Category Archives: Zen

Grande Determinação

Grande Determinação

Não tenha medo. A noite passa.

Sem a Grande Determinação não vamos conseguir atravessar a noite escura. Se falhar a nossa determinação, vamos acabar “voltando para trás”, em lugar de completar esta etapa da jornada. Não vamos chegar até o raiar do novo dia, aquele pedaço de Iluminação que seria resultado de nosso questionamento, fé e determinação.

Se a nossa determinação for fraca, vamos falhar. Se a nossa determinação depende de outras pessoas para nos apoiar, vamos falhar. Pois a noite escura da alma é exatamente isto: é um momento em que nos sentimos totalmente sós – a nossa dúvida nos consumindo, a autoconfiança cambaleada, a nossa fé no limite –, só vemos escuridão e é somente a nossa determinação que nos segura no caminho. Afinal, o momento mais escuro da noite é o momento logo antes do nascer do Sol. E é a mesma coisa na jornada espiritual.

Se iniciamos a jornada com uma pequena dúvida, a noite escura vai ser “pequena” e o raiar do sol também. Mas se o nosso primeiro passo foi baseado numa GRANDE Dúvida, a noite escura vai ser igualmente GRANDE. A crise – mistura de perigo com oportunidade – vai ser GRANDE. Para atravessar esta noite escura, vamos ter que descobrir, dentro de nós, fé da mesma grandeza e, por fim, GRANDE Determinação – talvez aquela determinação que diz: “Mesmo que perca tudo, não arredo o pé daqui”; “Mesmo que eu tenha que morrer tentando, não desisto”; “Mesmo que estejam todos me chamando de louco, não saio deste caminho”; “Mesmo que todos os meus amigos me abandonem, não abro mão”. Talvez a vida vá nos exigir uma entrega total, a “morte simbólica”, morte do ego, morte para tudo que pensávamos que importava. Mas na realidade, a vida está nos convidando a passar pela morte dos condicionamentos – nos convidando à Libertação.

No meio da noite escura da alma, passamos por uma fase de ficar só enxergando as perdas, as “mortes”. Talvez percamos contato com a nossa fé. Talvez nos entreguemos ao medo. Talvez não resistamos às pressões e voltemos correndo, tentando voltar à nossa “zona de conforto” anterior, voltar à “harmonia conhecida”, voltar às amizades e relacionamentos antigos que não queremos arriscar perder, buscando apoio externo na falta de nosso próprio apoio interno. Quantas e quantas pessoas fraquejam neste ponto, justo quando estão quase lá, quase vencendo esta fase da jornada. Que tristeza! É como se vendessem a alma, caíssem em “tentação”.

É por isto que todas as tradições espirituais falam da dificuldade da jornada. Todas as tradições espirituais têm a sua forma de descrever o processo de passar pela “noite escura da alma”. Algumas tradições xamânicas ou indígenas usam “jornadas interiores”, indo ao encontro da morte e renascimento simbólicos, desmembramento e “remembramento” simbólicos, para facilitar esta passagem. A tradição budista nos fala da determinação de Buda quando ele sentou em baixo da figueira, decidido a não se levantar dali até que encontrasse a resposta, a Iluminação. Fala, em linguagem simbólica, dos ninhos que pássaros construíram em seu cabelo, das teias que as aranhas teceram, das plantinhas que cresceram entre os dedos dos seus pés, tudo para nos ajudar a imaginar uma determinação tão firme, inquebrantável, que permitisse que ficasse lá, sentado em meditação o tempo suficiente e com a “imobilidade” – firmeza de propósito – suficiente para atingir a Iluminação.

Lembro-me de momentos de dúvida (dúvidas que pareciam bastante grandes para mim, na época), em que toda a minha fé foi posta à prova e em que parecia que a minha determinação não ia aguentar, e lembro-me dos raiares do sol que vieram ao final daquelas noites escuras da alma. Não posso dizer que eu tenha atingindo qualquer GRANDE Iluminação, mas com certeza, sinto que posso dizer que cheguei a algumas pequenas iluminações, de acordo com a minha capacidade de ter uma dúvida, de cultivar a fé e de achar dentro de mim mesma a determinação de prosseguir até a hora do Sol nascer.

