A vida moral

A vida moral


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Um dos componentes da prática budista chama-se sila, algo que se costuma traduzir como moralidade. Para o praticante leigo se configura nos cinco preceitos. Vejamos uma reflexão muito importante do estudioso David Kalupahana (A history of buddhist philosophy, chapter X) acerca da vida moral do ponto de vista do buddhismo: O Buddha parece ter percebido que se a vida moral quer dizer conformar-se a uma lei moral absoluta, isto pode destruir a boa vida, pode prejudicar a vida humana. A história da humanidade está repleta te tais exemplos. Portanto, ele defendeu uma posição na qual a vida humana poderia sobrepujar a vida moral. Esta é a implicação de sua famosa afirmação segundo a qual “o que é bom deve ser abandonado, assim como o mal” (dhamma pi pahatabba pageva adhamma). Em outras palavras, a vida humana não é feita para a moral; a moral é feita para a vida humana. Um ideal, se formulado por seres humanos, baseia-se num entendimento de formas particulares do bem. Assim, este ideal pode ser modificado quando entrar em conflito com casos mais concretos do bem, à medida que a experiência humana continua a se ampliar. O Buddha usou o símile da balsa para ilustrar o valor pragmático do ideal moral. William James expressou sentimento similar quando defendeu o abandono de parte do ideal frente a conflitos com o efetivo. A renúncia do Buddha à concepção de uma lei moral absoluta e seu reconhecimento da validade de concepções morais concretas ou contextuais pode dar a impressão de que ele justificaria assim uma tipo de relativismo moral. O relativismo é frequentemente mal visto em ética, principalmente porque se for verdadeiro, todo e qualquer ato ou princípio adotado por uma pessoa ou grupo de pessoas, dos bárbaros aos civilizados, deve ser reconhecido como válido. O utilitarismo, em suas duas formas mais populares, tente determinar a retidão de um ato ou regra. Num nível superficial de compreensão, somos tentados a comparar tal relativismo ou utilitarismo com o buddhismo. Entretanto, uma advertência do Buddha pode evitar tal comparação. O Buddha não estava pronto para decidir a retidão ou equívoco de uma ação ou regra por elas mesmas. Existem atos ou regras que podem parecer corretas em contextos ou situações específicas. Para o Buddha, a retidão ou erro de uma ação ou regra não consiste apenas em sua validade contextual ou situacional, mas também naquilo que elas fazem com a pessoa ou grupo naqueles particulares contexto e situação. Deste modo, a simples execução de uma ação ou a adoção de uma regra porque se percebe com certo não constitui moralidade. É o impacto da ação ou regra no conjunto da personalidade ou do grupo envolvido que fornece o caráter moral – dai a frase do Buddha “seja moral ou virtuoso sem ser feito de moral ou virtudes”. A primeira é genuína, a segunda artificial.

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