fbpx
  • Nichiren

    Enma-san e as oito grandes categorias de inferno

    O Budismo é um ensinamento sobre compaixão. Assim, existem muitos Budas, Bodhissatvas e divindades benevolentes. No entanto, há algumas pessoas que pensam, “Budismo é um ensinamento compassivo ainda que nós violemos os preceitos budistas não existe alguém para nos castigar”.

    O que você acha? Vamos pensar nisto em conjunto. Existe o ensino do Karma no budismo, muito embora não exista qualquer um que aplique punições. Como você sabe, “Karma” é a “Lei de Causa e Efeito”. Se você faz coisas boas, a virtude irá voltar para você e sua família através de bons efeitos. Se você faz coisas ruins, o castigo não vai retornar apenas para você, mas também para sua família. As rodas do Karma giram permanentemente você sabendo ou não. Às vezes, a retribuição não é causada apenas pelo seu Karma, mas também de seus familiares, parentes ou ancestrais. Você herda tudo, coisas boas e coisas más. Se a herança é má, ela vai trazer um monte de problemas para nós. Assim, embora Buda não aplique um castigo sobre você, o nosso próprio mau Karma irá nós castigar durante muito tempo. Portanto, o budismo é o ensino para retirar o nosso mau Karma e transformar a nossa vida em uma vida feliz. Nichiren Shonin disse, “Nossos vícios ou virtudes do passado podem ser vistos no presente; nosso futuro pode ser visto nas nossas ações presentes.”

    Na verdade, a maioria dos Budas, Deidades e Bodhissatvas no budismo são compassivos mas há um deus que é muito temeroso. As pessoas que conhecem, sabem do “Enma, o Grande”, o Rei do Inferno. Ele é comumente chamado de “Enma-san”. Ele que determina severamente a sentença sobre o falecido que cometeu erros ou deu problemas para os outros e então os manda para o inferno. Enma-san é muito popular como um temeroso deus. No Japão, houve um costume de dar broncas perversas em crianças. Quando uma criança mentia, os seus pais lhe davam uma bronca e diziam, “Sua língua mentirosa será puxada para fora por Enma-san!”, Ou quando uma criança foi malvada, “Enma-san vai pegar você e te levar para o inferno”. Lembro-me que na minha infância, eu temia muito a história de Enma-san. Enma-san é um símbolo de um deus não apenas muito assustador para as crianças, mas também para os adultos.

    Nichiren Shonin disse: “Em sua vida fugaz, você se apega aos prazeres efêmeros dia e noite e gasta todos os seus dias em vão. Você não se importa em reverenciar o Buda, os ensinamentos e com as orações por seus pais e avós. Você gasta todos os dias inutilmente no trabalho rotineiro, sem qualquer fé. Após a morte como você irá se desculpar pela sua vida diante de Enma, o Rei do Inferno? Como você vai chegar ao pacífico mundo de Buda através da travessia pelo mar profundo dos sofrimentos?”.

    Enma-san é original da Índia e em sânscrito chama-se “Yama-Raja”. Ele é o rei do Inferno e é como o Gerente Geral no submundo, julgando o comportamento dos falecidos quando eles estavam vivos e julgando para que mundo deverá ir o falecido – Inferno, Gaki, Mundo Real ou a Terra Pura do Monte Sagrado da Águia. Sua aparência: Ele tem uma cara irada vermelha, seus olhos são grandes e brilham severamente, o nariz dele é grande e tem uma barba negra espessa. Seu corpo é grande e forte. Ele veste uma túnica vermelha e uma coroa sobre sua cabeça. Ele tem um espesso cetro na mão direita e julga o falecido com esse cetro em seu tribunal. No tribunal, há dois assustadores demônios que são seus assistentes, vermelho e azul, atrás dele como guardas do inferno.

    Eles que trazem o falecido até o tribunal de Enma para o julgamento e após o julgamento amarram o falecido com uma corda e o arrastam os presos condenados ao inferno Enma-san julga os falecidos rigorosamente e com igualdade utilizando um espelho de cristal e em suas anotações está escrito muito detalhadamente o comportamento do falecido desde o nascimento. Ele julga seu comportamento parte por parte, de acordo com as suas anotações. Se a pessoa falecida diz uma mentira ou dá uma desculpa à Enma-san, em seguida o espelho de cristal ao lado dele mostra a verdade, exatamente como a pessoa fez durante toda a sua vida, como em um vídeo. Depois, como castigo, os demônios abrem a boca do pecador e puxam sua língua de forma categórica. Portanto, Enma-san um símbolo de medo para crianças assim como para adultos.

    Há oito grandes categorias de inferno e as torturas que Enma-san escolhe adequada para o falecido determinam para qual inferno que ele irá. As penas dos falecidos, mesmo os que cometeram a mesma infração, baseia-se na forma como eles foram cruéis ou ruins para os outros seres.

    1 Inferno Tokatsu (Inferno de Regeneração)

    O primeiro dos oito principais infernos é chamado de ” Inferno Tokatsu ” e está localizado 1000 yojanas (um yojanas: 7 milhas) abaixo deste mundo. Os pecadores que se enquadram nesse inferno odeiam uns aos outros e lutam como cães contra macacos não importando quando eles se encontram. Com unhas de ferro, brigam uns com os outros causando sangramento e lesões na pele, até que nada além de esqueletos permaneçam. Ou, eles são espancados até o inferno por guardas com barras de ferro até que seu corpo inteiro da cabeça aos pés seja triturado em partículas de areia, ou cortado por uma espada afiada em pedaços pequenos. Após estarem moribundos de tais sofrimentos insuportáveis como esses, eles serão regenerados e submetidos a estes tratamentos cruéis novamente. Como a causa cármica da queda para este inferno está quem abusou uma mulher, filhos, esposo e /ou animal ou matou um ser vivo. Se ele matou mesmo uma pequena criatura, como uma toupeira, formiga, mosquito ou mutuca; ele vai cair nesse inferno sem falhar a menos que se arrependa. Depois de ele se arrepender de cometer este crime, se cometer o mesmo crime novamente, nunca será perdoado, mesmo que se arrependa novamente.

    2 Inferno Kokujo (Inferno de Cordas Negras)

    O segundo dos oito principais infernos, ” Inferno Kokujo “, está localizado abaixo do inferno Tokatsu. Neste inferno, os guardas do inferno agarram o falecido, empurra-o no chão quente de ferro, fazem uma linha sobre o corpo do pecador com uma corda de ferro quente, e cortam e raspam o corpo quente com portinholas de ferro ou serram os seus membros ao longo da linha. Além disso, há enormes montanhas de ferro de ambos os lados do inferno. Eles erguer bandeiras de ferro no topo de cada montanha, esticam uma corda de ferro entre os dois pavilhões e forçam o pecador a caminhar na corda transportando peso ou ferro. Se cair da corda, o corpo do pecador é quebrado em pedaços. Caso contrário eles são cozidos em panelas de ferro. O sofrimento dessas torturas é dez vezes mais severo do que o inferno Tokatsu. Aqueles que cometeram o crime de homicídio, bem como roubo, o adultério e o suicídio vão cair nessa fogueira.

