Armadilhas da nossa prática (3)

Armadilhas da nossa prática (3)


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(continuação da 2ª parte)

Foi muito importante ouvir a Monja Coen sempre repetindo “Vá além, sempre vá além”, quando estava iniciando a minha prática com ela no Templo Busshin-ji anos atrás. Lembro-me do zazen nos retiros, dos momentos de êxtase e bem-aventurança e nunca esqueço o dia em que o “vá além” me fez tomar consciência do fato de que não podia continuar lá, parada num estado de bem-aventurança, mas que, para alcançar a equanimidade, não somente precisava abrir mão dos sentimentos “negativos”, mas também tinha que evitar o apego aos estados “positivos”. Tinha que experimentar abrir mão também da alegria durante o zazen – e aí que pude começar a descobrir o gostinho da Paz e Tranquilidade…

O Budismo Tibetano fala claramente sobre “Sinais de Progresso/Armadilhas” (Nyams) da prática de meditação e considera a Bem-aventurança um dos três principais Nyams.

No artigo “The Danger of Samadhi” (“O Perigo do Samadhi”), extraído do livro “The Power and the Pain: Transforming Spiritual Hardship into Joy” (literalmente “O Poder e a Dor: Transformando Dificuldade Espiritual em Alegria”, ainda sem versão em português), o autor Andrew Holecek explica que os Três Nyams principais são: 1. Bem-aventurança, 2. Clareza Mental e 3. Sem-pensamento. Ele fala:

    “Estas experiências podem surgir sozinhas ou em combinação. Sem-pensamento, por exemplo, é estado de bem-aventurança que dá origem à clareza. Estas três experiências são como um “docinho para a mente” e um gostinho bom é OK, mas um excesso destes doces deixará a sua meditação doente.
      “Se estas experiências temporárias, chamadas

nyam

    em tibetano, não foram compreendidas, elas envenenam até mesmo o praticante mais avançado. São armadilhas sofisticadas que podem surgir a qualquer momento, mas tendem a ocorrer nos níveis mais altos. São comuns e muito perigosas.
      “[…] Não há nada essencialmente problemático com estas experiências, o problema é de um relacionamento inapropriado com elas. Devido ao fato de elas serem tão gostosas, nós ficamos viciados. Como as endorfinas que são liberadas no “barato do corredor”, estes

nyams

    são o “barato do meditador” e como qualquer maratonista, meditadores-maratonistas também desejam mais deste barato. Mas, como temos visto, a meta [da prática] não é de nos sentirmos bem, mas de nos tornarmos reais. Estas experiências podem indicar que estamos fazendo a coisa certa, porque são vislumbres da natureza da mente iluminada e podem apontar o caminho. Mas, vamos perder o caminho se tentamos repeti-las. São subprodutos da meditação. O problema é que pensamos que são o produto final da meditação.”

Recomendo este livro, que pode ser importado, versão impressa ou digital.

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

Organização: Rodrigo Daien

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