Como será que isto vai acontecer? Como será o momento da virada, de uma pequena iluminação? Vai ser o seu momento, único, totalmente diferente dos meus momentos – e nem para mim um momento será igual ao outro. Só posso compartilhar que, para mim, a virada vinha muitas vezes quando eu finalmente parava de lutar contra os acontecimentos e me entregava totalmente. Sabia que a gente tem todo o direito de espernear e reclamar tudo que quiser neste universo? Só que o Darma simplesmente vai continuar procurando nos ensinar. Então não precisa se sentir culpado por passar por uma fase de “briga com o Universo” antes de chegar a uma entrega! Outras vezes, a virada veio quando finalmente percebi a “comédia dos absurdos” numa situação e caí nas gargalhadas, de corpo e alma. De qualquer forma, a virada vinha quando algo dentro de mim mudou. A mudança nunca vinha de fora, só de dentro. Este que é o detalhe importante: a mudança tem que vir de dentro.

A noite passa. O novo dia nasce. A Luz retorna. Portanto, se você estiver atravessando uma noite escura da alma, não abra mão de sua fé, não vacile na sua determinação. Não tente voltar ao “conforto” ou “harmonia” ou “segurança” anterior. Se, no seu coração você sabe que está ouvindo a voz de sua Natureza Buda, prossiga firme. Mergulhe, deixe que a Grande Dúvida lhe “consuma” até os ossos, até a medula, até restar somente o grande Vazio. Estique a sua fé, mantenha a sua determinação – e atinja mais um pedaço da Iluminação. O importante é sempre manter-se firme na busca de Sabedoria e Compaixão.

Se você está com mais Sabedoria e Compaixão, mais Paz e Tranquilidade no “dia seguinte”, saberá que atravessou a noite. Mas, se está com alguma raiva, algum mal-estar, alguma inquietação, saberá que ainda não terminou a travessia ou, pior, saberá que desistiu no meio do caminho e voltou para trás. Mesmo assim, não perca esperanças, não se critique, não se julgue. Você fez o seu melhor. Aprenda com o processo. Veja onde “falhou”, onde “errou” e comece de novo. A vida sempre nos oferece novas oportunidades. Temos todo o tempo do Universo para nos iluminar – kalpas e kalpas estão à nossa disposição!

Então, não tenha medo. A noite passa.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

O Vazio

O Vazio

O ‘eu’ que existe dentro de nós é o que cada um acredita…

É frequente que pessoas cometam um erro básico quando, ouvindo falar do ensinamento budista sobre o vazio (vacuidade), pensem, por exemplo, que o fato da ciência ter mostrado que a maior parte do que vimos como matéria é vazia, que esse vazio físico é uma comprovação de que as declarações de Buda a respeito da vacuidade das coisas estão certas. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. Vacuidade no Budismo é o vazio de um “eu”. As coisas são vazias de um “eu”, um “eu” inerente, alguma coisa própria e exclusiva de um fenômeno.

O que Buda tentou dizer com “vazio” é que todas as coisas são vazias de um “eu”, porque todas as coisas são interconectadas e interdependentes. Parecem algo porque nós atribuímos a esse algo um conceito. Quando vemos um copo cheio de água, o que é o copo em si? É um cilindro fechado na base, constituído predominantemente, no caso desse copo de vidro, de silício, que é um átomo muito comum na crosta da terra. Mas o copo, essa entidade copo, ela existe realmente como entidade separada ou é uma projeção de nossa mente? Na realidade se nós partirmos o copo em pedaços e tivermos os cacos em nossas mãos, tudo que constitui o copo ainda está aqui, não é? Está inteiro aqui, mas nós podemos dizer que é um copo? Não, pois não serve mais para colocar água. Mas se tudo que o constitui ainda está aqui, onde está o copo? Afinal de contas o que é isso que chamamos de copo? Isso que chamamos de “entidade copo” é uma organização dos cacos de silício numa forma adequada para guardar água, então a entidade copo está na nossa mente. Talvez o copo seja simples demais.

