Budismo: Zen e Nembutsu

Budismo: Zen e Nembutsu


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Quando comparado a uma religião de crença, o budismo é um caminho de vida. O budismo é auto-realização, autodesenvolvimento, uma vida criativa. É um modo de viver. É filosofia, psicologia e religião – não só uma crença, mas algo imediato e direto. Tudo na vida é religião… é o caminho budista. Especialmente no zen – no qual se diz que levantar da cama, escovar os dentes e lavar o rosto, tudo é religião.

Cada dia, cada momento da vida, é em si uma religião. Como viver, como encontrar a si mesmo na multiplicidade e complexidade da vida de hoje é descobrir a vida pura e simples que você está buscando. É isso que o zen ensina. É isso que o budismo como um todo ensina, um caminho de vida pelo qual você pode encontrar paz, alegria e harmonia em seu meio ambiente. O budismo ensina que todas as coisas existentes são o resultado do karma e que você é responsável, não os outros. Nenhum agente externo é responsável por sua felicidade ou miséria.

O zen enfatiza, basicamente, a meditação. O shin enfatiza o nembutsu. Embora estas abordagens possam parecer diferentes, na verdade não o são. Tanto o zen como o shin procuram alcançar a liberação completa, a salvação e a conquista da liberdade. Através do apego, os homens freqüentemente tornam-se escravos de muitas coisas. Quando a pessoa se torna escrava de sua própria paixão, esta paixão cresce dentro dela e se transforma em miséria para a própria pessoa e para os outros. O caminho budista de vida é a libertação, a salvação que desata os nós emaranhados dos problemas humanos.

Independentemente dos textos usados nas várias escolas de budismo, todos ensinam este caminho de vida para chegar-se à iluminação, à salvação. O conteúdo da iluminação é o nirvana. O nirvana é aquela totalidade da vida onde encontramos a verdadeira paz, alegria e harmonia. O zen é um dos caminhos para a iluminação e a liberdade.

A palavra japonesa “zen” é ch’an em chinês, jhana em páli (a antiga língua sagrada da Índia) e dhyana em sânscrito. Dhyana é meditação estática e dinâmica – não só a quietude estática como também a quietude em meio à multiplicidade. A escola zen está se tornando amplamente conhecida hoje em dia nos Estados Unidos e na Europa. Mas, em alguns círculos, membros da chamada beat generation* apoderaram-se de certas partes do zen sem compreender as demais: adotaram apenas a parte beat do zen, sua pulsação, seu aspecto dinâmico. E assim, “ser beat ” tornou-se um modismo nos dias de hoje – o estilo boêmio de viver, a vida no ritmo beat .

É claro que a nossa vida é uma espécie de pulsação (um beat ) – assim como as batidas do nosso coração. Nosso coração é um pulsar contínuo e, por isso, a vida é uma pulsação; ela não é algo estático, mas sim um ritmo. Porém esta pulsação não é fortuita. Ela tem um ritmo universal, é uma com a verdade. Mas a geração beat toma apenas uma parte da vida e diz, “Não me importo com a formalidade, o conformismo; não me importo com os outros, vivo do jeito que quero”. Hoje em dia, muitos adolescentes estão se tornando mais ou menos assim. Eles têm tanta energia que querem fazer alguma coisa; mas não querem se amoldar querem apenas fazer o que desejam.

Um homem não é um ser independente, como pensam muitos adolescentes. Um homem é um ser muito intimamente interdependente e inter-relacionado com outros seres. Ninguém pode viver sem os outros. Somos uma parte integrante do todo. Assim, esta vida não é uma pulsação egoísta, individual e independente, mas uma pulsação em conjunto. Sim, a vida é a pulsação singular do indivíduo, mas ela é também a pulsação da totalidade, a pulsação conjunta do Universo. A pulsação do indivíduo é a mesma pulsação dos outros. É claro que cada um tem sua pulsação específica, porém essa pulsação tem unidade e identidade com o ritmo universal. A pulsação universal do zen foi mal interpretada, deturpada e transformada num modismo. O verdadeiro zen não é uma coisa fortuita, egoísta, individual. Ele é singularmente individual, mas, ainda assim, tem universalidade.

Um jovem do norte da China certa vez caminhou várias centenas de quilômetros até onde Bodhidharma sentava em meditação. Este rapaz muito sério e sincero, ao encontrar Bodhidharma, disse, “Meu nome é…Caminhei muitas centenas de quilômetros em busca de ensinamentos. Ensine-me, por favor, o que é o budismo”. Bodhidharma não levantou os olhos nem lhe deu resposta. O rapaz esperou o dia todo, mas em vão, não teve resposta. E ali ficou toda a noite. Na manhã seguinte, voltou a aproximar-se do mestre e mais uma vez suplicou pelos ensinamentos. Esperou todo o dia, sem resultado. No terceiro dia a mesma coisa – nenhuma resposta. O rapaz , já inquieto, perguntava a si mesmo como poderia atrair a atenção de Bodhidharma. Durante três dias, Bodhidharma sequer o olhou, nem mesmo de relance. O rapaz precisava fazer alguma coisa – agarrou o lóbulo da orelha, arrancou-o e o atirou diante do mestre, dizendo: “Mestre, fale!” E então Bodhidharma o olhou pela primeira vez e pensou que aquele jovem devia ser sério, que estava realmente pedindo ensinamentos. Olhou-o e concordou em deixá-lo ficar ao seu lado. Esse jovem, que estava disposto a pôr sua vida naquilo que queria, tornou-se mais tarde o sucessor de Bodhidharma.

Quando fazemos alguma coisa, não devemos fazê-la ao acaso; precisamos pôr toda a nossa vida nela. Esta é a atitude budista. Quando você jogar basquete, jogue basquete – não fique só correndo à toa pela quadra. Um homem, qualquer que seja sua atividade, põe toda sua vida e responsabilidade em cada uma de suas palavras. Mesmo que sua vida esteja em perigo, ele pode arriscá-la. Este tipo de atitude é o caminho budista de vida.

Lembro-me de uma mulher de Oakland, Califórnia, quando eu ali vivia. Seu filho único adorava futebol americano, mas ela se opunha firmemente porque os jogadores se machucavam com freqüência. Mas o garoto lhe suplicava que o deixasse jogar. Um dia, a mãe lhe disse, “Não quero que você jogue porque pode se machucar, mas, se apesar disso quiser jogar, então jogue; mesmo que morra na quadra, jogue; já que gosta tanto de futebol, dê sua vida por ele”. O rapaz tornou-se um dos mais destacados jogadores de futebol americano entre os nisseis do norte da Califórnia. Esta mãe era uma verdadeira budista.

As mães japonesas, quando os filhos iam para a guerra, costumavam dizer-lhes, “Vá e morra”. Em japonês, a expressão “vá e morra” significa arriscar a vida, dar tudo de si. Elas nunca diziam “vá lutar e volte; pratique um ato glorioso e volte para casa”. Quando somos chamados pelo dever, nós o cumprimos mesmo arriscando a vida. O caminho budista é dar tudo de nós àquilo que fazemos – não necessariamente na guerra, mos no trabalho do escritório ou em qualquer campo de atividade. Todo homem tem uma vida para viver, uma vida para preencher com trabalho responsável. Devemos nos dedicar a um trabalho honroso, para sermos capazes de pôr toda a nossa vida nele. Este, no budismo, é o caminho do zen. O homem e seu trabalho são uma única coisa. O homem e seu trabalho são um, assim como o rapaz e sua namorada são um. Quando duas pessoas se amam, o amor é mútuo. É um amor uno, não um amor unilateral. O verdadeiro amor é uma completa união e unicidade. Sujeito e objeto tornam-se uma única e mesma unidade. Quando a pessoa ama o seu trabalho, qualquer que ele seja, o trabalho é ela e ela é o trabalho.

