Apresentando o budismo por meio dos ensinamentos

Apresentando o budismo por meio dos ensinamentos


Pinterest

Apresentando o budismo como um remédio para duka - Blog Sobre Budismo

O texto a seguir foi extraído do site CEBB e foi escrito pelo Lama Padma Samten.

A fala do Buda, seus ensinamentos e explicações sobre o remédio para duka seriam uma terceira forma de apresentação do budismo. É uma apresentação através das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho Óctuplo. Se vocês observarem apenas o que está nas Quatro Verdades e no Nobre Caminho, terão dificuldade de reconhecer o budismo, pois estes ensinamentos estão presentes em outras tradições também.

As Quatro Nobres Verdades são: a experiência de existência cíclica; o reconhecimento de que a experiência cíclica é criada artificialmente; a afirmação da possibilidade de dissolução da experiência da existência cíclica; o Caminho de Oito Passos ou Caminho do Meio, que leva à dissolução da fixação à experiência de existência cíclica.

Podemos apresentar o budismo através destas quatro verdades, e o caminho para descobrir a liberdade é o Caminho do Meio, o Nobre Caminho Óctuplo.

O primeiro passo é a decisão de abandonar a existência cíclica e a impermanência. É muito difícil chegar a este ponto. A maior parte do tempo estamos preocupados em ganhar jogos. Isso significaria dizer a um gremista que, se ele abandonasse o campeonato, não sofreria mais. Mas a pessoa diz: “Se eu abandonar o campeonato, não sou mais uma pessoa. Mas e aí? Eu vou desaparecer!” A primeira etapa das oito é muito difícil, é como saltar de um abismo. Parece haver um grande sofrimento nela. Mas, se temos a coragem de ultrapassar este obstáculo aparente, nossa vida muda por completo. Curiosamente, isto é o oposto do que pensamos convencionalmente. Apenas se liberarmos nossa conexão com a roda da vida é que estaremos livres de fato. Presos à roda, podemos querer reconhecimento, dinheiro, uma dúzia de CDs — buscamos essas coisas. É como falar com alguém que está num campeonato de futebol. A pessoa quer ser campeã da Libertadores, campeã do mundo, ou, como naquele decalque muito engraçado que vi outro dia: “Grêmio, Campeão do Planeta”. Se tiramos isso da pessoa, parece que a vida perde completamente o sentido. O amadurecimento desta etapa tem uma certa conexão com outras tradições religiosas.

Se a pessoa realiza o segundo passo, vê-se liberada de todos os impulsos negativos da mente. Quando atinge a liberdade correspondente ao terceiro passo, está livre de todos os defeitos da fala e das emoções E, quando atinge a realização, a maturidade do quarto passo, está livre de todas as manipulações de corpo e identidades, está livre de causar mal para si ou para os outros através do corpo, fala (ou emoção) e mente.

No quinto passo ela se vê contemplada com o que poderíamos chamar de sorte. É como se o universo inteiro começasse a conspirar pela pessoa. Nesse momento, tudo funciona não apenas para a pessoa, mas para os outros ao redor dela. Este é o resultado da maturidade da quinta etapa.

A maturidade do sexto passo dá à pessoa uma grande estabilidade. Uma estabilidade de saúde, de vigor físico, de energia. Esta energia estável significa também destemor. Qualquer traço de medo desaparece — isto caracteriza a vitória na sexta etapa.

Quando a pessoa atinge a maturidade relacionada ao sétimo passo, consegue conceber a natureza divina de todas as coisas. Vê com nitidez o que se chama de dupla verdade, o aspecto luminoso, sagrado. Percebe o aspecto ilimitado dos grãos de poeira, das estrelas, da própria mente, da aparência física dos seres, dos carrapatos, de tudo. Também percebe o aspecto ilimitado presente nos seres abstratos, os seres que não precisam de corpos. Dito assim parece muito místico, mas a culpa é das palavras, elas são assim mesmo. Neste terceiro contexto de introdução ao budismo que estou explicando, coloco as palavras desta forma. Mesmo que elas sejam verdadeiras, não produzem as experiências, produzem apenas curiosidade e predisposição pelas experiências verdadeiras.

