Avijja – Parte I

Avijja – Parte I


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Começaremos hoje o estudo das proposições mencionadas no fragmento de texto da semana passada. Hoje veremos a primeira parte da frase avijja-paccaya sankhara. Por ser um pedaço grande do texto, dividirei o mesmo em duas postagens.

 

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Nossa primeira proposição foi: Avijja-paccaya sankhara: “Através da ignorância, as formações kâmmicas são condicionadas. ”

Avijja[1], também chamada moha, é delusão, obsessão: considerar coisas transitórias como se fossem permanentes, coisas miseráveis como se fossem deleitáveis, e o que não tem eu considerado como dotado de um eu. Avijja é ignorância, não compreender que nossa existência é meramente um processo mutável de fenômenos físicos; é não entender que estes fenômenos, em sentido último, não formam nenhuma entidade permanente, ou pessoa, ou ego; e que não existe nenhuma entidade permanente dentro ou por trás destes fenômenos mentais e físicos passageiros; que, portanto, o que chamamos “Eu”, ou “você”, “ele”, “pessoa”, “Buddha”, etc., não possui, em sentido ultimo (paramattha) nenhuma realidade separada destes fenômenos transitórios físicos e mentais. Avijja, ou moha, é a condição raiz primária subjacente a toda contaminação e depravação. Em avijja estão enraizadas toda cobiça, ódio, presunção, inveja e miséria do mundo.  A superação e extinção de avijja, bem como de todo mal e miséria, é o objetivo final do ensinamento do Buda, o ideal de qualquer budista verdadeiro. Por estas razões, menciona-se avijja em primeiro lugar na formula de P.S.

Por sankhara, lit. “formações”, se quer dizer as volições ou atividades volitivas que são kâmmicamente saudáveis ou prejudiciais e produtoras de renascimento. Lembremos, portanto, sankhara como formações kâmmicas ou simplesmente como kamma[2].

Agora, todas as volições más, manifestadas pelo corpo, fala ou mente, como aludidas acima, são chamadas de akusala ou formações kâmmicas prejudiciais, na medida em que trazem resultados infelizes, aqui e no pós-vida. As formações saudáveis recebem o nome de kusala e são as volições (cetana) que trazem resultados felizes e prazerosos, aqui e em vidas futuras. Mas mesmo estas formações kâmmicas saudáveis são ainda condicionadas e influenciadas por avijja, do contrário elas não produziriam renascimentos futuros. Há apenas um indivíduo que não mais executa nenhum tipo de formação kâmmica saudável ou prejudicial, nenhum kamma afirmador da vida. Tal indivíduo é o arahant, o discípulo do Buddha que é santo e completamente iluminado. Pois através do insight em direção à verdadeira natureza deste processo de existência vazio e evanescente, ele tornou-se completamente desapegado da vida; e para sempre liberto da ignorância e todas as suas maléficas consequências, livre de qualquer renascimento futuro.

Para todas as formações kâmmicas prejudiciais ou atividades volitivas, avijja é condição indispensável mediante sua presença e surgimento simultâneo. Por exemplo, onde quer que surja uma má manifestação de vontade, uma má formação kâmmica, ao mesmo tempo este surgir é condicionado pelo surgimento e presença simultâneos de avijja. Sem o co-surgimento de avijja, não há formação kâmmica maléfica. Quando, por exemplo, um homem obcecado, cheio de cobiça e raiva, comete vários atos maléficos por meio de corpo, fala e mente. Ao fazer isso, as formações kâmmicas maléficas são inteiramente condicionadas pelo co-surgimento e presença de avijja, ou ignorância. Assim, se não houver avijja não vai existir formação kâmmica má. Portanto, se diz que, avijja se associa com uma determinada formação kâmmica mediante co-nascença, ou surgimento simultâneo (sahajata). Ademais, como não há formação kâmmica má sem a presença de avijja e não há também avijja sem a presença da formação kâmmica citada, ambas são em qualquer tempo e sob todas as circunstâncias também condições mútuas uma para a outra (annam-anna-paccaya); portanto, são ambas inseparáveis. Na medida em que avijja é uma raiz sempre presente para as formações kâmmicas maléficas, dizemos que avijja é para as formações kâmmicas prejudiciais uma condição indispensável como raiz (hetu).