    3 Inferno Shugo (Inferno do esmagamento)

    O terceiro dos oito principais infernos é o ” Inferno Shugo”, que está localizado sob o Kokujo. Aqui muitos pares de Montanhas de Ferro estão viradas umas para as outras. Guardas do inferno com cabeças de vaca e cabeças de cavalo, armados com paus perseguem o pecador entre as montanhas. Em seguida, os pares de Montanhas Ferro aproximam-se, esmagando o pecador e inundando a Terra com sangue. A causa cármicas da queda neste inferno é cometer o crime de adultério, ou seja, ter relações sexuais com a esposa (ou marido) de outra pessoa. Existe uma floresta de espadas: uma linda mulher nua (ou homem) está em cima das árvores de espadas, assim quando os pecadores vêem a mulher, eles se apressam para subir ao topo, mas as folhas são como facas finas, e sua pele e carne é cortada e rasgada. Apesar de chegarem ao topo sangrando a mulher está agora em embaixo no pé das árvores e os seduz dizendo-lhes: “Por que você não vai vir pra mim?” Eles não podem interromper a rotina e não podem despertar para o fato de que o seu desejo sexual só gera mais tortura. Eles continuam se atormentando pela rotina de subidas e descidas até que nada além de seu esqueleto reste.

    4 Inferno Kyokan (Inferno de lamentações)

    Este inferno é o quarto, chamado ” Inferno Kyokan “, localizado sob o inferno Shugo. Os Guardas do inferno gritam em terríveis vozes, disparando flechas contra os pecadores. Eles também atacam as cabeças dos pecadores com barras de ferro, forçando-os a correr no chão quente de ferro ou os queima em uma grelha quente de ferro, transformando-os ao longo de muitas vezes. Ou eles compulsivamente derramam cobre líquido em ebulição na boca dos pecadores, para que o intestino ardente pingue para baixo instantaneamente. Desta forma, os Guardas atormentam os pecadores até os seus corpos derreterem e desaparecem, mas eles logo renascem outra vez para continuar o interminável tormento. Aqueles que cometem o crime de ingerir produtos tóxicos, o crime de homicídio, roubo, mentira e adultério vão cair nesse inferno.

    5 Inferno Dai-Kyokan (Inferno de Grandes Lamentações)

    O quinto inferno é o “Inferno Dai-Kyokan”, localizado abaixo do inferno Kyokan. O tormento neste inferno é semelhante ao inferno Kyokan, mas dez vezes mais severo do que o inferno acima. Aqueles que cometem o crime de dizer mentiras ao lado da sepultura, bem como crimes de homicídio, roubo, adultério e ingerir tóxicos vão cair nesse inferno. A língua dos pecadores é furada através da sua mandíbula com espetos de ferro quente, mas eles não conseguem falar qualquer palavra ou até mesmo gritar. O mesmo processo é feito para os seus olhos, enquanto os Guardas do inferno estão cantarolando “Você causou tormento por suas mentiras”.

    6 Inferno Shonetsu (Inferno das paixões ardentes)

    O sexto dos oito principais infernos é o “Inferno Shonetsu”, que está localizado abaixo do inferno Dai-Kyokan. Existem vários tipos de sofrimento nesse inferno. Colocado em Jambudvipa (o mundo), uma pequena chama de fogo deste inferno iria queimar tudo completamente instantaneamente, isso para não falar dos corpos dos pecadores, que são tão suaves como o algodão. A intensidade dos incêndios nos cinco infernos acima mencionados é parecida com neve. Os Guardas do inferno lançam os pecadores sobre uma grande placa de ferro aquecida, torra e sacode os corpos dos pecadores, ou coloca uma espada no pecador através do ânus até que saia através de sua cabeça e do corpo. Por fim, põem os pecadores em um caldeirão e os deixa ferver até que o corpo se derreta. Os pecadores que se enquadram neste inferno são os do falso ponto de vista, aqueles que não acreditam no princípio da causalidade e que insistem, por exemplo, que as pessoas que morrem de fome renascerão no céu. Também caem nesse inferno aqueles que cometeram os erros do matar, roubar, cometer adultério, ingerir tóxicos e mentir.

    7 Inferno Dai-Shonetsu (Grande Inferno das Paixões Ardentes)

    “Inferno Dai-Shonetsu”, o sétimo dos oito principais infernos, está localizado abaixo do inferno Shonetsu. No entanto, o tormento neste inferno é dez vezes mais grave do que todos os tormentos dos seis infernos que foram mencionados acima combinados. Os pecadores são forçados a assistir às cenas horríveis deste inferno antes de serem mandados para lá. Os Guardas do inferno agarram os pecadores pelo pescoço enquanto estão chorando, gritando e em pânico, e os arrastam para o inferno. Eles chegam a um vale em chamas, e os Guardas do inferno tiram a pele dos pecadores com cuidado e com uma boa espada e espalham as peles e corpos, em conjunto, no solo ardente e despejam ferro fundido fervente sobre eles. Os Guardas do inferno continuam a repreender os pecadores, empurram-os para o vale e, em seguida, as chamas irrompem juntamente com o eco dos gritos dos pecadores. Aqueles que cometem o carma de violar uma monja que observa o preceito da pureza, em adição ao grave carma de matar, roubar, cometer adultério; ingerir tóxicos, mentir, manter uma visão falsa e ferir fiéis budistas vão cair nesse inferno.

    8 Inferno Dai-Avici (Grande Inferno Avici)

    O último dos oito principais infernos, “Inferno Dai-Avici”, também é chamado de “Inferno dos Incessantes Sofrimentos”, porque o falecido neste inferno sofre de dores intermináveis. O extremo tormento deste inferno está longe de descrição exceto de que é 1000 vezes mais duro do que o sofrimento dos sete maiores infernos ou pior que todos os sofrimentos de qualquer lugar combinados. O sofrimento é tal que os pecadores no Inferno Dai-Shonetsu (7º Inferno) parecem como se fossem seres celestiais brincando no céu. O tormento desse inferno é demasiadamente horrível para descrever em detalhes, você pode ficar doente e vomitar. Falando das causas cármicas, aqueles que cometem as cinco depravações caem nesse inferno. As depravações são (1) assassinar um pai, (2) Assassinar uma mãe, (3) Matar um sacerdote (4) Fazer o corpo de Buda sangrar, e (5) causar a desunião ou a destruição da Sangha, ou da Ordem Budista. Difamadores do Verdadeiro Darma também irão cair nesse “Hobo”.