Esta casa, o que é? Pedaços de madeira, carbono, reboco, vidro nas janelas, não temos dúvida alguma de que é uma casa. Chegamos e imediatamente nos admiramos com sua beleza. Mas a casa só é a casa, organizada de determinada forma, seus agregados juntados a partir de uma ideia que é “a casa”. A coluna tem que estar em pé apoiando a trave, pois, se não estiver nessa posição, a casa cai e não será mais uma casa, será como no caso do copo, cacos de casa. Onde está o “eu casa”, o que nós chamamos casa, o “eu” que está nas nossas mentes e que nos permite chamar de casa? Não está em lugar algum; o copo e a casa não são nada mais que matérias organizadas de determinada forma a qual atribuímos uma identidade.

Agora olhem para si mesmos. Nós somos constituídos de agregados – carbono, ferro, cálcio, água, que é oxigênio e hidrogênio, tudo organizado de determinada forma. Comparados conosco, a casa é simples, o copo, simplório. Cada um dos corpos de vocês é altamente complexo, tem até um programa em cada célula dizendo a elas como agir. Esse programa e esta organização fazem de nós um conjunto de agregados que funciona. Como esse conjunto de agregados funciona e consegue pensar, ele diz a si mesmo: “Eu sou”. A casa não consegue dizer a si mesma “Eu sou”, pois ela é simples; nós é que dizemos “a casa”. Mas nós somos suficientemente complexos para olharmos para nossa organização de agregados, para nossa soma funcional e como estamos pensando, dizermos: “Eu sou”.

A ciência já comprovou que alguns animais conseguem se reconhecer no espelho e até apagam sinais pintados em seu rosto, pois reconhecem a si mesmos. À medida que observamos animais mais primitivos, eles não são capazes de se reconhecer. Um cão late para si mesmo no espelho, mas um chimpanzé faz caretas, pois é capaz de se identificar; um golfinho também. Nós não temos dúvidas de que a figura no espelho somos nós mesmos.

Voltando ao vazio, esses agregados – copo e casa – são vazios de um “eu”, isso é fácil de entender, eles não possuem nenhum “eu”, são só uma soma de agregados. Mas nós também somos uma soma de agregados vazios de um “eu” inerente, não temos um “eu” que seja exclusivo nosso, também somos um fenômeno construído e que pode ser desfeito em cacos. Imediatamente esse eu, com que nós nos identificamos, desaparece. Quando desfazemos em cacos a casa e temos só material de demolição, não existe mais casa. Mas quando desfazemos o homem, com a morte, por exemplo, não existe mais um “eu” ali. Toda essa análise foi feita para dizer que o “eu” que tanto queremos que seja permanente e para ele criamos a ideia de uma alma eterna, que, por exemplo, pode reencarnar e carregar aquele “eu” consigo, não é mais que mera ilusão imaginada e nós também somos vazios de um “eu”.

O “eu” que existe dentro de nós é o que cada um acredita – tem a mesma consistência do o “eu” da casa ou do copo. É só um conjunto de agregados funcionando. Todo o universo é vazio de um “eu” inerente. Todos os fenômenos funcionam interconectados e interdependentes.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Armadilhas da nossa prática (4)

Armadilhas da nossa prática (4)

(continuação da 3ª parte)
Retornando ao livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), em que o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento, vamos refletir sobre o motivo pelo qual estes estados são considerados nyams – sinais de progresso que podem se tornar armadilhas da prática.

De tempo em tempo, chega um visitante para conversar comigo, contando uma história de uma experiência mística que teve, uma experiência de “bem-aventurança”, ou de “silêncio” ou de “união com todo o Universo”. Geralmente, conta a sua história com uma atitude de orgulho, aparentemente se achando “especial” por ter tido esta experiência.

Mas, quando eu pergunto sobre a vida prática desta pessoa, fico sabendo que não vai bem. Talvez esteja desempregado (“Fui mandado embora do último emprego – o chefe era muito ruim…”), sozinho (“A minha namorada brigou comigo e rompemos…”), abandonou os estudos (“O curso era muito chato…”), etc. Talvez até tudo isto junto: problemas no trabalho, nos relacionamentos, na vida pessoal!

Quando pergunto qual impacto aquela experiência teve sobre a sua vida, não sabe me dar uma resposta coerente.

