A Vida de Milarepa – O Poeta do Tibet

A Vida de Milarepa – O Poeta do Tibet


Pinterest

Imagem de Milarepa

Milarepa (tib. Mi la ras pa, 1040-1123), o principal discípulo de Marpa (1012-1097), é renomado por toda a área cultural tibetana como uma das maiores figuras do budismo Vajrayana.

Milarepa nasceu em uma rica família de camponeses. Quando ele ainda era criança, seu pai morreu e as propriedades de sua família foram roubadas por seu tio. Milarepa, sua mãe e sua irmã ficaram sem nada.

Para se vingar, Milarepa começou a aprender magia negra. Depois de aprender muitos feitiços destrutivos, ele conjurou um temporal de granizo sobre a casa de seu tio, resultando na morte de dezenas de pessoas. Refletindo sobre as suas ações, Milarepa compreendeu que seus atos criaram um grande débito de karma negativo e então ele procurou um mestre que pudesse ajudá-lo a evitar as conseqüências de seu ato de vingança. O mestre Yungtön aconselhou-o a procurar Rongtön Lhaga, professor dos ensinamentos da Grande Perfeição (tib. Dzogchen / rDzogs chen) da escola Nyingma.

Milarepa não conseguiu progredir e Rongtön lhe disse, “Você deve ir ao eremitério Trowolung em Lhodrak, no sul, onde há um discípulo direto do mahasiddha indiano Naropa. Ele é o mais excelente dos mestres, o rei dos tradutores, conhecido como Marpa. Ele é um siddha da nova tradição e não tem rivais pelos três mundos. Já que, durante suas vidas passadas, você criou uma ligação kármica com Marpa, vá até ele!”

Só ouvir o nome de Marpa foi suficiente para despertar em Milarepa um fé extraordinária, das profundezas de seu ser. Ele pensou, “Devo encontrar este mestre e me tornar seu discípulo, mesmo ao custo de minha vida.”

Imagem colorida de Milarepa

Naquele momento, Marpa e sua esposa, Damema, tiveram sonhos auspiciosos e sabiam da vinda de Milarepa. Marpa desceu o vale para esperar a chegada de seu futuro discípulo.

Milarepa primeiro encontrou o filho de Marpa, Darma Dode, que estava cuidando do rebanho. Continuando um pouco mais, ele viu Marpa, que estava arando o campo. Ele não sabia que aquele homem era o mestre, mas no momento em que o viu, Milarepa sentiu uma imensa alegria e felicidade; por um instante, todos os seus pensamentos comuns pararam. Milarepa esperava que Marpa fosse um grande santo e erudito, vestido como um yogi, usando muitos rosários, recitando mantras e meditando. Entretanto, encontrou-o trabalhando na fazendo, dirigindo os trabalhaodores e arando sua terra.

Mais tarde, quando Darma Dode levou-o à presença de Marpa, Milarepa se prostrou aos pés dele e implorou para que lhe ensinasse o Dharma. Marpa respondeu que a iluminação de Milarepa dependeria unicamente de sua própria perseverança e determinou uma série de tarefas difíceis e desencorajadoras a seu novo discípulo, que foram designadas para purificar o seu karma negativo.

Marpa fez Milarepa construir uma série de torres, uma após a outra, e após a completa edificação de cada uma delas, ela ordenava a Milarepa que a derrubasse e colocasse todas as pedras de volta no lugar onde vieram, para não estragar a paisagem. Cada vez que Marpa mandava Milarepa desmanchar uma torre, apresentava alguma desculpa absurda, como alegar que estava bêbado quando ordenara a construção ou afirmar que absolutamente nunca as encomendara. E Milarepa, cada vez mais ansioso pelos ensinamentos, colocava a casa abaixo e recomeçava.

Por fim, Marpa planejou uma torre de nove andares. Milarepa passou por um tremendo sofrimento para carregar as pedras e construir a casa, e quando terminou, dirigiu-se a Marpa, e mais uma vez rogou-lhe que o ensinasse. Porém, Marpa respondeu-lhe, “Você quer que eu lhe ensine, assim, sem mais nem menos, só porque construiu esta torre para mim? Pois receio que ainda tenha que me dar um presente como taxa de iniciação.”

A essa altura, Milarepa não possuía coisa alguma, pois gastou todo o seu tempo e trabalho construindo torres. Mas Damema, esposa de Marpa, teve pena dele e lhe disse: “Estas torres que você construiu são um gesto maravilhoso de devoção e fé. Meu marido certamente não se incomodará se eu lhe der alguns sacos de cevada e um rolo de tecido para a sua taxa de iniciação.” Então, Milarepa levou a cevada e o tecido para o círculo de iniciação em que Marpa estava ensinando e os ofereceu como gratificação, junto com os presentes dos outros estudantes. Marpa, porém, ao reconhecer o presente, enfureceu-se e gritou para Milarepa, “Essas coisas são minhas, seu hipócrita! Você está tentando me enganar!” E o chutou literalmente, a pontapés, do círculo de iniciação.

Imagem de Milarepa e os Budas

Nesse ponto, Milarepa perdeu toda e qualquer esperança de conseguir que Marpa lhe ensinasse. Desesperado, decidiu suicidar-se e já estava prestes a acabar com sua vida quando Marpa o procurou e declarou que ele, finalmente, estava pronto para receber os ensinamentos e iniciações.

Milarepa entrou em retiro, e após meditar em uma caverna por vários anos, tornou-se iluminado e alcançou todas as realizações comuns e sublimes do Mahamudra, o Grande Selo. Ele começou a escrever poemas sobre o Dharma e ensinar discípulos famosos, incluindo Rechungpa Dorje Dragpa (tib. Ras chung pa rDo rje Grags pa, 1088-1158) e Gampopa (tib. sGam po pa, 1079-1153). Vários sinais auspiciosos surgiram ao final de sua vida, quando Milarepa obteve a liberação completa. Após seu corpo ser cremado, dakinis apareceram e levaram suas relíquias para o céu.

Referências:
Adaptado de Introduction to Tibetan Buddhism,
de John Powers, Snow Lion Publications, Ithaca – New York, 1995,


de Além do Materialismo Espiritual,
de Chögyam Trungpa Rinpoche, Editora Pensamento, São Paulo – 1996,


e de Words of My Perfect Teacher,
de Patrül Rinpoche, Shambhala Publications, Boston – Massachusetts, 1998

Categories

+ There are no comments

Add yours