A mente aquisitiva

A mente aquisitiva


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Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação.

Na Escola Sōtō existem várias maneiras de escapar das armadilhas de uma mente aquisitiva. Nós naturalmente queremos adquirir coisas, até mesmo uma criança pequena já começa a dizer “É meu”.

No Zen tentamos desarmar essa mente que existe dentro do ser humano. Isso é um tanto difícil de detectar, pois fomos educados desde criança que egoísmo é feio, logo, as pessoas comportam-se como civilizadas. Porém quando temos um grande desastre natural como terremotos, por exemplo, a primeira coisa que surge são os saqueadores. Essas pessoas têm uma mente que deseja adquirir coisas para si, nem que isso implique em tirar dos outros.

Quando você se senta, tem um objetivo – obter algo para si, que pode ser paz no coração e na mente, serenidade e até mesmo adquirir as coisas que a gente imagina que um santo tenha. Porém essa ambição de conquistar algo pode ser muito forte e egoísta. É como trocar a ambição do ouro pela ambição da iluminação. Podemos até imaginar dois praticantes discutindo sobre quem é mais puro e quem é menos egoísta. Uma das formas que os mestres encontraram para resolver esse tipo de problema é fazer com que o aluno desenvolva o shikantaza, que é a maneira como sentamos que significa “apenas sentar”, não significa ir atrás da iluminação. Na realidade quando você se senta, já é paz e serenidade. Você está sentado como Buda. Sua mente sabe que não é verdade, por isso você deve imitar não somente a postura, mas também a fala de Buda. Alguém poderá dizer que imita a fala de Buda, não diz coisas insultuosas, não fala palavras de baixo calão, evita brincadeiras maliciosas e tenta ter a mente de Buda, mas sua mente continua pensando diferente. Mas se você praticar bastante, vai chegar o momento em que o pensamento vem e, se você não o expressa, ele perde a força de modo que um dia seus pensamentos mudam e não ocorrerão mais, e sem que você tivesse planejado, você é como Buda.

Nossa prática é imitar Buda sem ambicionar ser como Buda, porque isso também é querer algo para si mesmo, também é uma mente aquisitiva. Quem quer esse algo, não o consegue alcançar porque dentro dele existe o pensamento orgulhoso e materialista de querer ser especial. O melhor entre todos é aquele que não se vê especial. Em razão desse pensamento de que se sentar e praticar já seja a iluminação, algumas pessoas começaram a pensar que não precisam buscar a iluminação simplesmente pelo fato de estarem sentadas quietas e imóveis. Se você pensar que sentar-se, praticar cerimônias e comportar-se adequadamente no Dōjō já é suficiente, acabará se transformando num ator, uma pessoa que finge que é.

Uma vez em um teatro na Grécia, uma guia de turismo me disse que ator se diz “hipócrita” em grego, aquele que não é, mas finge ser. Na nossa prática, primeiro agimos como se fôssemos Buda, mas não se confunda, você ainda não é Buda. Dizemos que prática é iluminação como um truque para desarmar a mente aquisitiva, mas só fazer a prática ainda não é a iluminação. Esse engano está muito presente dentro de nossa própria ordem.

Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

Dōjō, “O lugar onde a iluminação é alcançada. Isto refere-se inicialmente ao chão debaixo da árvore bodhi, onde o Buda estava sentado no momento de alcançar sua plena iluminação (Skt. Bodhi-Manda); um lugar onde a prática religiosa é realizada, ou onde o Buda é adorado. Um lugar onde os preceitos são dados; um centro de prática.” Fonte: Digital Dictionary of Buddhism

Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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Organização: Rodrigo Daien

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