Arrebatamento – Piti

Arrebatamento – Piti


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O quarto fator da iluminação é piti, palavra pali que traduzimos como arrebatamento. Outras traduções são também encontradas, talvez a mais utilizada em português seja êxtase. Como esta última palavra adquiriu notas que a associam a uma condição similar a um tipo de embriaguez mística, entendemos ser prudente não adotar êxtase posto que piti diz respeito a alegria da mente concentrada num objeto de modo que ele a preenche completamente. Não se trata, pois, de perder-se no objeto, ou sair de si, como a etimologia da palavra êxtase (ékstasis em grego) sugere, trata-se de um refinamento da mente e da alegria disso resultante.

Esta ideia de alegria, enlevo, arrebatamento ligada a piti fica evidente quando analisamos uma passagem do bojjhangasamyutta na qual se fala do que nutre cada um dos fatores. O Buddha diz que existem coisas que servem como base para o surgimento do fator do arrebatamento e dar atenção a elas é nutrir este fator (SN, 46:51). Em nota a esta passagem, Bhikkhu Bodhi menciona 11 condições que nutrem o arrebatamento, a saber as lembranças do Buddha, Dhamma, Sangha, virtude, generosidade, os devas e a paz; depois evitar pessoas rudes, ligar-se a pessoas gentis, refletir acerca de suttas inspiradores e a resolução correta. Vemos portanto que não se trata de embriagar-se com o objeto, mas sim de uma alegria resultante da mente concentrada nesses objetos.

Em termos práticos podemos observar que do cultivo do fator do arrebatamento resulta uma postura de contentamento ou satisfação interna que serve como um escudo contra as adversidades e sofrimentos que sempre chegam para todos os seres, sejam coisas externas, sejam angústias internas. Exempli disso encontramos no verso 200 do Dhammapada. Quando o Buddha não conseguiu nenhuma doação de alimento certa feita alguém afirmou que ele estava aflito devido a fome ao que ele respondeu:

Oh! Vivemos bem felizes, nós que nada temos; seremos com a alegria alimentados, como os devas do mundo Abhassara. (Tradução de Nissim Cohen publicada pela editora Palas Athena)

Não sem razão Piyadassi Thera em seu ensaio acerca dos sete fatores traduz piti também como felicidade. Felicidade não condicionada ou dependente de condições externas, mas como uma condição mental deliberadamente cultivada. Em seu texto lemos ainda o seguinte:

O homem que falta esta qualidade não pode prosseguir no caminho da iluminação. Surgirão nele uma indiferença taciturna para com o dhamma, uma aversão pela prática da meditação e manifestações mórbidas. (…) Como a felicidade é algo da mente, não devemos buscá-la em coisas materiais e externas, embora tais coisas possam ser numa pequena medida auxiliares.

 

Agradeço as referências que o Rodrigo Daien gentilmente me forneceu, sem as quais o texto não teria assumido essa forma.

Créditos da foto: http://www.yoyowall.com/wallpaper/happy-dog.html

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