Quer dizer, na realidade, aquela experiência mística não serviu para nada em termos de autotransformação. Simplesmente foi uma experiência – um “barato” e mais nada. A pessoa caiu na armadilha de se achar “especial”. E, decepcionado comigo ao ver que eu não fiquei impressionada com a experiência que relata, nunca mais volta – não entra na prática…

Pior ainda é aquele praticante que, ao ter um vislumbre, uma pequena experiência de um destes três estados, passa a acreditar que “se iluminou”. Cheguei a conhecer um praticante leigo que não aceitava ensinamentos porque “encontrou o seu mestre interior aos 16 anos de idade”. Era uma pessoa que eu considerava bastante difícil – até neurótico -, impossível de ensinar, pois parecia que ele achava que já havia alcançado a Iluminação. Parecia que achava que, apesar de ser um praticante leigo com poucos anos de experiência e de nunca ter feito um treinamento monástico, já entendia o Zen melhor que eu e que não precisava ser ensinado. Tive a impressão que achava até que podia me ensinar em lugar de eu lhe ensinar.

Por isso, até mesmo os estados de Bem-aventurança, Clareza Mental e Sem-pensamento podem representar armadilhas e afastar muitas pessoas do verdadeiro caminho.

Recomendo o livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (em inglês), que pode ser importado, versão impressa ou digital.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

Tudo começa na mente

Tudo começa na mente

É comum as pessoas me escreverem quando começam a praticar dizendo estarem perdidas e sentindo um grande desconforto. Outro dia recebi um e-mail em que a pessoa dizia ter um vazio dentro de si que não sabia como preencher. O que acontece é que o Budismo é um método que começa com uma desconstrução completa daquilo que as pessoas costumam usar como bengala ou apoio. Quando começamos a ensinar o Dharma, as pessoas perdem seus referenciais tais como: “A quem pedirei algo?”; “Quem pode me ajudar? Buda?”; “Existem anjos ou seres celestiais que possam me ajudar?”. A mensagem do Zen é que não há ninguém lá fora para quem você possa pedir ajuda, nem a Buda, que foi um homem como nós.

O Zen não é consolador e é chamado de “O Caminho Direto”, pulando todos os estágios de prática, levando diretamente a um confronto consigo mesmo e com a vacuidade do “eu”. A única coisa oferecida pelo Zen na qual o praticante possa se apoiar são suas próprias ações.

São com as suas ações que um praticante zen-budista pavimenta o caminho que ele irá percorrer. A cada pedra colocada, o praticante pode avançar no caminho. Ele pavimenta o caminho com a construção de seu próprio carma, portanto, ele altera seu carma e com isso no Zen tiramos a responsabilidade ou o poder sobrenatural de qualquer outro ser lá fora. Nós temos os poderes sobrenaturais para a construção de nossas próprias vidas. Desta e das futuras. Como? Através de nossos pensamentos, atos e palavras, através da construção de nosso carma.

Alguns praticantes, quando lhes tiramos as ilusões, sentem-se desapoiados: “Onde me apoio?”. Porém, mesmo no Zen existe um apoio e esse apoio chama-se Sangha. Apoiando-se na Sangha ele não está só e, além disso, ele tem ainda pais, irmãos e amigos. Quando ele diz que sente um vazio dentro de si difícil de preencher, lhe falta engolir o universo, pois ainda vê as coisas de forma separada e dual. “Eu estou separado, eu sinto um vazio!” O sentimento de solidão irá acabar quando ele conseguir pôr fim à dualidade, quando não mais enxergar o “outro” e “eu”. A solidão só existe com a separação. Vocês percebem que com frequência falo de meu Mestre, Saikawa Rōshi? Por quê? Porque ele me é precioso. A última vez que esteve em Florianópolis fomos caminhar na praia e cada concha, cada pequeno peixe ou água viva que ele encontrava na areia, devolvia ao mar. Acredito que este seja verdadeiramente o sentimento de estar junto com todos os seres. Esta é também uma marca constante no praticante, a referência ao Mestre, porque quando fala no Mestre está dizendo “minha família”. Essa ligação que temos com o Templo sede, com nosso Mestre e até mesmo com templos de fora do Brasil, nos coloca na sensação de unicidade, desta forma nunca estamos sós.