    Nichiren Shonin disse:

    “Ninguém no mundo, incluindo eu próprio, pensa em si mesmo caindo em um dois oito principais infernos. Enquanto alguém fala de “ir para o inferno”, não acredita em seu coração que ele mesmo irá para o inferno. Mesmo budistas, se clérigos ou leigos, homens ou mulheres, que cometem crimes graves, serão enviados ao inferno, embora eles não tenham medo do castigo. Alguns põem fé em tais Bodissatvas como “Jizo”: Bodhisattva Repositório da Terra; invocam tais Budas como “Amitabha”: o Buda da Vida Infinita. Essem budistas acreditam com confiança: “Tenho tanto mérito acumulado que eu nunca vou cair no inferno”. Estudiosos de várias escolas do budismo acreditam firmemente na sua própria compreensão intelectual, e eles não estão com medo de cometer os erros que irão enviá-los para o inferno. Aqueles que crêem em Budas e Bodissatvas, porém, realmente não põem fé em si. Existe um mundo de diferenças entre a sua fé em Budas e Bodissatvas e seu amor pelos seus próprios filhos ou cônjuges e respeito por seus pais ou pelo seu Lorde. Portanto, é uma falsa visão da gente de hoje que crêem que eles nunca vão para o inferno se eles imploram aos Budas e Bodissatvas por ajuda ou se estudam o ensino de cada escola budista. As pessoas deveriam levar isso em consideração e contemplar sobre o assunto. “

    “Após a morte, nós, os seres humanos temos de comparecer perante o tribunal Enma-san” disse certa vez um famoso médico idoso. Quando morrermos, somos levados para o tribunal de Enma. Em nossa frente, há uma balança. “Coloque em um lado (da balança) tudo que você tenha recebido de outras pessoas quando estava vivo”, afirma Enma-san em uma voz profunda. “Coloque do outro lado todas as coisas que deu a outras pessoas quando estava vivo”. Se as coisas que recebeu são mais pesadas que as que você deu, Enma-san vai julgar, “Você tem tirado partido da bondade das pessoas, sem dar aos outros. Como tal, tem de ir para o inferno.” Pelo contrário, se deu mais do que você recebeu, Enma-san irá lhe avisar de que pode entrar num mundo melhor ou no mundo pacífico de Buda. Assim, o médico mencionou sobre o tribunal de Enma e disse: “Eu acho que a minha contribuição não foi suficiente, gostaria de trabalhar mais para que o tratamento médico seja mais útil para os outros durante tanto tempo quanto eu puder, para o resto da minha vida”. Este médico salvou muitas vidas e executou uma reforma médica para melhorar constantemente o sistema médico, mas mesmo assim ele disse: “Ainda não é o suficiente”. Tais palavras nunca sairiam de uma mente egoísta ou arrogante.

    Enma-san é um deus muito assustador, mas ele não é assustador sem uma razão. Ele disciplina nossa mente egoísta e arrogante para ser humilde e compassiva, em outras palavras, Enma-san nos faz despertar a nossa natureza de Buda. Enma-san é não só um juiz, mas ele é como um treinador de seres humanos gananciosos e selvagens – “Seja humilde! Seja caridoso!”

    Nós seres humanos estamos vivos, ajudando uns aos outros ou sendo ajudados por outras pessoas. Isso mostra que os estilos de vida que são úteis para nós, assim como para outros, são um trabalho humano natural e uma vida absolutamente feliz. A fim de ter uma vida assim, temos de ser humildes e benevolentes a exemplo do médico idoso e, naturalmente, vamos perceber que o sentimento alegre aumenta quando damos mais do que recebemos. É uma maneira de viver para atingir a iluminação e é a via de Bodhisattva que o Sutra do Lótus prega para nós. Por favor, vamos tentar ser mais compreensivos com os outros na nossa vida quotidiana, de modo que você possa evitar ser culpado por Enma-san.

     

    Fonte: Nichiren Shu UK (http://www.nichiren-shu.org.uk/novdecnewsletter.html)

  • Nichiren

    Desapego, uma desculpa para a indiferença?

    Uma certa vez, perguntaram-me se acreditava que o conceito Budismo Engajado era genuinamente Budista ou se era uma ideia ocidental de caridade e boas ações sendo aplicadas ao Budismo. Expliquei que honestamente acreditava e sentia que o Budismo em toda sua essência já é e sempre foi sobre envolvimento social, bondade e todas estas coisas que hoje identificamos como atividades de um Budismo Engajado. Expliquei que como o Budismo tem sido incorporado em várias culturas, estas culturas tem também influenciado como o Budismo tem sido praticado, o que em alguns casos, acredito, tendem a obscurecer as atividades socialmente engajadas de budistas.

    Pessoalmente sou entusiasmado em ser e praticar um Budismo Engajado e encorajo todos a minha volta a fazerem o mesmo. Encorajo todos os membros e discípulos a expressarem suas práticas Budistas na sociedade através de trabalhos sociais em que quaisquer de suas capacidades e habilidades podem ser desejadas e se adequem. No entanto, depois de pensar um pouco sobre esta questão, me perguntei se talvez eu estivesse tão comprometido com a ideia de Budismo Engajado que eu facilmente compreendi e ajustei em meu entendimento sobre o Budismo.

     “Ninguém discordaria que os ensinamentos internos e práticas que guiam a transformação e libertação do EU (self) são a essência do Budismo. Mas a percepção e consciência que estas práticas desenvolvem não são aplicadas ao longo do dia – em nosso trabalho, em nossas relações, e em nossas reações a crises sociais mais próximas de nós e ao redor do mundo – então ‘altruísmo’ passa a ser um eufemismo para o egoísmo, e desapego uma desculpa para a indiferença.” – Fred Epsteiner, ‘The Path of Compassion: writing on Socially Engaged Buddhism’

    Taigen Dan Leighton em seu livro ‘Faces of Compassion: Classic Bodhisattva Archetypes and Their Modern Expression’ (em tradução não oficial: ‘Faces da Compaixão: Arquétipos Clássicos de Bodhisattva e suas Expressões Modernas’), ele fala sobre como na profunda essência de ser um bodhisattva está a noção de “despertar universal ou iluminação de todos”. Mais pra frente ele ainda afirma que, “Eles existem para guiar e prover o socorro aos sofrimentos dos seres, e oferecer a todos uma abordagem à uma vida espiritual mais significativa.”