O oitavo passo significa a liberação completa de todos os sentidos convencionais. Alcança-se a percepção estável do aspecto ilimitado e da inseparatividade de todas as coisas, sem o aspecto convencional. No sétimo passo ainda existe uma dupla verdade, pois há um aspecto convencional em contraponto a um aspecto absoluto. Esses dois últimos passos são a iluminação, a sétima é um tipo de iluminação impossível de superar, e a oitava também. Na oitava apenas não há percepção dual.

E, por curioso que possa parecer, há um passo adicional além do Nobre Caminho Óctuplo. Buda atingiu as oito etapas sentado sob a árvore bodhi, a figueira sagrada, mas depois levantou-se para ir ao encontro dos seres e ajudá-los. É o ponto da manifestação completa da compaixão pelos seres. Ele se levanta para benefício de todos. Não é uma etapa de liberação propriamente dita — a liberação foi concluída no oitavo passo —, é o momento da ação iluminada.

Existe uma divisão comum de três modos de praticar o budismo. Começamos ouvindo ensinamentos, depois meditamos sobre eles e a seguir agimos de acordo. É por isso que precisamos de centros, como temos aqui [o Centro de Estudos Budistas Bodisatva, na estrada do Caminho do Meio, cidade de Viamão, Rio Grande do Sul]. É por isso que estamos construindo um templo. Para fazer girar as várias etapas da roda do Darma. Precisamos de uma sala onde possamos ouvir, outra onde meditar e ainda o ambiente onde agir. Nosso objetivo é ajudar os seres das mais diferentes formas. É a manifestação de uma dimensão humana transcendente. Quando ajudamos alguém há um aspecto extraordinário, cósmico. Quando ajudamos alguém já estamos atuando segundo a compreensão de uma outra pessoa, já nos colocamos em marcha transcendente em relação a nossos próprios impulsos, nossa identidade.

No Centro Budista Caminho do Meio temos esse objetivo. Por isso estamos montando uma escola, planejamos uma clínica etc. É para, na medida do possível, ajudar as pessoas a viverem uma vida mais sensata, mais cordial. Também tentamos estruturar atividades que resultem em formas de sustento. O centro deve ser um lugar de força para beneficiar os seres.

Agora, se quisermos explicar de uma outra forma, ainda dentro dessa perspectiva descritiva, o budismo inteiro pode ser resumido em três palavras. A primeira é Buda, que já expliquei. A segunda é Darma, que mencionei há pouco; é o ensinamento que surge na mente do Buda para beneficiar os seres — como ele tem liberdade perante o que para nós é dificuldade, ele examina o duka dos outros seres e resolve os problemas, manifestando soluções. A terceira é Sanga, e está relacionada ao Buda.

A Sanga surgiu porque o Buda surgiu, 26 séculos atrás. Se não fosse assim, não estaríamos aqui estudando esses ensinamentos. É como se fosse uma fogueira, a chama em si não pertence a um ou dois dos paus queimando. É um calor que surge a partir do conjunto: se separamos um dos paus da fogueira, o fogo termina neste pau. Temos dificuldade de seguir o caminho da liberação sozinhos, mas quando estamos juntos é mais fácil. Chamamos isso de Sanga. Ela é capaz de queimar nossos problemas. Também é comparada a um recipiente e um pilão. Um centro de Darma, um grupo de praticantes, é como se fosse o recipiente, e o sucessivo bater do pilão é a vida cotidiana. Somos os grãos de arroz com casca. A vida vai batendo, e as cascas vão caindo. Este é o efeito da Sanga. O exemplo é do Zen, claro — exemplo Zen é sempre com arroz…

Categories

+ There are no comments

Add yours