Avijja – Parte II

Avijja – Parte II


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Esta semana encerraremos a análise da primeira proposição. Divirtam-se

 

Vejamos agora sahajata-paccaya ou condição mediante co-nascença. Sahajata literalmente significa: “aquilo que surgiu junto” ou “surgindo junto”, daí nosso termo co-nascença ou surgimento simultâneo. Esta condição de co-nascença se aplica, acima de tudo, à consciência e seus concomitantes fenômenos mentais, tais como, sensação, percepção, volição, impressão sensorial, atenção, etc. Tal é o caso pois a consciência e todos estes fenômenos mentais são mutuamente condicionados através do surgimento simultâneo. Um não pode surgir ou existir sem o outro, todos estão inseparavelmente associados. Assim, se dizemos que as sensações são para a consciência uma condição mediante co-nascença, queremos com isso dizer que sem o surgimento simultâneo da sensação, a consciência nunca será capaz de surgir. Isto vale para todos os demais fenômenos mentais.

Certa feita, um autor buddhista muito conhecido, em uma discussão comigo, para minha grande surpresa declarou que pode haver sensação dolorosa sem consciência, por exemplo, durante uma dolorosa operação enquanto sob efeito de anestésicos. Isto é de fato uma extraordinária asneira. Como seria possível sentir dor sem estar ao mesmo tempo consciente da mesma? A sensação dolorosa é um fenômeno mental e como tal, inseparável da consciência e dos outros fenômenos mentais. Se não percebermos a dor, e não estamos conscientes dela, como podemos senti-la? Portanto, consciência, sensações, percepções e todos os outros fenômenos mentais são mutuamente condicionados mediante a co-nascença.

Consideremos agora upanissaya-paccaya, a condição mediante o estímulo. Esta condição é de vários tipos e forma combinações com certas outras condições.[1] Aplica-se a um campo bastante amplo, na verdade a qualquer coisa que seja. Devemos tratar esta condição aqui de modo muito geral, sem fazer quaisquer distinções. Qualquer coisa passada ou futura, física ou mental, real ou imaginária, pode se tornar um estímulo para o surgimento de fenômenos mentais, ou ações, ou ocorrências.

Então, por exemplo, o Buddha e seu Dhamma (ensinamento) foram uma condição para minha ida ao Oriente. Assim também o foram os eruditos em páli que eu havia lido. Assim também a primeira palestra que ouvi na Alemanha em 1899. Nibbana, como objeto de nosso pensamento pode se tornar um estímulo para ingressar na Ordem (Sangha), ou para que vivamos uma vida pura, etc. Todos os pensadores, artistas e cientistas do passado foram, por meio de suas obras, estimuladores do desenvolvimento da cultura pelas gerações futuras. O dinheiro, enquanto objeto de nosso desejo, pode ser um estímulo para que façamos o esforço devido para ganhá-lo, ou pode também tornar-se um estímulo para roubos e furtos. Fé, conhecimento, concentração mental, etc., podem ser um estímulo direto para várias ações nobres e altruístas. Bons ou maus amigos podem ser um estímulo para boa ou má conduta. Clima, alimentação, moradia, etc., apropriados ou impróprios, podem converter-se em estímulo para saúde ou doença físicas e estas em estímulo para suas equivalentes mentais. Assim, todas estas coisas estão condicionadas pela via do estímulo.

Consideremos agora arammana-paccaya, a condição por meio do objeto.  O objeto pode ser um dos cinco objetos dos sentidos, como objetos visíveis, sons, odores, sabores ou impressões corpóreas ou qualquer objeto da mente. Qualquer coisa pode tornar-se objeto mental, seja ela física ou mental, passada, presente ou futura, real ou imaginária. Desta forma, objetos visíveis, que consistem em diferenças de cor, claro e escuro, são chamados objetos condições para a consciência do olho, ou seja, o sentido da visão. De modo similar com os demais sentidos. Sem um objeto físico não temos o surgimento de nenhuma consciência. Além disso, más ações passadas, na medida em que se tornam objetos de nosso pensamento, podem, como vimos antes, tornarem-se um estímulo ou upanissaya, para que repitamos as mesmas más ações; ou podem fazer surgir nossa aversão e arrependimento. Assim, más ações passadas, se pensarmos nelas de modo errôneo, podem se tornar estímulos para uma vida imoral pela via do objeto. Caso pensemos em nossas más ações de modo correto, elas podem ser o estímulo para que levemos uma vida moral. De modo similar, boas ações, caso pensemos corretamente nelas, podem se converter em estímulos para ações nobres futuras e, pelo pensar de modo incorreto, elas podem estimular a presunção e a vaidade, e muitos outros estados prejudiciais[2].

