Armadilhas da nossa prática (4)

Armadilhas da nossa prática (4)


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(continuação da 3ª parte)
Retornando ao livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), em que o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento, vamos refletir sobre o motivo pelo qual estes estados são considerados nyams – sinais de progresso que podem se tornar armadilhas da prática.

De tempo em tempo, chega um visitante para conversar comigo, contando uma história de uma experiência mística que teve, uma experiência de “bem-aventurança”, ou de “silêncio” ou de “união com todo o Universo”. Geralmente, conta a sua história com uma atitude de orgulho, aparentemente se achando “especial” por ter tido esta experiência.

Mas, quando eu pergunto sobre a vida prática desta pessoa, fico sabendo que não vai bem. Talvez esteja desempregado (“Fui mandado embora do último emprego – o chefe era muito ruim…”), sozinho (“A minha namorada brigou comigo e rompemos…”), abandonou os estudos (“O curso era muito chato…”), etc. Talvez até tudo isto junto: problemas no trabalho, nos relacionamentos, na vida pessoal!

Quando pergunto qual impacto aquela experiência teve sobre a sua vida, não sabe me dar uma resposta coerente.

Quer dizer, na realidade, aquela experiência mística não serviu para nada em termos de autotransformação. Simplesmente foi uma experiência – um “barato” e mais nada. A pessoa caiu na armadilha de se achar “especial”. E, decepcionado comigo ao ver que eu não fiquei impressionada com a experiência que relata, nunca mais volta – não entra na prática…

Pior ainda é aquele praticante que, ao ter um vislumbre, uma pequena experiência de um destes três estados, passa a acreditar que “se iluminou”. Cheguei a conhecer um praticante leigo que não aceitava ensinamentos porque “encontrou o seu mestre interior aos 16 anos de idade”. Era uma pessoa que eu considerava bastante difícil – até neurótico -, impossível de ensinar, pois parecia que ele achava que já havia alcançado a Iluminação. Parecia que achava que, apesar de ser um praticante leigo com poucos anos de experiência e de nunca ter feito um treinamento monástico, já entendia o Zen melhor que eu e que não precisava ser ensinado. Tive a impressão que achava até que podia me ensinar em lugar de eu lhe ensinar.

Por isso, até mesmo os estados de Bem-aventurança, Clareza Mental e Sem-pensamento podem representar armadilhas e afastar muitas pessoas do verdadeiro caminho.

Recomendo o livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (em inglês), que pode ser importado, versão impressa ou digital.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

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