A primeira nobre verdade

A primeira nobre verdade


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Sem sofrimento não crescemos.

É provável que antes de tomarmos conhecimento sobre de que de fato se trata o buddhismo, tenhamos nos sentido primeiramente atraídos por sua iconografia radiante e inspiradora, ou pela beleza e sabedoria de alguma passagem do Dharma do Abençoado – não raras vezes alguma erroneamente a Ele atribuída. Menos provável é que tenhamos contato já desde os primeiros momentos com a essência de seus ensinamentos: “o sofrimento e sua transformação”. Talvez essa seja uma “má notícia tardia” para alguns, mas muito além de mobília exótica, belas impressões ou poesia, está um caminho que em grande parte reflete abandono do mundano (ou no mínimo a sua relativização) e compreensão de que o que nos é mais caro é o que nos causará o maior lamento, se o apego não for trabalhado. Será que, a princípio, ao depositarmos nossa confiança no Abençoado, o fazemos com alguma esperança de que estaremos livres de todo o mal e que ficaremos imunes ao infortúnio? Será que pensamos o buddhismo como mais um amuleto, uma figa exótica, com a qual nada de mal nos ocorrerá?

O mestre Zen Thich Nhat Hanh em seu “A Essência dos Ensinamentos de Buda” (Editora Rocco), ao contrário dessa visão, diz que “Buda era um ser humano como você e eu e que sofreu como sofremos”. “Durante quarenta e cinco anos o Buda repetiu: O meu ensinamento é sobre o sofrimento e sua transformação.” “O sofrimento foi o meio que o Buda usou para libertar a si mesmo, e é também o meio pelo qual todos nós podemos nos libertar.” “Sem sofrimento não crescemos. Sem sofrimento não podemos obter a paz e a alegria que merecemos. Por favor, não fuja de seu sofrimento, mas acolha-o e dê-lhe o valor que ele merece. Vá até o Buda, sente-se com ele, e mostre-lhe sua dor. Ele o olhará com compaixão, bondade e atenção plena e lhe mostrará formas de acolher seu sofrimento e contemplá-lo com profundidade. Com entendimento e compaixão, você conseguirá curar as feridas de seu coração, e também as do mundo. O Buda chamou o sofrimento uma Verdade Sagrada, porque nosso sofrimento tem a capacidade de nos mostrar o caminho da liberação. Acolha seu sofrimento, e deixe que ele lhe mostre o caminho da paz.”

A essa altura, se contávamos colher apenas estados de bem-aventurança ao longo dessa caminhada, talvez as belas imagens e a poesia tenham perdido um pouco de seu brilho. Mas, se não olvidarmos nosso sofrimento, ao contrário, o descobrirmos como nobre e verdadeiro, talvez lancemos uma nova e ainda mais fulgurante luz sobre o que há de genuinamente belo no Caminho.

Organização: Rodrigo Daien

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