    Estas declarações em si, realmente não falam necessariamente sobre o conceito de Budismo “engajado” porque elas ainda têm em seu coração uma missão subjacente, não óbvia, implícita, de propagação. Enquanto que para mim, a ideia de Budismo “engajado” é trabalhar dentro da sociedade de uma maneira que reflita nossos ensinamentos Budistas, sem um motivo claro de proselitismo. Em outras palavras eu não acredito que seja um tipo de compensação do tipo quid pro quo; nós damos e fazemos sem qualquer expectativa.

     “Ao seguir ensinamentos sobre generosidade, paciência, conduta ética, meditação balanceada, e compreensão do que é essencial, nós podemos vir a viver também para beneficiar os outros. Assim, nós também aprendemos compaixão por nós mesmos e vemos que nós não estamos separados da pessoa que imaginávamos como afastadas de nós e como opostas às nossas esperanças e desejos. Eu e Outro se desenvolvem juntos.” – Leighton, ‘Faces of Compassion’, pg. 26

    Então em outras palavras nós seguimos ensinamentos que estão na essência do Budismo e percebemos que nós não podemos manter estes ensinamentos apenas conosco, para si, porque nós também estamos conectados a todas as outras pessoas, e como diz Leighton, “EU e Outros se desenvolvem juntos”. A ideia de que ao seguirmos o Budismo nós nos afastamos da vida é uma falta de compreensão da doutrina. A literatura Budista é cheia de homens e mulheres vivendo normalmente e praticando o Budismo com sucesso.

    “Pode ser agradável a certas pessoas viver uma vida reclusa em um lugar tranquilo longe de barulho e perturbação. Mas é certamente mais louvável e corajoso praticar o Budismo vivendo entre seus semelhantes, ajudando-os e a serviço deles. Talvez pode ser útil em alguns casos para uma pessoa viver recluso por um tempo, a fim de melhorar a sua mente e personalidade, como uma formação moral, espiritual e um treino intelectual, para se fortalecer o bastante para mais tarde voltar e ajudar os outros. Mas se alguém vive a vida inteira em solidão, pensando unicamente em sua felicidade e libertação, sem se importar com os demais seres, isto certamente não está de acordo com os ensinamentos do Buda, que são baseados em amor, compaixão e serviço aos outros.” – Walpola Rahula, ‘The Path of Compassion’, pg. 103

    Penso que existem varios escritos que auxiliam no assunto para estar seguro em afirmar que a prática na sociedade ajudando outras pessoas é realmente uma prática Budista importante e legítima.

    O capítulo 22 do Sutra de Lótus diz: “Quando vemos alguém que não recebe este sutra pela fé, você deve mostrar a ela algum outro profundo ensinamento meu, ensine-o, beneficie-o e leve-o a contentar-se. Quando você fizer tudo isto, você será capaz de retribuir os favores que lhe foram dados pelo Buda.”

    Talvez seja um exagero, mas nesta declaração “beneficie-o e leve-o a contentar-se” entendo serem instruções que dizem que independente de haver ou não alguém que toma fé no Sutra de Lótus, ou qualquer outro profundo ensinamento do Buda, nós ainda devemos considerar como podemos beneficiar as pessoas e leva-los ao contentamento. Em outras partes do Sutra de Lótus é dito que inumeráveis benefícios surgirão aquele que eleva O Sutra de Lótus, então quando nós fazemos com que alguém se contente, eles não estão nos alegrando, mas em vez disso a nossa prática e expressão do Sutra de Lótus.

    Não é importante quão grande ou pequeno o esforço pode parecer para a pessoa que está fazendo, é o fazer que realmente significa algo. No início nossos esforços podem parecer triviais, mas eles são importantes, nada mais que isso. Se nós olhamos apenas para alcançar um grande objetivo, então nós nunca deveríamos sequer ter começado. É melhor começar que sonhar. Ao definir os objetivos, muitas vezes incentiva-se a quebrar este objetivo em pedaços menores, que faz com que a tarefa pareça menor e mais viável. Cada pequeno esforço é realmente monumental quando você considera que a inércia de não se importar é superada pelo simples primeiro paço. Existem várias maneiras de se envolver, ouça sua paixão, o que te guia, o que te move. Comece por aí. Dê um tempo e não sinta que apenas porque você começou com algo e isso não diz nada ao seu coração você não pode tentar alguma outra coisa. Faça o que sente que é certo, o que acha que tem um talento especial, e faça isso com a alegria de praticar como um bodhisattva.

    *tradução livre do texto “Detachment an Excuse for Indifference?” do rev. Ryusho Shonin da Nichiren Shu.

  • Nichiren

    Bonnô soku bodai: desejos mundanos são iluminação?

    Bonnô Soku Bodai
    烦 悩 即 菩 提

    Os caracteres chineses, lidos em japonês como “bonnô” traduzem a palavra em sânscrito “klesha“, que significa: aflição (dor pelo contato, pela separação ou pelo egoísmo), ilusão (julgamento errado sobre a natureza de um objeto), confusão (mistura de causas e condições obscuras e causas e condições iluminadas) e agitação (incapacidade de fixar a concentração nas causas e nas condições libertadoras ou de libertar-se das consequências das causas e das condições aprisionadoras). A tradução chinesa aqui é um desses casos em que é possível definir limites muito relevantes para o significado do termo original sem alterar o espírito dos caracteres adequados.  O significado budista creditado aos dois kanji é, para o primeiro, “dolorosa ansiedade para chegar” e para o segundo, “dolorosa separação” ou “a certeza de não poder alcançar“. O hiato deixado entre a ansiedade dolorosa de chegar e a dor melancólica de partir é, em última análise, uma metáfora para “vida”. É uma questão – para nós budistas – que pode ser preenchida através do espírito de investigação e da prática do Caminho do Meio.

    O falecido Tamura Yoshirô (1921-1989), um eminente sacerdote da Nichiren Shu, opositor da leitura ultranacionalista de Nichiren e ilustre acadêmico, investiu a maior parte de sua vida em estudar a doutrina que Shimaji Daito havia exposto, chamada de “iluminação original”. Tamura, em um escrito em 1983 explicou essa filosofia em duas etapas diferentes.

    Primeiro concebeu a ideia da não-dualidade como a mais alta expressão do budismo Mahayana: todas as vidas individuais, vazias e sem consistência própria são percebidas e concebidas, somente se levando em conta a interdependência de todos os fenômenos. Esta posição filosófica nega qualquer diferença ontológica entre Buda e os mortais comuns, entre Terra Pura e existência mundana, entre o alter e o ego e assim por diante. Colapsam então todos os conceitos relativos às convencionais distinções do mundo fenomenal.

    Em seguida explicou que a compreensão da não-dualidade nos transporta novamente ao mundo fenomenal, ratificando suas distinções relativas como expressões da realidade não dual da iluminação original.

    Esta segunda razão, é geralmente expressada pelo famoso termo Mahayana “bonnô soku bodai” (paixões terrenas são por si só iluminação) ou “shoji soku nehan” (nascimento e morte é precisamente o nirvana).