Desta forma, uma coisa imoral como avijja pode ser condição para formações kâmmicas nobres e saudáveis. Para mostrar isto, vamos voltar a nossa primeira proposição: Mediante avijja as formações kâmmicas são condicionadas. Como pode um estado maléfico como avijja se tornar a condição para formações kâmmicas nobres e saudáveis? Tal pode ocorrer de duas maneiras: mediante estímulo direto ou estímulo como objeto mental. Ilustrarei minha afirmação com um exemplo. No tempo do Buddha era comum que algum herético, induzido por mera vaidade ou delusão, fosse até o Buddha tentar derrota-lo se valendo de dialética. Entretanto, após breve controvérsia ele acaba se convertendo: tornava-se um virtuoso seguidor e apoiador por toda a vida do Bem-Aventurado, ou poderia até mesmo realizar o estado de arahant. Aqui, todas estas ações virtuosas, mesmo a realização do arahantado pelo novo convertido, foram condicionadas pela sua ignorância prévia que funcionou como estímulo; caso esta ideia iludida de derrotar o Buddha não tivesse surgido em sua mente, talvez ele nunca em sua vida visitasse o Bem-Aventurado. Portanto, avijja foi, para suas formações kâmmicas, uma condição pela via do estímulo direto (pakat’-upanissaya). Além disso, suponhamos que tomemos avijja como objeto de contemplação, considerando-a como má e rejeitável, como causa raiz de toda a miséria do mundo. Mediante tal procedimento, podemos produzir muitas formações kâmmiccas nobres e saudáveis. Neste caso, avijja é para tais formações condição mediante estímulo como objeto (aramman’ upanissaya).[3]

Antes de passar para a segunda proposição, quero chamar atenção para o fato de que avijja ou ignorância, embora seja a condição principal para a formação de kamma de modo algum é a única condição; o mesmo vale para a relação entre formações kâmmicas e consciência, etc. Cada um dos fenômenos condicionados ou P.S. depende de várias condições além daquelas dadas na fórmula e todos podem ser inter-relacionados e interdependentes de muitas maneiras.

Vocês devem ter notado que quase sempre falo apenas de condições, raramente uso a palavra “causa”. Esta é uma palavra frequentemente usada num sentido vago ou mesmo errado. “Causa” refere-se realmente aquela coisa que – se todas as condições necessárias estiverem presentes – por necessidade interna segue-se no tempo por outra coisa como seu “resultado”, de modo que o futuro resultado jaz latente na causa, como na semente de manga temos de modo latente a mangueira futura.

Do mesmo modo que de uma semente de manga apenas uma mangueira pode surgir, nunca uma maçã ou alguma outra árvore, de uma causa resultará em uma única coisa de um caráter semelhante, nunca em várias coisas nem em coisas de caráter diferente. Se, por exemplo, um homem se enfurece devido a uma repreensão, as pessoas dirão de modo geral que o que repreendeu foi a causa da fúria. Mas esta afirmação é muito vaga. A causa da fúria do segundo homem reside nele mesmo, em seu próprio caráter, não na pessoa que o repreendeu. As palavras de repreensão foram apenas um estímulo para a manifestação da fúria latente. A palavra causa quer dizer apenas uma das muitas condições e deve, na filosofia budista ser reservada para kamma, ou seja, as atividades volitivas produtoras de renascimento ligadas a raízes (hetu) saudáveis e prejudiciais, que constituem-se como causa do renascimento e tem o renascimento como seu efeito ou vipaka.

 

[1] As três classes de upanissaya-paccaya são: (1) pakat’ upanissaya, estímulo simples ou direto; (2) aramman’ upanissaya, estímulo mediante um objeto; (3) anantar’ upanissaya, estímulo por proximidade. Acerca deste último veja o Guide through the Abidhamma Pitaka, 2nd ET., PP. 119, 131, 139.

[2] No Guia (p. 137) são dados os seguintes exemplos de como “um fenômeno saudável pode ser para um não-saudável condição mediante objeto. ” Isto acontece quando, por exemplo, após dar esmolas, etc., deleita-se com este ato e assim faz surgir cobiça, visões maléficas, dúvida, agitação ou tristeza (para si mesma ou para outros, diz o Comentário). Ou, caso alguém deleite-se com boas ações feitas previamente e assim faz surgir a cobiça, etc. Ou se, após sair do estado de jhana, a pessoa se deleita com esta realização dando origem a presunção, etc. Caso a pessoa lamente o desaparecimento do jhana, tristeza pode surgir.

[3] Para detalhes quanto as 24 condições vejam: Nyanatiloka, Buddhist Dictionary (BPS, 1988): paccaya.

 

 

Crédito da foto: http://pensadorcetico.com/ciencia/como-identificar-pseudociencia/

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