buda inata e não meramente uma técnica para se alcançar a iluminação. Se o Zazen não fosse mais que apenas uma técnica, após o Satori o Zazen seria desnecessário. Mas, como o próprio Dōgen-zenji mostrou, exatamente o contrário é verdade: quanto mais profundamente você experiencia o Satori, mais você percebe a necessidade da prática.

      Saijōjō Zen

    O Zen Saijōjō, o último dos 5 tipos, é o veículo mais elevado, a culminação e o topo do Zen Budista. Este Zen foi praticado por todos os Budas do passado – como Shakyamuni e Amida – e é a expressão da Vida Absoluta, a vida em sua forma mais pura. É o Zazen que Dōgen-zenji especialmente defendeu e engloba o não esforço por Satori ou qualquer outro objeto. É chamado shikan-taza.

    Nesta mais elevada prática, os meios e os fins fundem-se. O Zen Daijō e o Zen Saijōjō são, na verdade, complementares. A escola Rinzai classifica o Daijō como supremo e Saijōjō inferior, enquanto a escola Sōtō faz o contrário. No Saijōjō, quando praticado da forma correta, você se senta na plena convicção de que o Zazen é a manifestação de sua “verdadeira-natureza” e, ao mesmo tempo, você se senta com total fé de que chegará o dia em que exclamando “Oh, então é isso!”, você sem erro realizará esta verdadeira-natureza. Portanto, você não precisa se empenhar de uma forma autoconsciente em busca da iluminação.

    Hoje, muitos da escola Sōtō defendem que, uma vez que nós somos budas inatos, o Satori é desnecessário. Tal erro notório reduz o shikan-taza, que é propriamente a mais elevada forma de se sentar, para nada mais que o Zen Bompu, o primeiro dos cinco tipos.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien