Buddham Saranam Gacchâmi

Buddham Saranam Gacchâmi


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Falemos do primeiro elemento do tríplice refúgio ou da tríplice joia. Tomamos refúgio no Buddha. Em que sentido o Buddha é um refúgio? Por que a tradição buddhista entende que devemos nos aproximar do Buddha como de um refúgio? Pretendo oferecer alguns elementos para tentar esclarecer estas perguntas.

Passamos nossa vida buscando refúgio, ou nos refugiando em abrigos precários. O regaço materno e paterno logo deixa de ser suficiente, a alegria da juventude cede espaço para as responsabilidades da vida adulta. Precisamos nos afastar do stress e fazemos isso buscando as férias dos sonhos, a companhia dos amigos e família num almoço, jantar ou happy hour. Esses parecem ser nossos refúgios mais comuns. Mas eles não nos protegem da velhice, doença, morte e nem mesmo das perdas que a vida nos reserva como a morte dos pais, doenças, morte de amigos e nossa própria, eventualmente. Não me entendam mal. Amigos, amores, etc., não são ruins, o problema é que tendemos a nos identificar tanto com a nossa vida que diante da perda o sentido nos escapa junto com o chão abaixo de nossos pés.

A monja Ajahn Sundara nos diz que refugiar-se no Buddha é refugiar-se na sabedoria. Primariamente o Buddha representa para nós sabedoria. A iluminação representa o despertar para verdades fundamentais da existência.  Segundo ela o conhecimento para o qual despertamos é aquele que surge e desaparece em nossa mente e corpo e o sofrimento que criamos a partir da ignorância. Portanto a tomada de refúgio é ver aquilo que o Buddha viu em seu despertar, a saber, a impermanência.

A visão da impermanência nos ajuda a não tomar as coisas como pessoais, como se a vida estivesse sendo injusta conosco. As perdas típicas da vida ganham um aspecto menos doloroso quando temos diante de nós a perspectiva do Buddha de que as coisas surgem e desaparecem e isso não é só conosco e nem nós estamos livres disso. Podemos também diminuir drasticamente nosso papel de agentes causadores de sofrimento, afinal sabedoria elimina ignorância e esta ultima está na base de nossas más ações de corpo, fala e mente. Mesmo diante de nossos tropeços e erros, não encontraremos no Buddha olhos de censura ou reprovação. Sua compaixão é vasta como os oceanos e sempre nos acolhe.

O Buddha é um refúgio, pois ele é dotado de uma série de qualidades. Ao nos lembrarmos dele, é interessante que tenhamos tais qualidades em mente. Este lembrar do Buddha refletindo acerca de suas qualidades é uma prática meditativa conhecida como buddhanussati, a meditação acerca das virtudes do Buddha, segundo Dr. K. Sri Dhammananda no texto great virtues of the Buddha. Tomar refúgio no Buddha é tomar refúgio naquele dotado destas qualidades únicas. O verso que se recita na tradição theravada apresenta as nove qualidades do Buddha da seguinte forma:

 

Itipi so Bhagava Araham Sammasambuddho

Vijjacaranasampanno Sugato Lokavidu

Anuttaro Purisadammasarathi

Satthadevamanussam Buddho Bhagava.

 

A tradução desse verso, seguindo o Prof. Ricardo Sasaki é a seguinte:

 

Ele é, de fato, o Bem-Aventurado, o Cumpridor, o Completa e Plenamente Iluminado, dotado de sabedoria e virtuosa conduta, que seguiu pelo Bom Caminho, Conhecedor dos mundos, Treinador incomparável dos homens a serem treinados, Mestre dos devas e dos homens, Iluminado, Bem-Aventurado.

 

Há na tradição explicações e comentários acerca de cada uma dessas nove qualidades, mas como nosso objetivo é apenas fornecer algumas reflexões acerca das três joias, deixarei este aspecto para um outro momento no qual traduzirei a passagem do texto do Dr. K. Sri Dhammananda a título de esclarecimento.

 

NOTA: A palestra “taking refuge” da monja Ajahn Sundara encontra-se na coletânea “Freeing the heart” com palestras de várias monjas da comunidade de Amaravati. pode ser adquirido gratuitamente no link: http://www.budaedu.org/en/book/

 

 

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