Aqueles que se sentem desamparados quando iniciam a prática, ainda não perceberam o quão acompanhados estamos. Mas é necessário vir à Comunidade, sentir a prática coletiva e escutar seu professor. Isso é muito importante.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Grande Fé

Grande Fé

O segundo elemento essencial a uma boa prática é uma “Grande Fé”. Fé na prática, fé nos ensinamentos, fé no professor – um ser humano, com falhas humanas, que tem mais experiência no Caminho e algum tanto de “iluminação” manifestada. E, mais ainda, fé na sua possibilidade de poder manifestar a sua própria “iluminação”, de encontrar a “resposta” à sua Grande Dúvida.

Inicialmente, pode ser que parte desta fé você encontre depositando fé nos outros. Você gostou e confia no seu Professor de Darma. Ou admira um praticante budista e confia nele. Mas os seres humanos são literalmente isto: seres humanos, sujeitos a falhas. Podem nos desiludir. Mais ainda: uma das funções dos Professores de Darma é “puxar o tapete” debaixo de nossos pés. Podem até nos provocar, fazendo com que manifestemos a nossa “sombra”, na esperança de que possamos “iluminar” este aspecto nosso que foi trazido à luz. Nestas horas, podemos até nos sentir “traídos” pelo Professor, enquanto não estamos compreendendo o que ele está tentando nos ensinar. Portanto, temos que ir além desta fé inicial, depositada em seres humanos externos a nós mesmos. De um lado, temos que amadurecer e aprofundar a nossa fé no Professor e outros seres humanos, temperando-a com fé nos ensinamentos e no próprio Darma – passo-por-passo.

E os ensinamentos, que foram transmitidos já durante 2.600 anos – podemos depositar fé neles? Podemos, mas isto também tem suas limitações, pois a transmissão dos ensinamentos depende da comunicação e das palavras, sempre sujeitas às mais variadas interpretações. Transcrições de diálogos entre grandes mestres e os seus alunos não nos transmitem o contexto, o cenário, todos os detalhes que fizeram com que aquelas palavras fossem as mais apropriadas para aquele aluno naquele momento.

No Zen, encontramos inúmeros exemplos de professores que, num momento dizem uma coisa e, em outro momento, dizem exatamente o contrário. Será que estão mentindo? Será que são loucos? Ou será que estão simplesmente falando exatamente aquilo que é mais apropriado àquele momento, àquele contexto, àquele aluno – para convidá-lo a tomar o próximo passo de aprendizagem? Como alunos do Zen, existem momentos que podemos nos desesperar com um professor que parece estar se contradizendo. Como é forte, nestes momentos, o sentimento de “Mas você não falou ‘x’ antes? Por que está falando ‘y’ agora? Qual é a verdade, ‘x’ ou ‘y’?”.

Conheço uma mestra moderna que faz isto o tempo todo. Será que ela é louca? Não acho, não. Acho que ela está simplesmente me desafiando a mergulhar para dentro e encontrar a MINHA verdade – e desafiando outras pessoas com quem ela faz a mesma coisa a fazer o mesmo mergulho para dentro. Não é um processo fácil. Mas certamente me oferece a oportunidade de me aprofundar na fé verdadeira que preciso cultivar – a Grande Fé. Fé na minha própria Natureza Buda, fé no Universo, fé no Darma, fé na minha prática, fé em mim mesma. Fé para atravessar a noite escura da alma – ou as noites escuras da alma. É aí que entra o terceiro pré-requisito da prática. (continua)

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

O zen é enganadoramente simples

O zen é enganadoramente simples

O Dharma é enganadoramente simples: é colocar os chinelos, é sentar-se. Na realidade as instruções para o zazen também são enganadoramente simples: entrar na sala, procurar uma almofada, sentar-se, não mover-se e acalmar o corpo para acalmar a mente. Ficar imóvel durante o zazen é importantíssimo, pois uma mente agitada é um corpo agitado. Usamos o corpo como uma âncora para acalmar a mente. Fazer zazen é, portanto, simplesmente sentar-se e existir, ser uno com todas as coisas, ouvir os sons sem julgá-los, não fazer cogitações ou viagens para passado ou futuro. Todas essas parecem ser instruções bem simples, mas somente aqueles que se sentam para experimentar é que descobrem o quão difícil é essa simplicidade.