Li numa biografia de Henry Ford que quando estava desenvolvendo uma máquina, ele costumava trabalhar até a meia-noite, uma, duas horas da madrugada, muitas vezes até as três, e, quatro, ia tomar café no bar da esquina. Quando sua mente estava na máquina, ele esquecia as horas, esquecia de comer, porque se envolvia por completo com o trabalho. Existe uma alegria imensa neste modo de viver. Na ciência e na religião, a pessoa que é bem-sucedida – na verdade, não gosto da palavra “bem-sucedido” – é aquela que realmente dá a vida ao seu trabalho. Tomemos o Mahatma Ghandi como exemplo: ele viveu por aquilo em que acreditava. Mesmo encarcerado, mesmo sem comer, Ghandi cumpriu seu impulso interior de viver uma vida de verdade. Ele viveu uma vida de unicidade.

Este mundo de unicidade é o nembutsu. Saber que tudo aquilo a que chamamos pares de opostos – você e eu, a sociedade e eu, o país e eu, pai e filho, marido e esposa, Deus e homem, criador e criatura, corpo e alma, espírito e matéria – são realmente um só, isso é o nembutsu. Nenhum membro de qualquer um destes pares de opostos pode existir sem o outro. “Marido” não tem sentido sem “esposa”. Sem um marido, não existe a esposa. E assim por diante. Mas, no Ocidente, debatemo-nos na tentativa de dividir nossa vida em duas. No budismo, eu sou a família, a família é eu; todos esses pares são unos. Embora estejamos vivendo na complexidade, esta complexidade não é casual, mas sim um relacionamento definido e interdependente. O budismo ensina a encontrar a unidade nos muitos e os muitos na unidade (a diversidade em cada um de nós). Este mundo de unicidade é o nirvana; é o Namu Amida-Butsu, o nembutsu.

O nembutsu é a unidade de sujeito e objeto. Namu Amida-Butsu significa que Buda e eu somos um, que toda a humanidade e eu somos um. Quando pomos toda a nossa vida em alguma coisa, tornamo-nos unos com ela. Quando um homem arrisca sua vida pela humanidade, ele e a humanidade são unos.

Cada um de nós, em nossa pequenez, é digno do maior respeito. Cada um de nós tem o propósito verdadeiramente sincero de cumprir e realizar as próprias potencialidades. Portanto, qualquer que seja a nossa atividade, devemos fazê-la com todo o nosso ser. Explicar esta idéia talvez não tenha fim. Não são as palavras, nem as concepções ou as idéias, mas aquilo que fazemos a cada dia, a cada momento, com um senso de responsabilidade e com uma atitude de realização. Nisto encontramos uma vida alegre e gratificante. Esta realização da própria vida significa a realização do mundo como um todo. Isto é o nembutsu e esta é a essência do zen.

* Dá-se o nome de “geração beat” aos grupos contestadores surgidos em meados dos anos 50 e início dos 60, os beatniks, que repudiavam os valores e comportamentos convencionais e se opunham aos padrões morais da sociedade estabelecida. Seus principais valores ram a boemia, o álcool e o jazz, e tinham uma visão deturpada do zen-budismo. Os beatniks foram uma espécie de precursores dos hippies, surgidos em meados dos anos 60, que com seu lema de “paz e amor”, propunham o completo afastamento da vida convencional, o consumo de drogas para alcançar estados alterados de consciência e a peregrinação à Índia e ao Nepal.

Por Rev. Gyomay Kubose (do livro “Budismo Essencial – A Arte de Viver o Dia-a-Dia”)

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  1. 1
    Yara Horta

    Fantástico texto! Aprendí com meu pai essas palavras Namu Amida- Butsu, depois de adulta, e precisei pesquisar para entender o significado delas. Ele também não soube me explicar, pois tinha tomado umas cervejas e não se lembrava direito. rsrs Só me fez entender que eram muito importantes. E isso me bastou. Hoje ele está lá no hospital em seu leito de morte, e amanhã quando for vê-lo direi baixinho em seu ouvido: Namu Amida-Butsu

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