A prisão das superstições

A prisão das superstições


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Uma das características marcantes dos ensinamentos do Buddha, tal como preservados pela tradição Theravada, é sua implacável oposição a todo tipo de crença infundada, mesmo aquelas que nos chegam de fontes religiosas. Uma porção significativa das conversas do Buddha com religiosos brahmāṇicos e andarilhos espirituais de sua época girou em torno do esclarecimento de questões com esse tema. Ontem, como hoje, as pessoas se refugiam nas crenças, nos ritos e nos feitos mágicos, pois sentem necessidade de um ‘poder maior’ que as protejam. E apesar de combatidos pelo Buddha, mesmo o Buddhismo não escapou de se tornar no decorrer dos séculos um lugar cheio de superstições, de palavras e ritos mágicos, de superstições. No trecho abaixo, um dos grandes mestres da tradição Theravada, Ajahn Buddhadasa, descreve com sua forma característica, o papel das superstições em nosso aprisionamento:

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SUPERSTIÇÃO É PRISÃO

“Queremos mencionar os seres enganados pela coisa conhecida como “saiyasatr” [Saiya significa “dormir”. Satr (do sânscrito Sastra, conhecimento, arma) significa “ciência” e é usado como o sufixo “logia”. Juntos eles significam “sonologia” ou a “ciência do sono”.]. Todas as formalidades supersticiosas e crenças são saiyasatr. Quanto mais ignorância existir, quanto mais faltar a alguém o conhecimento correto, mais será este alguém apanhado na armadilha das prisões das superstições. Atualmente, a melhoria da educação e da ciência (vidayasatr) [De vidaya, “conhecimento, ciência” e Sastra.], levou a um melhor entendimento das verdades naturais, e de todas as coisas. Ainda assim, permaneceram muitas armadilhas nas prisões da superstição. Isto é uma coisa pessoal. Algumas pessoas são apanhadas mais vezes e outras menos. As pessoas são apanhadas em graus e modos diferentes, mas podemos dizer que ainda existem pessoas apanhadas na prisão de saiyasatr, enganadas pela superstição.

Embora a superstição em geral tenha diminuído grandemente devido ao progresso da ciência, existe ainda uma boa quantidade de saiyasatr nos templos e igrejas. Por favor, perdoem-nos por dizer isso, mas o local onde podemos encontrar mais superstição é nas igrejas, nos templos, e nesse tipo de lugares. Embora a superstição tenha diminuído em geral, muito permanece nesses lugares. Onde quer que existam altares, onde quer que as pessoas se curvem e adorem as assim chamadas coisas sagradas, ali é o lugar onde persiste a “ciência do dorminhoco”. Superstição, saiyasatr, é para pessoas que estão dormindo. É para aqueles que não entendem corretamente, que são ignorantes. Temos aprendido estas coisas desde crianças, antes de termos a inteligência e a capacidade de pensar sobre elas. Crianças acreditam em tudo que é dito, e assim os “adultos” lhes ensinam muitas coisas supersticiosas. Se vocês ainda acham que treze é um número azarado, isto é saiyasatr. Ainda estão dormindo. Existem muitos outros exemplos de superstição, mas achamos melhor não nomeá-los. Algumas pessoas podem se sentir ofendidas. Estes tipos de coisas são prisões. Porque não olhamos com cuidado suficiente para vê-las como tal, mesmo o número “13” se torna uma prisão”.

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Os praticantes da tradição Theravada têm um verso que recitam regularmente. Ele começa assim:

Muitos são os refúgios, montanhas e florestas,
Mosteiros e altares sagrados, para os quais os
Homens fogem na hora do medo.
Esses não são refúgios seguros, não são o refúgio supremo.
Não é dependendo deles que é possível se ver livre do sofrimento”.

Essas são palavras poderosas para nossos tempos, úteis igualmente para não buddhistas, como para os sinceros seguidores do Buddha.

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5 Comments

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  1. 1
    Gabriel Mattos

    Olá! Belo artigo.

    Assino o blog por email e quase nunca passo por aqui. Mas se vale uma sugestão, o outro tema era (na minha humilde opinião) muito mais interessante para o blog. Era menos denso, mais fluido e voltado ao conteúdo. Esse é pesado, escuro, quadrado e pontiagudo demais… :)

    Grande abraço!
    Namastê!

  2. 2
    Joao Bissoto

    Belo texto! De fato, lutar contra nossas superstições é uma tarefa árdua, pois como disse, elas são colocadas em nosso inconsciente pela sociedade desde pequenos e se agregam a nossa necessidade de buscar um significado em algo maior. O comportamento supersticioso é observável inclusive em animais, quando se aplica o condicionamento de Pavlov, como já demonstrado exaustivamente pela nossa ciência moderna. Mas essa luta é necessária se buscamos uma felicidade verdadeiramente livre! Obrigado pelo seu texto!

    • 3
      Dhanapala

      Obrigado João Bissoto. É verdade que as superstições são colocadas em nossa mente já pela sociedade. Mas também devemos estar atentos àquelas que vêm pela própria religião. Ajahn Buddhadasa coloca muita ênfase nessa dimensão, primeiro porque via na Tailândia muito disso, e segundo porque temia estar vendo no Ocidente a mesma tendência. Obrigado por seu comentário.

  3. 4
    mary

    Muito bom, esse texto veio a calhar no momento exato, estava ainda hoje matutando o por que as vezes sou tão supersticiosa, preciso mesmo me livrar disso.
    Gosto muito desse site, estou tirando um grande proveito antes de dar as caras em alguma escola budista, principalmente pq não sei por qual começar.

    • 5
      Dhanapala

      Obrigado por seu comentário, Mary. Sim, não é fácil se livrar pois é algo que aprendemos desde pequenininhos, com escadas, gatos pretos, etc, e depois no sem número de pequenas obsessões e crendices que sem notar acreditamos.

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