Da mesma forma quando estamos vivendo, nossos gestos e ações devem ser controlados. Se houver atenção ao que fazemos não derrubaremos coisas. Se em tudo que fizermos tiver a presença de todo nosso ser, corpo e mente, nossos gestos tornar-se-ão calmos e precisos. O mesmo deverá ocorrer com nossas palavras. Ao tomarmos cuidado com as palavras elas não ofenderão ou causarão desarmonia e desavenças. Tudo isso é uma questão de prestar atenção e é razoavelmente simples. O mais difícil é não permitir que nossa mente se agite com pensamentos e sentimentos e não permitir que os acontecimentos externos nos mobilizem, fazendo com que falemos ou ajamos de forma incorreta, não permitir que nossa mente seja tocada pelo vento.

Em muitos textos o vento é a analogia preferida para descrever as paixões, pois ele empurra as folhas de um lado para outro e se deixarmos que os sentimentos ajam, ficaremos como as folhas, batendo de um lado para outro, arrastados pelos sentimentos e pelas paixões. Esse é um dos votos do Bodhisattva: “As paixões são inexauríveis; faço o voto de extingui-las todas”.

Os ventos são as paixões e nossas vidas são abundantes em ventos e tempestades. Extinguindo as paixões poderemos repousar, mas isso não significa que com isso perderemos nossa capacidade de nos emocionarmos, sentirmos e partilharmos dos sentimentos dos outros seres.

Fazer zazen é, portanto, simplesmente sentar-se e existir, ser uno com todas as coisas, ouvir os sons sem julgá-los, não fazer cogitações ou viagens para passado ou futuro.

Fazendo com que nossas mentes parem, nos tornaremos boas antenas receptoras do que acontece à nossa volta, entendendo e sentindo o que os outros sentem. A marca daqueles que conseguem silenciar suas próprias paixões é compreender as paixões dos outros, pois há dentro de todos os mesmos impulsos e nós os conhecemos e, por sermos humanos, nada do que é humano nos é estranho.

É importante sermos capazes de nos mantermos sensíveis ao mesmo tempo que somos capazes de extinguir nossas paixões. Esse é o significado do segundo voto do Bodhisattva.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Armadilhas da nossa prática (3)

Armadilhas da nossa prática (3)

(continuação da 2ª parte)

Foi muito importante ouvir a Monja Coen sempre repetindo “Vá além, sempre vá além”, quando estava iniciando a minha prática com ela no Templo Busshin-ji anos atrás. Lembro-me do zazen nos retiros, dos momentos de êxtase e bem-aventurança e nunca esqueço o dia em que o “vá além” me fez tomar consciência do fato de que não podia continuar lá, parada num estado de bem-aventurança, mas que, para alcançar a equanimidade, não somente precisava abrir mão dos sentimentos “negativos”, mas também tinha que evitar o apego aos estados “positivos”. Tinha que experimentar abrir mão também da alegria durante o zazen – e aí que pude começar a descobrir o gostinho da Paz e Tranquilidade…

O Budismo Tibetano fala claramente sobre “Sinais de Progresso/Armadilhas” (Nyams) da prática de meditação e considera a Bem-aventurança um dos três principais Nyams.

No artigo “The Danger of Samadhi” (“O Perigo do Samadhi”), extraído do livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento. Ele fala:

    “Estas experiências podem surgir sozinhas ou em combinação. Sem-pensamento, por exemplo, é estado de bem-aventurança que dá origem à clareza. Estas três experiências são como um “docinho para a mente” e um gostinho bom é OK, mas um excesso destes doces deixará a sua meditação doente.
      “Se estas experiências temporárias, chamadas

nyam

    em tibetano, não foram compreendidas, elas envenenam até mesmo o praticante mais avançado. São armadilhas sofisticadas que podem surgir a qualquer momento, mas tendem a ocorrer nos níveis mais altos. São comuns e muito perigosas.
      “[…] Não há nada essencialmente problemático com estas experiências, o problema é de um relacionamento inapropriado com elas. Devido ao fato de elas serem tão gostosas, nós ficamos viciados. Como as endorfinas que são liberadas no “barato do corredor”, estes

nyams

    são o “barato do meditador” e como qualquer maratonista, meditadores-maratonistas também desejam mais deste barato. Mas, como temos visto, a meta [da prática] não é de nos sentirmos bem, mas de nos tornarmos reais. Estas experiências podem indicar que estamos fazendo a coisa certa, porque são vislumbres da natureza da mente iluminada e podem apontar o caminho. Mas, vamos perder o caminho se tentamos repeti-las. São subprodutos da meditação. O problema é que pensamos que são o produto final da meditação.”

