Armadilhas da nossa prática (6)

Armadilhas da nossa prática (6)


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(continuação da 5ª parte)
Ao observar a minha própria prática e a dos meus alunos, tenho chegado a uma percepção da nossa prática do Zen como um processo de 3 fases, com características distintas e com durações imprevisíveis. De certa forma, acredito que uma determinada fase possa até passar tão rapidamente num determinado momento que quase passa despercebida…

Vejo uma fase que chamo de Fase de Crescimento, quando sentimos que estamos aprendendo coisas novas a cada dia (por assim dizer). Sentimos que a nossa prática está se aprofundando ou que estamos solucionando questões pessoais. Temos a impressão de que está sempre surgindo um novo “insight”, compreensão ou percepção. Sentimos entusiasmo. Achamos a prática excitante.

Mas, em algum momento, aparece uma fase que podemos ver como um Platô ou Deserto, quando parece que nada está acontecendo. Aparentemente não está havendo mais crescimento. A prática perde o seu brilho. Os “insights” secaram. Podemos passar a nos sentir entediados com a prática e até a começar a acreditar que “a prática já deu tudo que tinha para dar”. O risco agora é de cair na armadilha de abandonar a prática durante esta fase, e abortar a possibilidade de aprofundar verdadeiramente a nossa prática. Chamo esta fase de Gestação.

Depois de uma Gestação, vem um Parto – também no nosso Zen. E os nossos partos tendem a ser dolorosos, talvez difíceis. Vejo esta fase como um período em que a prática parece estar indo para trás e não para frente, quando o aluno pode sentir raiva do professor (“Ele não me entende!”), dos colegas da Sanga (“São todos loucos!”), da prática em si (“Está tudo errado com esta prática!”) ou até raiva de si mesmo (“Estou perdendo o meu tempo!”). Pode sentir desânimo, depressão, paranoias, etc. Novamente, há um grande risco do aluno abandonar a prática nesta fase e acabar abortando o “nascimento” de uma nova fase de Crescimento e um novo ciclo de aprofundamento de sua prática…

O Mestre Zen norte-americano Robert Baker Aitken Rōshi dedicou um capítulo inteiro de seu livro “Taking the Path of Zen” (sem tradução para o português) para falar das Delusões e Armadilhas da nossa prática. Ele lista 3 classes gerais de delusões que quase todos encontram mais cedo ou mais tarde na sua prática. Esclarece que delusão, neste caso, significa simplesmente uma distração do caminho de iluminação e compaixão.

A primeira, de acordo com ele, é o ato de correr atrás da fantasia durante o zazen, criando histórias, mergulhando em lembranças, formando planos, etc. A segunda é vaguear e sonhar nos devaneios dos pensamentos aleatórios no zazen. E a terceira é o Makyō, ou “visão misteriosa”, quando podem ocorrer visões dramáticas, sensações de distorções corporais ou a sensação de estar ouvindo ou cheirando algo que não está realmente presente. As experiências de makyō (quando aparecem, pois não são necessárias), são sinais de progresso, mas também representam uma armadilha se ficamos fascinados por elas em lugar de tratá-las como qualquer outra distração e ir continuando a aprofundar a nossa prática.

O livro de Robert Baker Aitken Rōshi, “Taking the Path of Zen”, pode ser importado na versão impressa.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

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