Bonnô soku bodai: desejos mundanos são iluminação?

Bonnô soku bodai: desejos mundanos são iluminação?


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Bonnô Soku Bodai
烦 悩 即 菩 提

Os caracteres chineses, lidos em japonês como “bonnô” traduzem a palavra em sânscrito “klesha“, que significa: aflição (dor pelo contato, pela separação ou pelo egoísmo), ilusão (julgamento errado sobre a natureza de um objeto), confusão (mistura de causas e condições obscuras e causas e condições iluminadas) e agitação (incapacidade de fixar a concentração nas causas e nas condições libertadoras ou de libertar-se das consequências das causas e das condições aprisionadoras). A tradução chinesa aqui é um desses casos em que é possível definir limites muito relevantes para o significado do termo original sem alterar o espírito dos caracteres adequados.  O significado budista creditado aos dois kanji é, para o primeiro, “dolorosa ansiedade para chegar” e para o segundo, “dolorosa separação” ou “a certeza de não poder alcançar“. O hiato deixado entre a ansiedade dolorosa de chegar e a dor melancólica de partir é, em última análise, uma metáfora para “vida”. É uma questão – para nós budistas – que pode ser preenchida através do espírito de investigação e da prática do Caminho do Meio.

O falecido Tamura Yoshirô (1921-1989), um eminente sacerdote da Nichiren Shu, opositor da leitura ultranacionalista de Nichiren e ilustre acadêmico, investiu a maior parte de sua vida em estudar a doutrina que Shimaji Daito havia exposto, chamada de “iluminação original”. Tamura, em um escrito em 1983 explicou essa filosofia em duas etapas diferentes.

Primeiro concebeu a ideia da não-dualidade como a mais alta expressão do budismo Mahayana: todas as vidas individuais, vazias e sem consistência própria são percebidas e concebidas, somente se levando em conta a interdependência de todos os fenômenos. Esta posição filosófica nega qualquer diferença ontológica entre Buda e os mortais comuns, entre Terra Pura e existência mundana, entre o alter e o ego e assim por diante. Colapsam então todos os conceitos relativos às convencionais distinções do mundo fenomenal.

Em seguida explicou que a compreensão da não-dualidade nos transporta novamente ao mundo fenomenal, ratificando suas distinções relativas como expressões da realidade não dual da iluminação original.

Esta segunda razão, é geralmente expressada pelo famoso termo Mahayana “bonnô soku bodai” (paixões terrenas são por si só iluminação) ou “shoji soku nehan” (nascimento e morte é precisamente o nirvana).

O princípio em questão exige esclarecimento para que se evite a frouxidão moral advinda apenas da compreensão superficial de seu significado: esta igualdade não é no nível dos fenômenos, mas no nível da essência. Uma formulação mais clara do princípio exige ser expressa nesta versão: “na sua essência os desejos mundanos são idênticos à iluminação“. Somente quando se realiza a iluminação, percebe-se que “bonnô” e “bodai” são as mesmas coisas.

Quando se atinge a iluminação, a identificação dos desejos como iluminação se torna um fato. Somente na perspectiva do Buda as diferenças desaparecem e tudo se torna igual. Essa percepção só pode ser obtida através da prática budista.

Concluindo, “bonnô soku bodai” pode ser resumido da seguinte forma:

Para as pessoas comuns:
no nível essencial: ilusões = iluminação
no nível fenomenal: ilusões ≠ iluminação

Para um Buda:
no nível essencial: iluminação = ilusões
no nível fenomenal: ilusões = iluminação

Diferentes escolas qualificam e quantificam os “bonnô”, diferenciando uns dos outros mas, independentemente de distinção especial, na frase “bonnô soku bodai”, existem algumas características que são úteis para premissas linguísticas: o idioma chinês, assim como o japonês, usam partículas sintáticas que são destinadas a qualificar gênero e número dos objetos em discussão.

Por exemplo, usamos uma partícula “satsu 册” para livros e, nessa perspectiva, “sansatsu 三册” significa três livros. Assim se expressa os conceitos existentes de pluralidade (três) e aqueles de interesse específico (livros). É interessante notar que nenhuma partícula – para o gênero ou número – expressem a qualificação ou a quantificação da palavra “bonnô” em “bonnô soku bodai“. A frase recebe então um tom absolutista.

Tem a mesma sorte “bodai” 菩提 com o significado implícito de “incorporação” do “bonnô” 烦悩. Isso quer dizer que para satisfazer a equação “desejos mundanos = iluminação” se deve assumir todos os tipos de todos os bonnô. Colocar os bonnô à prova e viver de acordo com Caminho Óctuplo e de acordo com o Sutra do Lótus é a condição necessária para obtenção de “bodai” (iluminação), assim como, um bronzeado exige a exposição total do corpo à luz solar e um treino muscular harmonioso e global desenvolve um físico saudável, forte e equilibrado.

Uma discussão semelhante também se aplica à expressão “shôji soku nehan”, com especial atenção reservada para o fato de a tradução literal de shôji , “vida-morte” (samsara), não vem acompanhada das palavras “sofrimento de…” que muitas vezes estão presentes.

Em outras palavras o nosso compromisso de melhorar, em perseguir a nossa emancipação pessoal, não pode ser esporádico ou descontínuo ao longo do tempo ou em situações específicas. É como dizer que um policial ocasionalmente rouba alguma coisa ou extorque alguém. Como devemos julgá-lo? Policial ou ladrão? Certamente os tribunais ainda não formularam uma definição híbrida. É certamente mais plausível para nós pensar que ele iria acabar ser fichado como “totalmente criminoso” e não como “semi-policial”.

Na sociedade, também pode acontecer de tais comportamentos antiéticos serem tolerados até a descoberta da culpa, até que a tolerância se esgote ou até que a complacência dos envolvidos acabe, mas, o Dharma imediatamente (soku)  imprime a marca (causa interna, nyo-ze in 如是因) dos pensamentos (i 意), das palavras (ku 口) e das ações (shin 身) e seus frutos intrínsecos (nyo ze ka 如是果) que por sua vez se tornarão efeitos (nyo ze ho 如是報).

T’ient’ai (538-597) diz em Grande Concentração e Discernimento, “A ignorância e a poeira dos desejos são iluminação, e os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana”. Em Registros dos Ensinos Orais, Nichiren afirma:. “A ideia de ir superando gradualmente os desejos mundanos não é o sentido último do capítulo ‘A Duração da Vida Eterna’ [do Sutra do Lótus]. Você deve compreender que o sentido último deste capítulo é que os mortais comuns, assim como eles estão em seu estado natural, são Budas” e,” Hoje, quando Nichiren e seus seguidores recitam as palavras Namu Myoho Rengue Kyo, eles estão queimando a lenha desejos mundanos, alimentando o fogo da sabedoria da iluminação.”

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