Os 7 Equivocos do Desenvolvimento Espiritual

Os 7 Equivocos do Desenvolvimento Espiritual


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Nossos juízos de valor, fundamentados na consciência egóica, são extremamente subjetivos. Vivemos evitando aqueles valores que nossa subjetividade vê como negativos e buscando aqueles vistos como positivos. É uma insaciabilidade que não hesita em usar até mesmo a religião. Podemos dizer que a situação confusa em que se encontra a religião hoje, expressa isso de forma eloqüente.

Quero agora expressar a vocês algumas palavras que eu conservo na memória há muitos anos. Ouvi-as do Mestre Tetsujo Fujiwara que aceitou o Budismo Shin a partir de seu encontro com o Mestre Haya Akegarasu. Ao ouvi-las, senti que com seu eco as escamas caíam de meus olhos. Estão divididas em sete itens:

  • Nós não podemos buscar a salvação em milagres.
  • Nós não podemos buscar a salvação num êxtase.
  • Nós não podemos buscar a salvação num estado de espírito.
  • Nós não podemos buscar a salvação no ato de suprir uma lacuna.
  • Nós não podemos buscar a salvação na remoção de um empecilho.
  • Nós não podemos buscar a salvação na reparação de falhas espirituais.
  • Nós não podemos buscar a salvação no aprimoramento da sociedade ou na revolução.

Esses sete itens são palavras sábias que expressam de maneira muito clara em que consiste a verdadeira salvação através do Nembutsu do Voto Original. Entretanto, nós não podemos deixar de nos preocuparmos com sete expressões contidas nesses itens, a saber: milagres, estado de espírito, suprimento de lacunas, remoção de empecilhos, reparação de falhas espirituais e aprimoramento da sociedade ou revolução. Isso porque essas sete coisas podem ser consideradas a imagem da salvação buscada por nós que vivemos segundo a consciência diferenciativa própria do ego. O que acham? Nossa maneira de viver não consistirá na busca da salvação nos milagres, no êxtase, num estado de espírito, no suprimento de uma lacuna, na remoção de um empecilho, na reparação de falhas espirituais e no aprimoramento da sociedade ou na revolução. Também penso que a situação da religião na sociedade de hoje esteja compreendida nessas sete coisas.

Não tenho tempo para discorrer sobre cada uma dessas sete coisas. Entretanto, sempre que nos defrontamos com coisas que ultrapassam nosso pensamento e nossas capacidades, não ficamos sonhando com milagres? Enquanto nossos apegos ilusórios forem semelhantes ao sentimento de um náufrago que se agarrará até numa palha para não se afogar, numerosas continuarão a ser as religiões que os prometem. Aquela seita japonesa, Om – A Verdade Suprema, que atraiu as atenções do mundo inteiro, não é uma exceção a essa regra. Ela fazia da pregação da obtenção de poderes sobrenaturais, a maneira de superar as condições em que vivem os jovens, ou seja, a inquietação, a insatisfação e a solidão. Esses milagres, vistos pelo reverso, não constituirão uma espécie de êxtase? Em torno de nós transbordam os êxtases que nos prometem a salvação na fuga da realidade cotidiana do pensar.

Quero me deter um pouco mais na atitude seguinte, aquela que busca a salvação em um estado de espírito. Existe uma tendência de encarar a religião do ponto de vista de um estado de espírito ou da reparação de falhas espirituais. Até mesmo nossa maneira de nos relacionarmos com o Budismo Shin não parece escapar a esta regra. Quando nos propomos a viver com sentimentos de gratidão, a agir sempre com a cabeça fria e a outras coisas semelhantes, estamos estabelecendo uma condição ideal à qual procuramos ir aproximando nosso eu. Ou então, nós nos relacionamos com ele na expectativa de ser possível nos tornarmos iguais a essa imagem ideal. O que vocês acham? Tal coisa ocorre quando, ao ouvir a doutrina, nós ficamos com a sensação de que entendemos alguma coisa. Entretanto, quando deixamos o local, tudo isso se evapora e não resta mais nada depois. Ao ocorrer isso, nós ficamos pensando que nosso aprendizado ou nosso empenho em ouvir é ainda insuficiente, que é preciso ouvir e aprender ainda mais para aprimorar nosso eu. Continuamos então a ouvir e temos a sensação de ter compreendido alguma coisa. Entretanto, ao deixar o local, estaremos novamente na mesma condição anterior. Nosso ouvir nada mais é, portanto, do que uma contínua repetição dessa mesma situação.