    O princípio em questão exige esclarecimento para que se evite a frouxidão moral advinda apenas da compreensão superficial de seu significado: esta igualdade não é no nível dos fenômenos, mas no nível da essência. Uma formulação mais clara do princípio exige ser expressa nesta versão: “na sua essência os desejos mundanos são idênticos à iluminação“. Somente quando se realiza a iluminação, percebe-se que “bonnô” e “bodai” são as mesmas coisas.

    Quando se atinge a iluminação, a identificação dos desejos como iluminação se torna um fato. Somente na perspectiva do Buda as diferenças desaparecem e tudo se torna igual. Essa percepção só pode ser obtida através da prática budista.

    Concluindo, “bonnô soku bodai” pode ser resumido da seguinte forma:

    Para as pessoas comuns:
    no nível essencial: ilusões = iluminação
    no nível fenomenal: ilusões ≠ iluminação

    Para um Buda:
    no nível essencial: iluminação = ilusões
    no nível fenomenal: ilusões = iluminação

    Diferentes escolas qualificam e quantificam os “bonnô”, diferenciando uns dos outros mas, independentemente de distinção especial, na frase “bonnô soku bodai”, existem algumas características que são úteis para premissas linguísticas: o idioma chinês, assim como o japonês, usam partículas sintáticas que são destinadas a qualificar gênero e número dos objetos em discussão.

    Por exemplo, usamos uma partícula “satsu 册” para livros e, nessa perspectiva, “sansatsu 三册” significa três livros. Assim se expressa os conceitos existentes de pluralidade (três) e aqueles de interesse específico (livros). É interessante notar que nenhuma partícula – para o gênero ou número – expressem a qualificação ou a quantificação da palavra “bonnô” em “bonnô soku bodai“. A frase recebe então um tom absolutista.

    Tem a mesma sorte “bodai” 菩提 com o significado implícito de “incorporação” do “bonnô” 烦悩. Isso quer dizer que para satisfazer a equação “desejos mundanos = iluminação” se deve assumir todos os tipos de todos os bonnô. Colocar os bonnô à prova e viver de acordo com Caminho Óctuplo e de acordo com o Sutra do Lótus é a condição necessária para obtenção de “bodai” (iluminação), assim como, um bronzeado exige a exposição total do corpo à luz solar e um treino muscular harmonioso e global desenvolve um físico saudável, forte e equilibrado.

    Uma discussão semelhante também se aplica à expressão “shôji soku nehan”, com especial atenção reservada para o fato de a tradução literal de shôji , “vida-morte” (samsara), não vem acompanhada das palavras “sofrimento de…” que muitas vezes estão presentes.

    Em outras palavras o nosso compromisso de melhorar, em perseguir a nossa emancipação pessoal, não pode ser esporádico ou descontínuo ao longo do tempo ou em situações específicas. É como dizer que um policial ocasionalmente rouba alguma coisa ou extorque alguém. Como devemos julgá-lo? Policial ou ladrão? Certamente os tribunais ainda não formularam uma definição híbrida. É certamente mais plausível para nós pensar que ele iria acabar ser fichado como “totalmente criminoso” e não como “semi-policial”.

    Na sociedade, também pode acontecer de tais comportamentos antiéticos serem tolerados até a descoberta da culpa, até que a tolerância se esgote ou até que a complacência dos envolvidos acabe, mas, o Dharma imediatamente (soku)  imprime a marca (causa interna, nyo-ze in 如是因) dos pensamentos (i 意), das palavras (ku 口) e das ações (shin 身) e seus frutos intrínsecos (nyo ze ka 如是果) que por sua vez se tornarão efeitos (nyo ze ho 如是報).

    T’ient’ai (538-597) diz em Grande Concentração e Discernimento, “A ignorância e a poeira dos desejos são iluminação, e os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana”. Em Registros dos Ensinos Orais, Nichiren afirma:. “A ideia de ir superando gradualmente os desejos mundanos não é o sentido último do capítulo ‘A Duração da Vida Eterna’ [do Sutra do Lótus]. Você deve compreender que o sentido último deste capítulo é que os mortais comuns, assim como eles estão em seu estado natural, são Budas” e,” Hoje, quando Nichiren e seus seguidores recitam as palavras Namu Myoho Rengue Kyo, eles estão queimando a lenha desejos mundanos, alimentando o fogo da sabedoria da iluminação.”

  • Nichiren

    Resolução de ano novo como prática

    Tipicamente no Ocidente, e talvez em outros lugares, é como uma tradição fazer resoluções de ano novo. Mas é muito simples fazer resoluções como uma maneira extravagante de dar boas vindas ao novo ano, é quase como uma brincadeira com nós mesmos para ver se conseguimos mudar nossos hábitos para melhor, quando na verdade sabemos que não temos a foça de vontade necessária para realizar estas mudanças sozinhos, diariamente.

    Ao invés de simplesmente dizer, “A partir deste momento Eu vou parar de fumar, ou de comer coisas que me fazem mal, ou ser tão impaciente e estressado quando estou dirigindo”. Nós dizemos, “A partir do ano que vem, ou da próxima semana, ou a partir de amanhã eu vou parar de fazer aquilo e aquela coisa, começar a fazer aquilo ou aquela coisa.

    É quase como se nós quiséssemos nos dar uma chance ou nos fazer um agrado. É realmente um tipo de jogo que fazemos com nós mesmos e com o calendário. No final, nós realmente não levamos estas resoluções muito a sério.

    Nos ensinamentos do Buda, entretanto, a situação é bem diferente. Resoluções ou votos são uma parte integral do caminho do Bodhisattva. Na verdade, sem fazer os votos ou resoluções para o bem de todos os seres, não se pode ser considerado um bodhisattva verdadeiro. Muitos de vocês já estão familiarizados com estes votos, por exemplo, certo? (veja aqui)

    Os quatro grandes votos feitos por todos os Bodhisattvas são: “(1) Os seres são inúmeráveis, faço voto de salvá-los todos. (2) Nossos desejos são inesgotáveis, faço voto de extingui-los todos. (3) Os ensinamentos do Buda são imensuráveis, faço voto de estuda-los todos. (4) O caminho do Buda é insuperável, faço voto de atingir o sublime caminho.

    Além destes quatro grandes votos, cada bodhisattva também faz seus votos particulares que expressam suas resoluções e práticas individuais. Na carta Kaimoku Sho (A Abertura dos Olhos), Nichiren Shonin fez um grande voto: “Eu nunca quebrarei meu voto de que hei de me tornar um pilar do Japão, eu me tornarei os olhos do Japão, eu me tornarei a grande embarcação do Japão”. Esta passagem tem sido algumas vezes tomada como uma expressão de megalomania e delírios de grandeza. No entanto, quando lido corretamente, podemos perceber que, muito longe de ser megalomania, Nichiren na verdade está expressando seu voto particular de um bodhisattva que é estar perfeitamente disposto a dar sua vida às causas e necessidades do contexto histórico em que ele havia nascido.

