Armadilhas da nossa prática (2)

Armadilhas da nossa prática (2)


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(continuação da 1ª parte)
A primeira armadilha que vou tratar não é um “sinal de progresso” – mas é talvez uma das piores armadilhas da nossa prática.

Chama-se “atalho espiritual”, ou “spiritual bypassing” em inglês, e é encontrada em vários caminhos espirituais. A palavra “bypass” significa literalmente “passar pelo lado”, e a melhor tradução que consegui neste contexto para o português foi “atalho espiritual”. Mas é uma tradução que pode levar a uma compreensão errônea do conceito.

As décadas de 1950 e 1960 foram um período de grande expansão da malha rodoviária norte-americana com a construção das grandes “interstate highways” (rodovias interestaduais). Isto facilitou bastante a locomoção de uma parte do país ao outro e unificou o país de ponta a ponta, mas também trouxe um efeito colateral que talvez não tivesse sido previsto, e que dificilmente vemos sendo comentado: o declínio e até a “morte” de um grande número de cidadezinhas e vilarejos. Devido aos “atalhos” que agora passavam pelo lado destas cidadezinhas, criados pelo novo sistema rodoviário, veículos que antes passavam por dentro daquelas pequenas cidades – e sempre com alguns dos motoristas parando para comer num dos restaurantes, para abastecer num dos postos de gasolina, ou para fazer compras numa das lojas – agora passavam direto – passavam “pelo lado”, correndo para destinos variados, para desespero dos comerciantes locais. Algumas destas cidadezinhas se tornaram cidades fantasma mesmo e todas elas sofreram consequências econômicas graves.

Quando ouço a palavra “bypass” é esta a imagem que me vem à cabeça: vilarejos sofrendo ou morrendo como preço pelo “atalho rodoviário”.

Devido à cirurgia de ponte aorto-coronária ou ponte de safena, que é chamada de “coronary bypass” em inglês, temos a tendência de pensar em “bypass” como algo sempre benéfico, pois, em lugar de “lojinhas indo à falência”, temos pessoas recuperando a saúde, com uma ponte que “passa pelo lado” de uma parte danificada do sistema circulatório.

Mas este não é o caso de “spiritual bypass”, ou “atalho espiritual”, em que questões internas do praticante de um caminho espiritual são deixadas de lado, baseando-se numa compreensão errônea da prática.

Alguns exemplos disto são:
1. uma pessoa que não sabe expressar raiva, que é vista como um modelo de paciência e bondade, mas que no fundo é apenas uma pessoa reprimida e que deve sofrer por conta disso;
2. uma pessoa que vive o padrão de “codependência”, anulando-se a si mesma no esforço de ser aceita e amada, mas que acaba sendo percebida como “santa” pelos incautos num grupo de prática espiritual.

A prática correta demanda que cuidemos das nossas questões internas, exige a superação de nossos condicionamentos e traumas – pede o esclarecimento de nossa “sombra”. Não podemos desprezar as nossas emoções. Pelo contrário, a prática correta deve nos levar a uma integração corpo-mente-emoções cada vez melhor. (Continua)

Assistam a uma palestra da autora sobre o tema

Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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Organização: Rodrigo Daien

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