A relação mestre-discípulo

A relação mestre-discípulo


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Três características definem o discípulo: silente, obediente e não resistente.

Uma relação mestre-discípulo é, no Zen, uma relação em que escolhemos alguém para ser nosso mestre na vida e essa escolha deve demorar, não deve ser apressada.

Normalmente os alunos visitam vários lugares, ouvem diferentes pessoas até encontrar um local onde se sentem conectados, se sentem bem, sentem que aquele lugar fala ao seu coração, que aquele professor especificamente está falando ao seu coração. Depois de um tempo bastante variável, pode ser que se estabeleça uma relação mestre-discípulo e nessa relação não existe uma atitude crítica e, sim, uma aceitação ampla daquilo que está sendo ensinado, com um mínimo de resistência.

Três características definem o discípulo: silente, obediente e não resistente. Silente, significa que ele ouve e fecha sua boca, é silencioso, mesmo que não concorde com algo, fecha sua boca na esperança de que mais tarde entenda aquele ensinamento. Agora não entende, mas, não protesta, fica silente. Obediente significa que quando o mestre diz “Faça isso!”, o discípulo vai e faz, não importa se a ordem é coerente ou não. Às vezes, os mestres pedem coisas que parecem sem sentido, por exemplo: “Limpe essa sala”, e o discípulo olha e a sala está imaculadamente limpa, mas ele vai lá limpar. Significa que ele não protesta, nem pensa se tem sentido ou não fazer aquela prática que o mestre está lhe pedindo. O discípulo não contesta, ele simplesmente assume a tarefa.

Existem histórias de mestres do passado mandando o discípulo construir uma torre e depois de pronta, desmontá-la, e depois construir novamente. Numa célebre história isso acontece oito vezes. É preciso ter plena consciência do que é obediência não resistente para pegar um regador e ir regar o jardim sob a chuva, por exemplo. Evidentemente, todos podem se dar conta de que tem que haver absoluta confiança na relação mestre-discípulo para se fazer esse tipo de prática, porque ela, dentro de si mesma, tem riscos.

Normalmente, no Zen as instruções são de práticas gerais, ou seja, todos os dias levantamos num horário determinado, como acontece num sesshin, vinte minutos depois estamos sentados para fazer zazen. São instruções de prática ritual: “Faça assim!” – não há um espaço para questionamentos do tipo “Por que quando o professor passa atrás de mim eu tenho que fazer gasshō?”. Você tem que descobrir sozinho. Na relação mestre-discípulo, a obediência ocupa um lugar central porque exige o abandono do pensamento centrado em si mesmo, em seu ego.

“Não resistente” aparece frequentemente nos mosteiros porque a palavra mais frequente utilizada pelos monges em treinamento é “hai”, que significa “sim”. É a palavra que mais se ouve, porque a todo o momento em que um veterano ou um mestre diz algo, você responde: “Hai!”. E você diz sim para mil coisas, sempre sem protestar, sem apresentar uma nova consideração ou uma opinião. Uma ordem é dada: “Faça isso!”, e não existe espaço para “Mas, por que eu de novo, por que não fulano?”. Isso é frequente em muitas situações da vida, mas no mosteiro você aprende a dizer somente “Hai!” e simplesmente realizar sua tarefa sem pensar. Por exemplo, digamos que amanhã é esperada, segundo a previsão, muita neve, e é preciso que alguém acorde às três horas da manhã para tirar a neve do caminho para que se possa chegar à sala de meditação. Então, os monges fulano, beltrano e cicrano foram os escolhidos. Qualquer um poderia ter vontade de se dizer resfriado, ou que é velho, ou que já fez esta tarefa ontem, ou ainda que é fraco, enfim, mil desculpas poderiam ser dadas, mas, nada disso pode ser feito. Os escolhidos simplesmente se levantam às três horas e vão tirar a neve do caminho. Outro dia outros farão a tarefa e pode ser que neve de novo justamente quando for novamente a sua vez! O sentido disso é aceitação, nós temos que aceitar a vida como ela se apresenta, sem tentar mudar as coisas que não podemos mudar, devemos simplesmente aceitar.

Quando o mestre está presente nós nos comportamos com infinito respeito. Lembro-me de uma pergunta feita à Moriyama Rōshi, sobre sua relação com seu professor, de mais de vinte anos: “Como foi isso?”. Ele respondeu: “Durante vinte anos eu peguei seus chinelos!”. Quando o mestre sai da sala, o aluno principal, o “Jisha”, pega seus chinelos e os coloca na frente da porta, para que quando ele sair seja mais fácil de calçá-los. Não há gentileza que você não faça e isso faz parte da prática espiritual. Você ouve todas as coisas com completa aceitação e também você tem a postura respeitosa. Na presença do mestre sempre se deve estar em “shashu”, 1 jamais estar sentado se ele estiver de pé e não se deve ensinar nada para alguém na presença do mestre, você só ensinará algo se ele pedir.

É você que faz o mestre, não é ele que se faz, ele só é mestre porque tem discípulo. Não é uma via de mão única, é uma via de mão dupla. Você só consegue ter um mestre se você o vir como mestre. Se você não o vir como mestre ele será uma pessoa comum.

Hai!

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.


1) Shashu, postura que se adota quando parado ou em kinhin (“meditação” andando). Fica-se de pé, a coluna vertebral bem reta como no zazen, o quadril encaixado, o queixo para trás e os pés paralelos, separados entre si à distância de um punho fechado. As mãos ficam na altura do plexo solar, o polegar esquerdo fica dentro do punho fechado e a mão direta envolve o punho esquerdo. Os antebraços ficam em linha e paralelos ao chão, os ombros bem relaxados, voltados um pouco para trás. Voltar

Imagem. Cena do belíssimo filme “Zen”, sobre a vida do mestre Dōgen, fundador da Escola Sōtō Zen japonesa.

Organização: Rodrigo Daien

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