    O que Nichiren está expressando é a sua grande compaixão e senso de responsabilidade para salvar o povo do Japão. Este é o espírito que também devemos incorporar, a vontade de fazer uma resolução que expresse nosso próprio senso de responsabilidade solidária em nosso contexto histórico, social e cultural em que vivemos.

    Voltemos às nossas resoluções de ano novo. Nossa prática do Odaimoku (Namu MyoHo RenGe Kyo) é por si só um voto ou resolução, e também o caminho que nos permite cumprir todas as nossas resoluções e votos. Namu MyoHo RenGe Kyo, entre inúmeras outras coisas, significa “Eu me dedico e me refúgio ao Maravilhoso Dharma do Sutra da Flor de Lótus”. Esta resolução é ainda mais fundamental do que os quatro grandes votos.

    Este é o voto-raiz que está plantado na verdadeira causa fundamentada na natureza búdica. Os quatro grandes votos são o tronco que brota a partir deste fundamento, e os votos particulares, como o de Nichiren, são os ramos. As folhas, as flores e as frutas são o belo resultado destes votos que se revelam em nossas vidas.

    Através deste voto-raiz, nós podemos nos fortalecer para comprir ambos os quatro grandes votos e os nossos votos particulares, além das resoluções que fazemos de acordo com nossos circunstâncias e contextos particulares.

    Existe algo ainda mais maravilhoso, o Odaimoku não é apenas nosso voto para se dedicar ao maravilhoso Dharma, ele é também o voto do Buda Eterno que dedica o Maravilhoso Dharma para nós. No Odaimoku, nosso voto e o voto do Buda se convergem, se encontram, em um único momento de Namu MyoHo RenGe Kyo. Isto significa que cada vez que recitamos Namu MyoHo RenGe Kyo nós estamos começando do zero. Cada vez que recitamos, existe um encontro entre o nosso próprio momento limitado de resoluções indeterminadas e o momento atemporal de infinitos votos do Buda Eterno. Este encontro de tempo limitado e o infinito atemporal é muito mais importante do que o início de um ano novo, de uma nova década de um século ou até mesmo de um milênio.

    *tradução livre do texto “Resolution as practice” do rev. da Nichiren Shu, Ryuei Shonin

    Gasshô.

  • Nichiren

    Paz interior, a mudança está em nós.

    “Não precisamos olhar muito longe para vermos exemplos de inquietação e conflitos, eles estão em nossas comunidades, sociedade, no mundo como um todo. Há um excesso de ansiedade e inquietação, e não é o que nós dizemos e queremos que fará com que isso mude, mas o que nós somos.

    Ao invés de olhar à nossa volta e dizer que não há paz suficiente, precisamos olhar para dentro de nós e descobrir se temos ou não paz interior. Quando nós conseguirmos alcançar paz em nossa própria vida, então gradualmente a paz prevalecerá em nossa sociedade. Nós podemos nos tornar faróis da paz iluminando o caminho para a felicidade dos outros.

    Parece uma fórmula muito simples, no entanto o mistério se encontra em como fazer. Talvez uma das coisas mais difíceis de se alcançar, ou nós costumamos pensar que é. É fácil olhar ao redor e identificar caminhos pelos quais a sociedade poderia ser pacífica, envolvendo principalmente outras pessoas mudando para se tornar o que nós gostaríamos que fossem. É muito mais difícil olhar para dentro e ver o que nós precisamos mudar em nossas vidas para que possamos estar em paz em nosso coração.

    Vamos explorar algumas ideias, que podem ser consideradas, para trazermos paz interior. São apenas algumas possibilidades das várias possíveis que podemos por em prática. Talvez, algumas delas vocês já devem ter parado para pensar ou talvez, algumas sejam novidades.

    A primeira consiste em tomar toda e completa responsabilidade pelo modo que agimos e reagimos. Ninguém ou nenhuma coisa faz você agir de uma forma específica. Você escolhe a maneira como se comporta. É de sua responsabilidade decidir como você será e portanto como irá agir. Focar em ser e agir de acordo com a sua essência, pode mudar a maneira como você reage às outras pessoas e como você age sob diversas circunstâncias no dia a dia.

    Conheça sua essência ao contrário de conhecer seu Ego, suas necessidades ou sua história passada. Separe um tempo para conhecer quem você realmente é; quais são suas paixões, suas alegrias, seus valores, seus objetivos. Esta é uma longa jornada de auto-conhecimento, uma viagem que não tem atalhos. Identificar quais são seus valores te ajudará a entender o que será preciso para mantê-los. Muitas vezes na vida, justamente por não estarmos suficientemente consciente do nosso verdadeiro eu, agimos sob falsas necessidades.

    A segunda, consiste em abandonar a droga da vez de nossa sociedade, a adrenalina. Parece que todos nós temos sucumbido à necessidade das coisas acontecerem sempre muito rápido, e estimular que a nossa vida se acelere junto. Viver no limite tem se tornado para muitos o que determina se estamos ou não realmente vivos, se estamos na realidade. Parece que, se não estamos fazendo na máxima velocidade, com o máximo de excitação, então nós, de alguma maneira, não estamos vivos ou não somos reais.

    Por não nos conhecermos, ou por estarmos tão desconfortáveis em conviver com nosso eu verdadeiro, mascaramos isto com entusiasmo e excitação. Esteja confortável com você mesmo. Seja o que for que estiver desconfortável, mude. E o lugar para começar a mudança é internamente.

    Isto leva à próxima sugestão, que tem a ver com o que te perturba; Existe uma razão para você agir e reagir da maneira que faz. E a razão não está fundamentada fora, mas dentro de você. Conheça a verdade dentro de si mesmo, ela está por trás destas questões que te incomodam. Às vezes, a verdade dura e fria é que você está vendo nos outros as coisas que você não gosta em si mesmo mas que é incapaz de mudar internamente. Nosso ambiente é um reflexo do nosso próprio eu.

    Finalmente, priorize sua vida. Pense sobre o restante de seus dias de vida. Vá em frente e faça uma estimativa de quantos dias você espera viver, quantos dias de vida te restam. Agora, como você gostaria de passar esses dias? Você quer que sua vida seja uma soma de coisas realizadas, listas de tarefas concluídas, o tempo gasto correndo atrás de coisas e coisas acumuladas? Ou você prefere olhar para trás e ver uma vida com grandes relacionamentos, experiências maravilhosas, paz e tranquilidade?