É certo que o Budismo nos fale do espírito. Mas, quando ouvimos falar nele, nós sempre o entendemos como o espírito que se contrapõe à matéria ou como a mente que se contrapõe à carne. É natural que entendamos assim. Entretanto, há aí um ponto muito importante: nunca devemos nos abster de nos interrogarmos sobre a substancialização da matéria e do espírito, enraizada em nosso inconsciente e sobre a cisão nela fundamentada. Ou seja, a compreensão da matéria e o espírito como existentes por si mesmos. Em suma, devemos sempre questionar nossa atitude em considerar matéria e espírito como coisas distintas. Se faltar esse questionamento à nossa valorização do espírito, esta se tornará extremamente idealista e ao espiritual só restará, então, uma função complementar, ainda que importante, do material.

Costuma-se criticar o momento atual dizendo que ele representa a prosperidade material e a ruína espiritual. Também se diz que o século XXI será o século do espírito. Caso tais pontos não forem devidamente aprofundados, poder-se-á acabar por dizer algo como: “não deu certo apelar para o espírito, voltemos à matéria”. Se o espírito desvinculado da matéria consistir desde o início num idealismo, a matéria desvinculada do espírito também o será. O espírito pregado pelo Budismo jamais é desvinculado da matéria. Da mesma forma, a matéria também jamais é desvinculada do espírito. Assim, o ser humano concreto, ou seja, este meu eu, só existe na não-separação entre matéria e espírito. Este ser humano concreto, este eu, é designado como espírito. Isso porque este eu é uma existência autoconsciente.

Isso quer dizer que a verdadeira salvação não deve ser buscada num espiritualismo que desvincula matéria e espírito, ou seja, em coisas como um estado de espírito, a reparação das falhas espirituais ou algum êxtase. Por outro lado, não é buscada num simples materialismo, como é o caso do suprimento de lacunas, da remoção de empecilhos, do aprimoramento da sociedade ou da revolução. Assim, o que o Budismo Shin nos ensina é a realidade de espírito inseparável da matéria e de uma matéria indissociável do espírito é “uma outra consciência” sempre a questionar os limites dessa realidade tal como ela se apresenta, ou seja, a conquista de nossa verdadeira autonomia como sujeitos.

O Mestre Shinran definiu essa conquista da autonomia como sujeito, como sendo a “Fé Correta” exposta no “Shôshinge” (Poema da Verdadeira Fé no Nembutsu), que entoamos hoje de manhã. Falando em “Fé Correta”, lembrei-me da seguinte frase: “Os inimigos da fé são o fanatismo e a crença superficial”.

A nós, seres humanos foi concedida a faculdade da razão. Entretanto, a fé não é um evento que ocorre ao nível da razão, ela é um acontecimento que transcende a razão.

Transcender a razão não significa ignorá-la. Se a proposta fosse ignorar a razão, nós não poderíamos acompanhá-la. Isso acarretaria uma deformação da fé, o que implicaria na deformação do próprio ser humano. É exatamente nesse nível que ocorre o chamado fanatismo. Trata-se de uma fé absolutizada que não admite questionamentos. Não existe nada mais terrível do que isso.

Entretanto, também não podemos nos apegar demasiadamente à razão. Se nos apegarmos exageradamente à razão, ficaremos aí retidos e teremos apenas um aprimoramento a nível educacional. Tal é o nível da crença superficial. A prova disso é que dela não nasce um verdadeiro empenho em buscar o Caminho.

A Fé Correta não permite, portanto, nem ignorar a razão nem se apegar demasiadamente a ela. Ignorar a razão significa deitar fora nossa natureza humana. Apegar-se a ela exageradamente, por sua vez, implica numa confiança excessiva na natureza humana. A tomada de refúgio no Dharma Verdadeiro, isto é, no NAMU-AMIDA-BUTSU, é a Fé Correta que nos adverte contra essas duas atitudes errôneas.

Quero deixar bem claro, para evitar mal-entendidos, que não considero desnecessário coisas como o aprimoramento social. Pelo contrário, o que estou querendo dizer é que sem uma autêntica conquista da autonomia como sujeito não existirá um verdadeiro aprimoramento. Não será isso verdade?

 

Rev. Yutai Ikeda

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