A Essência de Ser e de Estar

A Essência de Ser e de Estar


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Qual é a essência do budismo?
Qual benefício temporário e mais duradouro trará em minha vida?
Qual benefício tal prática pode oferecer ao mundo?

Lembro de meus primeiros contatos com o budismo em 1995, nos meus 14 anos de idade. Recordo de estar buscando paz e um próposito mais significativo para minha vida. No primeiro contato, gostei muito da energia das pessoas que se encontravam na meditação. Também fui tocado pela tranquilidade, pelo silêncio e pela energia transmitida através de preces e mantras. Quando ouvi pela primeira vez a visão budista sobre a vida, sobre a operação e natureza da mente indissociável de como eu concebia e experienciava minha existência, meu coração se abriu pela clareza, lógica e praticidade daquela visão. Fui inspirado a sentir que era possível transformar minha experiência condicionada e viver uma vida melhor, mais saudável, significativa e tranquila.

Porém, até hoje, depois de muitos anos estudando e contemplando o budismo, uma das reflexões que mais me chama a atenção é o que de fato ele tem a oferecer para melhorar minha vida e a de outros de forma eficaz, inteligente, verdadeira, de acordo com o meu contexto de vida, com minha caminhada e dificuldades como brasileiro como também a jornada e limitações de outros brasileiros que também buscam uma alternativa diferente do modelo de vida vigente. Até hoje venho tentando ajustar e adaptar as técnicas milenares do budismo ao meu contexto, a minha capacidade de entender e a cada experimento testando e observando os efeitos imediatos e graduais de tal cultivo, habituação e familiarização surgida através da aplicação de tais métodos.

Ao ler um pouco do que sabemos sobre a história de Siddharta, o Buddha Shakyamuni, que viveu em torno de 2500-2600 anos atrás, me parece que seu propósito de vida nunca estava separado dos seres ao seu redor, sempre presente, pronto para ajudar quem pedia sua ajuda, buscando tentar aliviar o mal-estar psicofísico daqueles que encontrava em seu caminho. No caminho dos Bodhisatvas, encontramos diversas histórias de yôguis de realização espiritual tomados por compaixão e amor pelos seres aspirando servir de qualquer ajuda as pessoas em necessidade. No capítulo 3 da ‘Introdução a Ação do Bodisatva’ de Shantideva, ele diz: “Possa eu ser  um guarda-costas para aqueles que precisam de um, possa eu ser um guia para aqueles que viajam em uma estrada, possa eu ser um barco, uma jangada ou uma ponte para todos aqueles que desejam cruzar as águas.”

Me parece que o budismo traz uma essência que não é dountrinária, que também não aspira produzir conclusões sobre as coisas para que outros tenham que aceitar e concordar. Essencialmente o Buddha viu que todos os seres estavam sujeitos ao nascimento, velhice, doença e morte, em seus vários níveis físicos e psiquicos, e o grande mal-estar que trazia esta existência condicionada as pessoas. Ele desejou pacificar isso em sua própria vida e na vida dos outros seres, iniciando pelo seu filho, sua esposa, seus pais, amigos e seu reino. Decidiu encontrar a solução para estas questões que fazem parte da vida de todos os seres.

No decorrer de sua busca foi observando a operação e natureza de sua mente. Encontrando os elementos internos que coloriam a vida gerando mal-estar ou bem-estar. Gradualmente foi descobrindo a raiz de todos os problemas fundada num equívoco de ver as coisas não como elas realmente são, mas através das lentes habituais que nos fazem conceber uma determinada realidade circundante e perceber um sujeito que experiencia tal realidade também de um jeito específico.

