Armadilhas da nossa prática (final)

Armadilhas da nossa prática (final)


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(continuação da 6ª parte)
A nossa prática do Zen apresenta várias armadilhas que podem, eventualmente, ser também sinais de progresso. Quer dizer, estas armadilhas surgem quando a prática está se aprofundando. Representam riscos de se cair em confusão ou até de realmente acabar perdendo o Caminho.

Vamos olhar algumas destas armadilhas/sinais de progresso:

Convicção de que “já se entendeu” a prática do Zen, de que não há mais nada para se aprender ou aprofundar
Infelizmente, é um “convite” para abandonar a prática, sem seguir os próximos passos.

“Sentimento de não aguentar mais um, alguns, ou todos os colegas de Sanga”
“São todos ________ (preencher a lacuna: ‘loucos’, ‘preguiçosos’, ‘burros’, ‘puxa-sacos’, etc.).” Novamente, surge o risco de abandono da prática, ou, alternativamente, perde-se o foco da prática, olhando mais para os “defeitos” dos outros que cuidando da própria prática.

“Sentimento de não aguentar mais o professor”
“Ele é ________ (preencher a lacuna: ‘controlador’, ‘autoritário’, ‘chato’, ‘exigente demais’, ‘genioso’, ‘louco’, ‘preguiçoso’, ‘burro’, ‘puxa-saco’, etc.).” Ou: “Ele ________ (preencher a lacuna: ‘não me ouve’; ‘não gosta de mim’; ‘gosta mais de outros praticantes’; ‘não me entende’, etc.).” Isto pode acabar numa atitude de “descrença” que trava a prática – e pode até travar a energia do grupo. Não somente surge o risco de simplesmente abandonar a prática, mas também há o risco de, mesmo mantendo a prática, perder-se tempo (dias, meses ou até anos) num relacionamento complicado com o professor, devido às projeções. Focando a atenção nas críticas ao professor, foge-se de olhar para dentro para ver as próprias dificuldades.

“Pesadelos, medos, ansiedades, à medida que o conteúdo do inconsciente que estava reprimido começa a vir à tona”
Esta pode representar uma fase dolorosa, quando pode surgir uma vontade de evitar a prática…

“Crença em que o(s) colega(s) de prática pensa(m) ‘mal’ de você”
“Eles pensam que sou ______ (preencher a lacuna).”

“As várias experiências de ‘makyō’: visões (cores, luzes, seres como Buda ou Cristo), sensações diversas no corpo (formigamento, ‘energia’ circulando, calor, etc.), vozes, dormência, etc.”

Apesar de serem chamadas de “ilusões”, tais experiências geralmente têm sua realidade (a sensação de formigamento, por exemplo, é real…). Devem ser tratadas com naturalidade como qualquer outro pensamento ou sensação que surge durante o zazen: não se envolvendo ou as reprimindo, mas simplesmente as deixando passar… O neurologista James H. Austin, no seu livro clássico “Zen and the Brain” (de 872 páginas, sem tradução para o português), dedica várias páginas à discussão sobre “makyō”. Vale a leitura.

“Emergência Espiritual”
Um aparente, mas não verdadeiro “surto psicótico”, provocado pela abertura espiritual ainda não integrada e que NÃO deve ser tratado com remédios antipsicóticos. Requer, sim, o acompanhamento e orientação de pessoas qualificadas, que compreendem este fenômeno (alguns professores do Darma, psicólogos ou psiquiatras com formação em escolas como a Transpessoal ou Junguiana, etc.). O autor Stanislav Grof trata deste assunto em profundidade nos seus livros “Spiritual Emergency” e “The Stormy Search for Self” (traduções para o português esgotadas).

Para encerrar esta série de artigos, podemos resumir tudo numa regra básica: treine com um mestre qualificado e devidamente autorizado, que fez um treinamento cuidadoso antes de se colocar como Professor de Darma. Investigue as várias escolas, investigue os professores e escolha aquele com quem você sinta mais afinidade e que você acredite ser mais qualificado para lhe guiar no Caminho de Buda, que lhe ajude a escapar das armadilhas e leve-o até a Libertação do Sofrimento, conforme os ensinamentos do Buda.

Com uma boa orientação, não precisamos ter medo destas armadilhas, mas devemos respeitar o fato de que elas existem. Boa prática!

Livros recomendados: Austin, James H. – Zen and the Brain; Grof, Stanislav e Grof, Christina – Spiritual Emergency; Grof, Stanislav e Grof, Christina – The Stormy Search for Self

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

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