Há, ainda, outro modo completamente diferente mediante o qual avijja pode ser condição para a formação de kamma prejudicial, a saber, como estímulo. Por exemplo, se um homem cheio de cobiça e raiva é induzido ou estimulado, por sua obsessão e pensamentos iludidos a cometer vários crimes, tais como, assassinato, roubo, adultério, etc., neste caso, avijja é o instigador direto e força motriz para o surgimento subsequente de todas aquelas más manifestações da vontade, ou seja, aquelas formações kâmmicas prejudiciais. Em outras palavras, tais formações kâmmicas prejudiciais são condicionadas por um estado precedente de avijja como estímulo direto (pakat’upanissaya-paccaya).

Temos ainda outra forma pela qual avijja pode se tornar um estímulo para formações kâmmicas prejudiciais, a saber, como objeto de pensamento. Suponha que alguém se lembre de algum prazer tolo e mau que tenha desfrutado no passado e, enquanto pensa sobre sua tolice prévia, ele sente deleite nisso e se torna novamente obcecado e cobiçoso; ou torna-se triste e desesperado por não mais poder deleitar-se da mesma forma. Em conseqüência desse pensamento errôneo acerca deste objeto fútil, acerca deste estado fútil de ignorância, muitos estados prejudiciais surgem em sua mente. Desta maneira, avijja pode ser uma condição para o surgimento das formações kâmmicas prejudiciais como um objeto que estimula (arammman’upanissaya-paccaya).

Devo mencionar aqui que, para uma compreensão detalhada de OS (paticca-samupadda), devemos conhecer pelo menos um pouco acerca daqueles vinte e quatro diferentes modos pelos quais os fenômenos mentais ou físicos podem ser condição para outros fenômenos mentais e físicos. Todo o Patthana, o último livro do Abidhamma Pitaka, que compreende seis grossos volumes, trata exclusivamente destas vinte e quatro condições, ou paccaya, condições estas primeiro descritas e depois aplicadas a todos os multifacetados e variegados fenômenos da existência.[3] Consideraremos aqui apenas os mais proeminentes, aqueles aos quais já aludimos e aplicamos a avijja, a saber: hetu-paccaya, condição raiz; sahajate-paccaya, condição mediante co-nascença, ou seja, co-surgimento; annam-anna-paccaya, condição mediante mutualidade; upanissaya-paccaya, condição mediante estímulo direto (pakat’ upanissaya), ou estímulo através de um objeto (aramman’ upanissaya). Devemos enfatizar aqui que estas traduções de termos técnicos do páli são apenas criações inadequadas e devem ser tomadas como tais.[4] Por esta razão apresento sempre tais termos técnicos tanto em ambas as línguas, tanto inglês (português) quanto páli.

O Comentário ao Patthana compara hetu-paccaya ou condição raiz, à raiz de uma árvore. A árvore repousa em suas raízes, e só tem vida enquanto tais raízes não forem destruídas. De modo similar, todas as formações kâmmicas saudáveis e prejudiciais são a qualquer tempo condicionadas mediante a presença e co-nascença, ou de modo simultâneo, por suas respectivas raízes saudáveis ou prejudiciais. As três raízes prejudiciais são lobha, dosa, moha, a saber, ganância, ódio e delusão; as três raízes saudáveis são alobha, adosa, amoha, ou seja, não-ganância ou altruísmo; não-ódio, ou bondade; não-delusão ou conhecimento.

 

 

[1] Literalmente: não saber.

[2] Desta forma, a palavra páli kamma (sanskrit: karma) designa na filosofia budista somente a ação saudável ou prejudicial que produz ou influencia o renascimento, ou seja, volição (cetana) manifesta mediante corpo, fala ou mente. De forma alguma, entretanto, kamma significa o resultado da ação (kamma-vipaka), como os teosofistas e muitos budistas ocidentais gostariam que o termo fosse entendido.

[3] Nenhuma linha deste livro importantíssimo e muito complicado foi até o presente traduzida para nenhuma de nossas línguas modernas. Mesmo o texto em páli, somente um sexto, parte na forma de abstract, foi publicado pela PTS, Londres. Mrs. Rhys Davids em seu prefácio ao Patthana diz: “…o texto permanece muito difícil e obscuro para a mente ocidental não iniciada e estou longe de pretender resolver quaisquer de seus problemas.” Para uma sinopse completa vejam meu Guide through the Abidhamma Pitaka, VII. (Nota do editor: Dois volumes do Patthana foram desde então publicados pela PTS sob o título Conditional Reations.)

[4] Com força ainda maior tal ressalva deve ser aplicada às traduções em português de tais termos feitas aqui.

 

Crédito da foto: http://pablo.deassis.net.br/2013/07/uma-nova-rodada-para-a-cura-gay/

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