Caminho espiritual e nosso trabalho

Caminho espiritual e nosso trabalho


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Uma das dificuldades mais frequentes das pessoas que começam a se interessar por um caminho espiritual é perceber o abismo entre os sublimes ideais apontados por seu caminho escolhido e sua ocupação por meio da qual ganha seu pão diário. O caminho espiritual aponta para uma vida de compaixão, altruísmo, viver consciente e generoso, mas no seu trabalho das 9 às 5 nada mais encontra além de competição, ganância e práticas que visam enganar tanto os próprios trabalhadores quanto os consumidores de seu trabalho.

Com a proliferação de ocupações que se equilibram na fronteira da ação desprovida de ética, certamente o caminhante que se prepara para trilhar o caminho apontado pelo Buddha deverá, por vezes, tomar difíceis decisões que poderão levá-lo a se distanciar de sua ocupação atual. Mas há, ainda, toda uma vasta gama de profissões que, ainda que não desprovidas de ética, podem se encontrar naquela ambiente inóspito do tédio e da rotina, sem conseguirmos ver que relação isso tem com nossos ideais mais altos que começamos a descobrir.

Ajahn Buddhadasa, um dos grandes mestres da tradição Theravada da Tailândia, deu uma especial atenção a esse problema. Para ele, desde que um trabalho não ultrapassasse os limites éticos, não havia distinção entre ocupações superiores ou inferiores. O trabalho era julgado por sua utilidade e necessidade. Num artigo que sairá amanhã no site do Nalanda, Ajahn Santikaro, um dos alunos de Ajahn Buddhadasa, expressa assim este método de ‘avaliação’ do trabalho:

“Em Suah Mokkh [o mosteiro de Ajahn Buddhadasa], considera-se dever qualquer trabalho necessário, e dever é um dos significados do Dhamma. Cumprir os deveres é praticar o Dhamma. Limpar banheiros é tão necessário quanto estudar as escrituras e meditar, sendo, por isso, uma prática importante e válida. Na verdade, uma pessoa tem menos probabilidade de sentir orgulho de limpar bem um banheiro do que, digamos, fazer sermões. No entanto, a satisfação que existe nisso traz alegria e serenidade que, por sua vez, pode levar ao aprofundamento da sabedoria”.

Limpar o banheiro ou varrer as ruas é tão digno e necessário quanto qualquer outro trabalho útil, e é visto em pé de igualdade com estes. Se conseguirmos ver tal verdade, poderemos também compreender nosso próprio trabalho com novos olhos e, o mais importante, utilizá-lo como mais uma de nossas bases espirituais.

Ajahn Santikaro, complementa:

O Dhamma varre o coração enquanto a vassoura varre o chão”. Limpeza externa ajuda a cultivar uma mente limpa e despoluída. E quando se faz isso sem qualquer desejo ou apego, quando há apenas o varrer e não aquele que varre, a “mente-vazia” fica descoberta e a vivência direta do Dhamma acontece“.

Que os leitores deste site possam levar essas palavras para seu trabalho e começarem esta semana com uma atitude de cumprir seu dever e alegrar-se no trabalho bem feito.

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