    O impacto que a sua vida tem nos outros é extremamente subestimado. Sua paz interior, sua calma, seu contentamento ou a falta destas coisas, se espalham ao seu redor. Você pode gerar um impacto significativo no seu ambiente através de mudanças que você realiza em sua vida.

    Não é fácil fazer este tipo de mudança, no entanto há um grande benefício em fazer até mesmo uma pequena destas mudanças.”

    *tradução livre do texto Inner Peace, do rev. Ryusho Shonin, da Nichiren Shu.

  • Nichiren

    Varrer a sujeira! Sujeira limpa! – A prática através da limpeza

    Como o fim do ano se aproxima, o povo japonês costuma fazer uma limpeza geral em toda a casa. Esta é uma tradição chamada “O-So-ji”, que significa “O” grande, “So-ji” limpeza. Eles pretendem com isso limpar e purificar os maus elementos ou o mau karma acumulado no ano antigo a fim de ter um bom ano novo. “So”, de “So-ji”, quer dizer varrer para longe, “Ji”, quer dizer remover e extinguir. So-ji pode ser entendida como limpeza de maus augúrios ou de coisas ruins. Portanto, So-ji, se refere a ambos os sentidos da limpeza, física e espiritual.

    A formação para ser um reverendo se inicia com a limpeza. O shami é um reverendo noviço que recebe formação, através dos ensinamentos do seu mestre e tem de trabalhar muito todos os dias. Dia após dia a limpeza continua desde manhã cedo até a noite, especialmente limpando o banheiro. Às vezes eu despertava na noite, pois tinha pesadelos com a limpeza. Muitas vezes eu estava cansado e pensava, “Por que eu preciso limpar o banheiro dia após dia, gostaria de estudar os ensinamentos de Buda muito mais.” No entanto, um Shami aprende que o seu principal alicerce para ser um sacerdote se forma inconscientemente através da limpeza.

    Geralmente, não existem tantas pessoas que amam fazer limpeza. Normalmente, as pessoas executam a limpeza com sentimentos, tais como, “Eu não quero limpar, mas eu sei que sou obrigado”, desnecessário dizer que é ainda pior com a limpeza do banheiro. Ninguém pretende limpar o banheiro. Mas para ser um sacerdote, o shami deve fazê-lo gostando ou não. Caso contrário não há nem desenvolvimento nem aprendizado se ele reclama, “Eu não gosto de trabalho sujo!” Assim, no início, o shami limpa o banheiro, uma vez que luta entre sua vocação e sua real intenção. Logo ele percebe a realidade, de como é difícil limpar um banheiro. É difícil imaginar como é árduo o trabalho ante de fazê-lo. Por isso, depois deste longo treinamento, os seus comportamentos tornam-se inconscientemente gentis e amáveis. Às vezes, eles enfrentam essas situações que são parecidas com um banheiro sujo e, depois, eles percebem a insensatez dos seres humanos e percebem sua tristeza e vazio. Tudo é um exercício de um shami. Através dos treinos eles aprendem perseverança e espírito de compaixão e desenvolvem o prazer de servir as pessoas. Desde os velhos tempos, diz-se que uma limpeza no banheiro deixa as pessoas com um caráter suave, porque esfregar o vaso sanitário amadurece o ego imaturo, acaba com a vaidade e o egoísmo e aprimora o caráter bom e gentil da mente. Limpeza parece uma questão insignificante, mas é o mais importante na formação para ser capaz de aprender muitas coisas com o seu corpo e mente. Ela melhora o seu próprio caráter para se dedicar ao trabalho missionário.

    Um tempo atrás, havia um discípulo do Buda Shakyamuni que atingira a iluminação por meio da limpeza. Seu nome é Cudapanthaka. Geralmente temos uma imagem que os discípulos de Buda são inteligentes e espertos, mas ele não foi. Ele era estúpido e ele não pôde memorizar até mesmo o seu próprio nome, mas finalmente ele se tornou uma grande iluminada figura da história budista.

    Em primeiro lugar, Cudapanthaka se tornou um discípulo do Buda sob a orientação do seu irmão, que tinha uma mente muito perspicaz. No entanto, apesar de ele fazer o seu melhor sempre, a disciplina foi tão difícil para ele, que ele não conseguiu memorizar nada. Ele muitas vezes se debatia sobre permanecer como discípulo ou não, mas finalmente um dia decidiu sair. Quando ele estava saindo, o Buda o chamou e o ordenou como seu discípulo direto. “Cudapanthaka, você vai ficar aqui e virado para o leste, recite repetidamente isto ‘Limpar a sujeira! Sujeira limpa! ’ enquanto limpa as mãos com este pano branco”. No entanto, ele não podia sequer memorizar esta frase. Ele tentou várias maneiras, mas não foi assim tão fácil para ele. Ele continuou a tentar memorizar a frase, enquanto ele limpava suas mãos. Assim muitos dias se passaram e o seu pano branco, que o Buda tinha dado para ele, se tornou muito sujo por causa da sujeira de suas mãos. Ele então ficou chateado com a sujeira do pano e logo tentou lavar a sujeira muitas vezes, mas não conseguiu torná-lo branco como antes. Depois, ficou triste e preocupado e foi até o Buda pedindo desculpas entre lágrimas. O Buda disse a Cudapanthaka que estava olhando fixamente no pano. “O seu pano branco se tornou sujo por causa da sujeira de suas mãos, isto aconteceu pela sujeira de sua mente. Se isto é assim, como é que vai fazer? “Cudapanthaka respondeu, “Farei o meu melhor para limpar a minha sujeira e a sujeira de outros.” Ele começou a limpar tudo, o jardim, salão principal, instalações sanitárias, sapatos, bolsas, roupas e etc, enquanto ele recitava “Limpar a sujeira! Sujeira limpa!” Outros discípulos notaram isso e foram surpreendidos com os diferentes comportamentos de Cudapanthaka. Mesmo assim trataram-no como um tolo. Um dia, alguns discípulos tentaram testar Cudapanthaka que ultimamente tinha conquistado boa reputação e lhe pediram para fazer um discurso para muitas pessoas. No discurso, ele falou sobre si mesmo com honestidade perante o público-alvo. Disse: “Eu sou verdadeiramente uma pessoa tola. Por isso, não tenho quaisquer bons ensinamentos para pregar para vocês, somente aquilo que eu lembro e tenho praticado sob orientação do Buda. Gostaria de compartilhar isso, por favor, escutem, por favor. Logo que ele falou isso, recitou lentamente com uma bela voz e suavemente. “Limpar a sujeira! Sujeira limpa! Limpar a sujeira! Sujeira limpa!” Os discípulos que haviam tentado testá-lo ficaram muito impressionados com a profunda compaixão na sua voz e se desculparam com ele. Seu breve discurso foi concluído com aplausos.