Recomendo este livro, que pode ser importado, versão impressa ou digital.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Organização: Rodrigo Daien

A mente aquisitiva

A mente aquisitiva

Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação.

Na Escola Sōtō existem várias maneiras de escapar das armadilhas de uma mente aquisitiva. Nós naturalmente queremos adquirir coisas, até mesmo uma criança pequena já começa a dizer “É meu”.

No Zen tentamos desarmar essa mente que existe dentro do ser humano. Isso é um tanto difícil de detectar, pois fomos educados desde criança que egoísmo é feio, logo, as pessoas comportam-se como civilizadas. Porém quando temos um grande desastre natural como terremotos, por exemplo, a primeira coisa que surge são os saqueadores. Essas pessoas têm uma mente que deseja adquirir coisas para si, nem que isso implique em tirar dos outros.

Quando você se senta, tem um objetivo – obter algo para si, que pode ser paz no coração e na mente, serenidade e até mesmo adquirir as coisas que a gente imagina que um santo tenha. Porém essa ambição de conquistar algo pode ser muito forte e egoísta. É como trocar a ambição do ouro pela ambição da iluminação. Podemos até imaginar dois praticantes discutindo sobre quem é mais puro e quem é menos egoísta. Uma das formas que os mestres encontraram para resolver esse tipo de problema é fazer com que o aluno desenvolva o shikantaza, que é a maneira como sentamos que significa “apenas sentar”, não significa ir atrás da iluminação. Na realidade quando você se senta, já é paz e serenidade. Você está sentado como Buda. Sua mente sabe que não é verdade, por isso você deve imitar não somente a postura, mas também a fala de Buda. Alguém poderá dizer que imita a fala de Buda, não diz coisas insultuosas, não fala palavras de baixo calão, evita brincadeiras maliciosas e tenta ter a mente de Buda, mas sua mente continua pensando diferente. Mas se você praticar bastante, vai chegar o momento em que o pensamento vem e, se você não o expressa, ele perde a força de modo que um dia seus pensamentos mudam e não ocorrerão mais, e sem que você tivesse planejado, você é como Buda.

Nossa prática é imitar Buda sem ambicionar ser como Buda, porque isso também é querer algo para si mesmo, também é uma mente aquisitiva. Quem quer esse algo, não o consegue alcançar porque dentro dele existe o pensamento orgulhoso e materialista de querer ser especial. O melhor entre todos é aquele que não se vê especial. Em razão desse pensamento de que se sentar e praticar já seja a iluminação, algumas pessoas começaram a pensar que não precisam buscar a iluminação simplesmente pelo fato de estarem sentadas quietas e imóveis. Se você pensar que sentar-se, praticar cerimônias e comportar-se adequadamente no Dōjō já é suficiente, acabará se transformando num ator, uma pessoa que finge que é.

Uma vez em um teatro na Grécia, uma guia de turismo me disse que ator se diz “hipócrita” em grego, aquele que não é, mas finge ser. Na nossa prática, primeiro agimos como se fôssemos Buda, mas não se confunda, você ainda não é Buda. Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação. Esse engano está muito presente dentro de nossa própria ordem.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Dōjō, “O lugar onde a iluminação é alcançada. Isto refere-se inicialmente ao chão debaixo da árvore bodhi, onde o Buda estava sentado no momento de alcançar sua plena iluminação (Skt. Bodhi-Manda); um lugar onde a prática religiosa é realizada, ou onde o Buda é adorado. Um lugar onde os preceitos são dados; um centro de prática.” Fonte: Digital Dictionary of Buddhism

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

Uma gota de sabedoria

Uma gota de sabedoria

Sente-se apenas pelo bem do zazen.