Percebi, ao longo de meus estudos e contemplações que a teoria sobre a visão e caminho proposto por Buddha, apesar de trazer  bençãos que abrem nosso coração a outras perspectivas, muitas vezes não foi capaz por si só de transformar minha mente, de sanar o problema desde sua raíz. Fui tentando buscar alternativas em métodos mais básicos, principalmente técnicas que diziam respeito ao trabalho com emoções e motivações e ao desenvolvimento de amor, compaixão, paciência, abertura, flexibilidade, compreensão e atenção. Percebi que apesar da importância que havia em direcionar estas qualidades aos outros seres, eu também deveria ser  incluído dentro do grupo daqueles que precisavam  receber atenção, cuidado, amor, compaixão, que desejava ser compreendido e de ter um espaço paciente que acolhesse meu próprio desenvolvimento gradual.

S.S. Gyalwang Drukpa, meu mestre, durante muito tempo, enfatizava dizendo em tibetano “Dangpo Randon Drub Na Jendon Drub Gui Rê” que significa “Se primeiro atinge-se o benefício para si então se realizará o benefício dos outros.” Num primeiro momento esta instrução me pareceu um tanto auto-centrada, egoísta. Porém, com o tempo, descobri que não existe um eu separado de um contexto de relações que incluem todos os seres e o universo inteiro, a tal da originação co-dependente que o budismo diz ser a essência de seu ensinamento. Também, que sem compreender a mim mesmo, sem ter paciência com meu desenvolvimento, limitações e dificuldades, não haverá espaço para expandir isso ao universo. Sem amar, ter compaixão, flexibilidade e abertura para trabalhar sem medo minhas próprias dificuldades internas, desequílibrios emocionais, instabilidade mental e incompreensões cognitivas, seria difícil para mim desenvolver o mesmo na direção dos seres ao meu redor.

Lembrei de um ensinamento que se conta sobre a história da vida do Buddha onde um professor ensinava seu aluno a tocar um instrumento de música. O mestre dizia: se você apertar de mais a corda ela arrebentará. Se você deixá-la muito frouxa não sairá som algum. Imediatamente pensei: qual o som que busco ouvir? Ah, gostaria muito de ouvir o som da iluminação soar de dentro do meu coração. O som da compreensão, do amor e da plenitude de ser e estar. Porém, percebi que diferentes mestres e praticantes desde Buddha até hoje demonstraram diferentes trajetos de vida e prática no caminho do Dharma. Me perguntei, então, qual seria a minha forma de praticar o Dharma para realizá-lo verdadeiramente. Fui percebendo que eu era um instrumento musical com suas especifidades, com sua própria afinação, diferente da do Buddha, de seus discípulos e dos muitos praticantes que se realizaram nos séculos que se passaram até hoje. Entendi que precisava encontrar minha própria afinação de acordo com as característica de meu instrumento. Que o ponto central não era o método ou forma de afinação proposta, mas o som da experiência do Dharma ecoando e vibrando em cada partícula de meu ser e, então, emanando naturalmente em direção ao  universo inteiro.

Portanto, o que é o budismo (ou melhor o Caminho do Despertar)? Qual é a sua essência?

Ainda estou em processo de descoberta. Porém, uma coisa tenho certeza: estará de acordo com o objetivo do Dharma do Buddha  aquele método que for capaz de soar a compreensão, o amor e o bem-estar genuínos. Que for capaz de fazer vibrar, em última instância, a verdadeira abertura, descontração, flexibilidade, paz e plenitude – a essência de ser e estar plenos, de ser e estar genuinamente acordado, desperto do sono da ignorância.

Lama Jigme Lhawang
Brasília, Distrito Federal.

 

 

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4 Comments

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  1. 1
    João Carlos

    Lama Jigme muito obrigado pelo seu texto, a comparação com instrumento musical vem de encontro com um sentimento meu, de que a forma e método auxiliam porém o mais importante é o resultado alcançado, ou seja, a melodia que amana de nossa alma.

    Que todos os Buddhas e Bodisatvas possam iluminar teu caminho !

  2. 2
    paulo, torres rs

    grato sou por sua esplanação, seu conhecimento individual é muito benéfico, o que faz cada ser resfrescar-se com suas palavras, e voltando o olhar o caminho que trilhamos com passos para o momento presente.

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