    Cudapanthaka realizou o ensino da limpeza através de toda sua vida e ele ensinou para outros as práticas da limpeza física e mental. Ele dedicou a sua vida para limpar sua mente. Embora ele fosse uma pessoa ignorante que não podia sequer memorizar o seu nome, ele finalmente conseguiu o caminho sublime da mente obediente. Ainda hoje depois de 2500 anos, esta verdadeira história incentiva muito.

    Limpeza é mera limpeza, mas vai nos trazer muitos ensinamentos. Meu mestre sempre me deu aulas sobre limpeza, “Limpa o Templo que também irá limpar a sua mente. “Quando você limpa a sujeira do chão, você deve pensar que você limpa a sujeira da sua mente.” “A vassoura varre e limpa em qualquer lugar; pavimentos, escadas, o jardim, mas não pode limpar a vassoura em si. Uma vassoura precisa de outros para limpá-la. Da mesma forma, nós, seres humanos, não podemos limpar a nossa própria mente por nós mesmos. Nós precisamos de companhia para nos ajudar a limpar as nossas mentes assim como para ajudarmos a limpar a mente de outros”.

    “O pano de chão limpa o chão e pode absorver um derramado sobre o tapete. Embora o pano seja limpo, gradualmente vai se tornando sujo e velho, mas o pano nunca se queixa. Isso nos mostra o ideal da fé do Sutra de Lótus, embora uma pessoa apoia e ajuda muitas pessoas a serem felizes, ela não se vangloria, não se orgulha, não é arrogante, e não quer nada em troca, apenas sorri sempre . Este é o caminho do Bodhisattva”.

    No que diz respeito à limpeza da mente, Nichiren Shonin disse “A mente é como um espelho embaçado. No entanto, se você o limpa bem, o espelho pode ser uma joia que reflete a verdade. Tenha fé firme e limpe seu espelho de manhã e à noite, sem negligência. Como é que você limpa o espelho? Basta recitar ‘Namu Myoho Renge Kyo’.” Recitando Odaimoku você limpa sua mente. Um espelho embaçado pode ser limpo, mas a mente embaçada nós não conseguimos observar por nós mesmos e também não sabemos como limpá-la. Todos os dias, a mente pode ser ferida e confundida facilmente. Devemos, portanto, limpá-la. Nós podemos limpar e purificar nossa mente simplesmente por recitar Odaimoku.

    Com o ritmo de Namu Myoho Renge Kyo, você pode limpar não só a sua casa, mas também sua mente. Através da limpeza física e mental, você irá perceber um sentimento leve e alegre. Por favor, se dediquem a limpeza física e mental todos os dias.

    Gasshô

    *tradução livre do texto “Sweep Dirt! Clean Grime!” da Nichiren Shu UK.

  • Nichiren

    Comprendendo a palavra ‘correto’ na quarta nobre verdade

    Algumas pessoas sentem uma certa dificuldade em compreender alguns termos quando iniciam os estudos e prática no Budismo. O texto a seguir é de um reverendo de nossa escola, Nichiren Shu, chamado Ryusho Shonin. Ele nos ajuda no entendimento da quarta nobre verdade, ou Nobre Caminho Óctuplo, especificamente no uso da palavra Correto:

    “Ao tentar explicar sobre o Nobre Caminho Óctuplo, rapidamente sinalizo que a palavra ‘correto’ em cada um dos oito corretos caminhos não é ‘correto’ como oposto de ‘errado’, mas sim uma procura pelo que é mais habilidoso. Ou seja, o que irá produzir o maior bem e mais valor tendo em mente causar o menor prejuízo possível.

    ‘Correto’ não é sobre uma doutrina que procura proibir as coisas, impor regras, ditar mandamentos e assim por diante, buscando restringir as ações das pessoas. ‘Correto’ diz respeito a tentar encontrar dentro de nós qual a essência de nossa vida. ‘Correto’ é sobre entender de uma maneira profundamente íntima como podemos fazer o bem e manter o equilíbrio da melhor maneira possível.

    Não há uma resposta perfeita para o que é correto. O que pode ser correto hoje, com certeza pode não ser correto amanhã ou daqui a muitos anos. Algumas vezes o valor de correto muda porque nós sabemos mais sobre a nossa própria vida ou sobre as situações em que estamos envolvidos.

    De vez enquanto nós nos deparamos com algumas situações realmente difíceis as quais precisamos fazer escolhas. Talvez não haja uma boa escolha que possamos fazer; talvez seja prejudicial se fizermos ou se não fizermos. Mas pode ser uma situação que, de forma legítima e verdadeira, cause o menor dano possível. Mesmos nestas situações se nós estivermos realmente procurando causar o verdadeiro bem, nós devemos ter em mente escolher a opção mais habilidosa em que possamos evitar ou reduzir causar algum prejuízo.

    A retribuição por agir corretamente é a eliminação das causas do sofrimento em nossas vidas. Budismo não é uma doutrina de salvação ou julgamento. Causa e efeito é um princípio universal neutro o qual não há salvação exceto por mudar as causas feitas e então vivenciar efeitos diferentes. Seguir o nobre caminho óctuplo é o nosso método para remover o sofrimento.”

    Um outro Reverendo de nossa escola, chamado Ryuei Shonin, explica bem a relação que temos em nossa prática com a recitação do Odaimoku (NamuMyoHoRenGeKyo), onde refletimos e relacionamos a nobre verdade discutida (Caminho Óctuplo):

    “Recitar o Odaimoku deve ser uma maneira de gerar e emanar amor e gentileza, compaixão, simpatia e equanimidade. Nossa recitação pode ser uma forma de querer bem a todos as outras pessoas e criaturas. Nós recitamos pela felicidade e pelo bem-estar de todos em nossa vida, nós recitamos para que eles sejam livres do sofrimento, para que todos os seres sem exceção vivam em paz e harmonia. (…) Isso pode ser uma forma muito poderosa de prática e pode ajudar-nos a acessar a habilidade de fazer o bem, o cuidado altruísta e a compaixão de nossa natureza búdica.”

    Namu MyoHoRenGeKyo. Gassho.

  • Os Três Refúgios e a Prática Tripla - Sobre Budismo
    Nichiren

    Os Três Refúgios e a Prática Tripla

    Todos procuram a felicidade, mas a verdadeira felicidade é difícil de ser encontrada e ainda mais difícil de ser mantida. Com muita frequência se frustram os nossos esforços em encontrar satisfação duradoura e completa, e muitas vezes nos perguntamos por que não podemos ser o tipo de pessoa que queríamos ser e realizar nossos sonhos. Claro que, mesmo se formos capazes de encontrar felicidade e mantê-la, inevitavelmente virá o dia em que teremos de deixar tudo por causa da velhice, doença ou morte.