“Talvez seu zazen ainda seja o zazen de um iniciante ou, algumas vezes, pior do que o de um iniciante. Às vezes, sinto vergonha de mim mesmo quando vejo um estudante praticando muito bem: ‘Ah, ele é muito bom’. Desejaria ser ainda tão jovem quanto ele, mas é tarde demais. De qualquer modo, nossa prática não pode ser melhor do que a de uma rã sentada, mas tudo bem. Assistir alguém praticando um bom zazen é inspirador, não apenas para mim, mas para todos. Se seu zazen for bom o bastante para causar boa impressão, seu zazen será bastante bom, ainda que você não pense assim. Da mesma maneira, ainda que você pense que seu zazen é muito bom e você sinta orgulho de sua experiência de iluminação, se seu zazen não inspirar ninguém, talvez seja uma prática errada.

“Quando falamos a respeito dos preceitos, dizemos: ‘Não faça isso’, ‘Não faça aquilo’. No entanto, se você estiver fazendo alguma coisa boa como o zazen, não poderá fazer algo ruim ao mesmo tempo. Se você continuar agindo bem, será assim que se observam nossos preceitos. Então, a questão é apenas se sentar, esquecendo tudo a respeito de fama ou lucro. Sente-se apenas pelo bem do zazen. E assim que se tem uma mente que realmente busca o caminho para encontrar seu desejo mais profundo.” Trecho extraído de “Nem sempre é assim”, do mestre Zen Shunryu Suzuki, Editora Religare

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Organização: Rodrigo Daien

Grande Dúvida

Grande Dúvida

A maioria das pessoas chega à prática espiritual motivada por um sofrimento que deu origem a um questionamento. Quase sempre, a pessoa está fazendo uma pergunta do tipo “Por que está acontecendo ‘x’?” ou “Por que eu?”.

Muitas destas pessoas nem dão continuidade à prática num centro de prática séria, e vão embora depois de uma, duas – algumas – visitas. Outras pessoas, depois de algumas sessões de meditação, sentindo algum alívio do problema imediato que as trouxe até o zazen, já relaxam os seus questionamentos. Talvez até se tornem associadas, até venham a se considerar “praticantes”. Mas a verdade é: não chegaram a fazer a pergunta essencial, não se abriram para a “Grande Dúvida” e, assim, ainda não entraram realmente no caminho espiritual.

Algumas poucas pessoas, ao passar por uma situação de dificuldade, acabam aprofundando as perguntas iniciais (“Por que eu?”, “Por que está acontecendo ‘x’?”) para começar a questionar: “Quem sou eu?”, “Qual é o significado da minha vida?”, “Qual o sentido da vida e da morte?”.

Estas são perguntas da “Grande Dúvida” – o início da caminhada espiritual. A tradição Rinzai Zen usa os “koans” para provocar a Grande Dúvida. Quanto mais intensamente se vivencie a “Grande Dúvida”, tanto maior será a “iluminação” obtida. Acredito que, na nossa realidade de seres humanos, as nossas “iluminações” são, na verdade, “pequenas iluminações”, pois a diferença entre “ter uma ou algumas experiências de iluminação” e “se tornar uma pessoa iluminada”, ou “se tornar uma pessoa que manifeste plenamente a sua iluminação”, é igual à diferença entre água e vinho.

Os mestres também nos ensinam que aquela pessoa que se acha “iluminada” não é. Ainda nos ensinam que a prática deve ser constante e pelo resto da vida – e próximas vidas, também.

Portanto, sempre que acreditamos que encontramos uma resposta à “Grande Dúvida”, é importante que recoloquemos a pergunta e sigamos além, além da resposta atual, além da nossa compreensão deste momento, sempre além, sempre nos aprofundando mais e mais.

O grande perigo aqui está em achar que encontramos “A Resposta” e que a “Grande Dúvida” já acabou. Vamos cair numa complacência, arrogância – talvez até nos posicionando como prontos para liderar outras pessoas, mas, na realidade, estamos nos iludindo e iludindo os outros. De certa forma, a nossa caminhada espiritual foi abandonada. O nosso Zazen se tornou um “zazen de conforto”, um “zazen de consumo”. Sempre podemos encontrar mais um pedaço da resposta à “Grande Dúvida”.

Mas, vamos dizer que você está com o seu questionamento “à flor da pele”. Entrou no caminho espiritual e iniciou uma prática. Aí surge a questão da fé. (continua)

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Texto extraído e editado do blog da sangha Águas da Compaixão, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien