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    O corretivo

    Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros ‘devem’ agir, como os outros ‘devem’ ensinar – sempre tendemos a achar que ‘sabemos melhor’.

    O Budismo faz um diagnóstico da nossa “doença” espiritual e receita “remédios”. Enquanto que algumas terapias podem ser agradáveis (uma boa massagem, por exemplo), nem todos os tratamentos “médicos” são confortáveis – alguns tratamentos são extremamente desagradáveis e dolorosos (alguém afirmaria que passar por uma cirurgia seria algo “agradável”?). Tomamos os remédios e aceitamos os tratamentos porque desejamos nos curar das nossas enfermidades.

    Portanto, para avaliar aquilo que vemos no relacionamento de um professor com seus alunos, precisamos observar o resultado a médio/longo prazo, sem julgar por um único ou alguns poucos incidentes que possamos eventualmente testemunhar.

    Trata-se de uma verdade comum a todas as tradições espirituais. Não são nada infrequentes as situações em que um observador (visitante, simpatizante, aluno), ao assistir a alguma interação entre um professor e um de seus alunos, reage com “mil opiniões” a favor ou contra a atitude do professor ou do aluno.

    Às vezes, ao ver o professor agindo com firmeza com um aluno, o observador se assusta, ficando com medo de também ser tratado com a mesma firmeza (ou pior). Outras vezes, na mesma situação, se ofende, julgando que o professor é “agressivo”. Ou, vendo o professor tratando um aluno com delicadeza, carinho ou alegria, acusa-o de “favoritismo”, “complacência” ou “falta de seriedade”.

    Na verdade, geralmente, o observador está simplesmente projetando as suas próprias experiências de vida, interpretações, medos e opiniões. Todos nós temos uma tendência de achar que sabemos como os outros “devem” agir, como os outros “devem” ensinar – sempre tendemos a achar que “sabemos melhor”. Tiramos as nossas conclusões rapidamente, na hora – já “vimos tudo”, “já entendemos a situação”. Mas, para poder avaliar corretamente, é necessário considerarmos não somente um “incidente” isolado, mas todo o contexto e o histórico do relacionamento do professor com aquele aluno, bem como o andamento depois do “incidente” em questão. Mais ainda: é necessário libertarmo-nos dos nossos próprios condicionamentos, projeções e opiniões, abrindo o Olho da Sabedoria para saber enxergarmos além das aparências, e o Coração de Compaixão verdadeira, para que possamos compreender o coração do outro.

    O velho ditado aqui também vale: “Não julgue o livro pela capa”. O conteúdo do livro pode lhe surpreender.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

    Texto extraído e editado do blog de Isshin-sensei, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    A Ponte do Meio Balde

    Em Eihei-ji há uma pequena ponte sobre um riacho que se chama “Ponte do Meio Balde”, porque Dōgen ia até lá e recolhia um balde de água, cuja metade derramava de volta. Esse era um ensinamento seu, ele dizia que devemos sempre devolver uma parte. Ensinava, também, que se algo sobrasse da água usada, nunca deveria ser arremessado para longe, mas colocado, cuidadosamente, perto de nós, na terra.

    Esses pequenos gestos têm grande significado no Zen, pois contêm um grande ensinamento. Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência, por isso, em nossa prática quotidiana, em nossas pequenas ações diárias, devemos proceder da mesma forma. O Brasil é um país com abundância de recursos, proporcionalmente à sua população. Sempre pensamos que poderíamos abusar da natureza com grande largueza, e até hoje, muitas das cidades brasileiras não têm redes de esgoto; lançamos tudo nos rios, no mar, cortamos florestas, depredando, assim, a Terra. Destruímos nosso patrimônio, pois sempre tivemos, no Brasil, essa noção de que os recursos naturais nunca vão acabar. Assim, não nos importamos, porque se o lugar onde estivermos não nos servir mais, vamos adiante e usamos o que há em outro.

    Em relação aos animais, costumamos pensar, na nossa civilização, que eles não são seres dignos de respeito e que não têm sentimentos. Como exemplo de quão longe já chegou esse tipo de pensamento, há uma declaração de um general americano da guerra do Vietnã que ficou célebre, pois disse que “os orientais não dão o mesmo valor à vida que nós”, para justificar que não era muito importante se alguém morresse. Num famoso documentário, Corações e Mentes, aparece esse general fazendo essa declaração, e em vez de algo ser dito, vemos a imagem de uma mãe vietnamita chorando a morte do filho. Se tal declaração nos parece hoje absurda, quanto aos animais estamos bastante convictos de que não possuem sentimentos da mesma forma que nós.

    Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência.

    Caiu-me nas mãos um livro que se chama A Era da Empatia. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Segundo esse livro, experimentos com animais começam a demonstrar cabalmente o contrário. Em uma destas experiências, é colocado um rato numa pequena gaiola onde, para comer, tem que apertar uma pequena alavanca. Uma vez que esteja condicionado a isso, é colocada junto à gaiola dele uma gaiola com outro rato ligado a fios. Cada vez que o primeiro rato aciona a alavanca para pegar comida, o segundo rato recebe um choque e grita de dor. Ao perceber que, para comer, o outro tem que sentir dor, o rato para de se alimentar. Isso significa que ele se importa, de alguma maneira, com a dor do outro.

    Os primatas têm comportamento assim também. Muitas vezes foram registrados atos altruístas, não somente com relação a seus companheiros de espécie, mas, também, com relação a outros seres, como no caso de um chimpanzé que foi observado pegando um pássaro caído, colocando-o num galho de árvore e abrindo suas asas. O que significa isso? Ele sabe que se trata de um pássaro e sabe como esse animal se comporta. Há, portanto, registros de animais salvando vidas de outros animais e de seres humanos, às vezes até com sacrifício da sua própria vida. Isso indica que nós não somos tão especiais em termos de sentimentos e que não podemos dizer que os outros não têm os mesmos sentimentos ou que não sofrem como nós. Se até os animais têm comportamento de empatia, solidariedade e consolo, sendo capazes de consolar os que sofrem, não é surpreendente que os seres humanos tenham desenvolvido esse tipo de comportamento.

    Todas essas histórias, desde a da Ponte do Meio Balde até a dos chimpanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e à sua vida no mundo.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Armadilhas da nossa prática (5)

    (continuação da 4ª parte)
    Foi num seminário do B. Alan Wallace, que tive a oportunidade de assistir no CEBB como “mestra convidada” (e deixo aqui os meus agradecimentos), que ouvi uma descrição de um fenômeno que já havia notado no Zen, mas sobre o qual não havia (até então) conseguido encontrar nenhum comentário ou material escrito. Confesso que fiquei muito feliz de finalmente receber uma confirmação da minha percepção, junto com uma verbalização mais explícita sobre o tema.

    Neste seminário ele falou sobre o texto “Vajra Essence” (ainda não publicado em português), de seu mestre Dudjom Lingpa. No livro “Stilling the Mind: Shamatha Teachings from Dudjom Lingpa’s Vajra Essence”, ele apresenta este texto com amplos comentários e explicações. Num dos capítulos, ele transmite uma lista de 26 nyams do Budismo Tibetano, como ensinados pelo seu mestre.

    Não sou especialista no Budismo Tibetano e por isso, prefiro deixar aqui somente algumas pinceladas, deixando para os interessados que desejam se aprofundar no assunto e que leem o inglês buscar mais informações no livro do Prof. Wallace.

    Vamos investigar alguns destes nyams, com os meus comentários:

      A sensação de bem-aventurança e êxtase de que a quietude mental é prazerosa, mas de que o movimento é doloroso.

    Como comentado nos artigos anteriores, há um grande risco de se apegar ao prazer da bem-aventurança e êxtase e ficar preso neste ponto, sem realmente continuar se aprofundando na meditação até alcançar a essência do ser.

      Uma inexplicável sensação de paranoia ao encontrar outras pessoas, visitar suas casas ou estar na cidade. Infelicidade tão insuportável que você é levado a pensar que seu coração vai explodir.

    O aprofundamento na meditação naturalmente afrouxa as nossas resistências internas e medos, raivas e traumas não resolvidos podem vir à tona. Quando isto acontecer, é importante manter a tranquilidade, acolher esta energia e deixá-la fluir e se transformar naturalmente, sem apegar-se a ela e nem reprimi-la novamente. Deixe vir e deixe ir como uma nuvem no céu.

      A convicção de que há algum significado especial em todos os sons externos que você ouve e nas formas que você vê, pensando: “Isso deve ser um sinal ou presságio para mim”, compulsivamente especulando sobre o cantar dos pássaros e sobre tudo mais que você vê e sente.

    As Sereias gregas estão aparecendo para lhe seduzir… cuidado!

      A sensação de que sons externos e as vozes dos seres humanos, cães, pássaros e assim por diante perfuram o seu coração como espinho.

    Ficamos perceptivelmente mais sensíveis à medida que a mente se aquieta. Consequentemente, os sons podem parecer agulhas e o movimento mais leve da respiração pode parecer um terremoto.

    Finalmente, ainda falando da visão do Budismo Tibetano, temos a armadilha do “materialismo espiritual”, onde o ego converte a espiritualidade para o seu uso próprio, um tópico tratado de uma forma brilhante pelo Chogyam Trungpa Rinpoche no livro “Além do Materialismo Espiritual”.

    Nos próximos artigos, vou falar sobre as Armadilhas da Prática/Sinais de Progresso no Zen.

    O livro de B. Alan Wallace, “Stilling the Mind: Shamatha Teachings from Dudjom Lingpa’s Vajra Essence”, pode ser adquirido em edição eletrônica ou impressa.

    Isshin-sensei é missionária internacional da Sōtō Zen e orientadora da sangha Águas da Compaixão.

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    Organização: Rodrigo Daien

  • Zen

    Não há ninguém lá fora

    Estava fazendo um zazenkai em Maringá semana passada e uma senhora disse que era inaceitável que disséssemos no Zen que não havia ninguém lá fora para nos ajudar. Eu a compreendo, é realmente muito difícil de aceitar essa postura, mas para o Zen, só podemos contar com nós mesmos.

    Mas somos imensamente poderosos no sentido de que podemos construir nosso próprio futuro, podemos alterar nosso carma e um homem pode provocar tremendas mudanças no mundo. Ela insistiu com sua indignação citando os arcanjos e anjos.

    Se houvesse alguém que tivesse o poder de ajudar, tivesse compaixão, fosse bondoso e tivesse sabedoria para ajudar, por que ele esperaria você pedir? Eu imagino que se meu filho caísse, não esperaria que ele me implorasse ajuda. Algum de vocês faria isso, algum de vocês diria que só ajudaria se lhe fosse pedido? Alguém diria para seu filho caído: “Se eu ajudar você, você promete se comportar e estudar?”; “Ajudo só se você pedir com fé”?

    Se Buda tivesse o poder de nos ajudar, não precisaríamos pedir para ele, já estaria nos ajudando. Alguém que desenvolveu compaixão não espera; então, imaginarmos que existam seres de sabedoria e bondosos lá fora a quem precisamos orar ou pagar para que nos ajudem é uma tolice nossa.

    Não parece que é assim que o Universo funciona; ele funciona com ações e consequências. Fazemos coisas e obtemos resultados. Orar é algo bom, pois as pessoas que oram constroem mentes melhores e criam modificações. Não somos Zen-Budistas para acreditar ou pedir algo para alguém, por isso sentamos, e sentar é muito difícil. Tratamos de cuidar de nossas mentes para que elas sejam melhores, mais sábias, com mais clareza e lucidez, sem se agarrar a fantasias. A tarefa dos Mestres é destruir as crenças e fantasias, desconstruir e tirar tudo a que as pessoas possam se agarrar. Só assim os seres poderão ser livres. Por isso Buda disse: “Não acreditem em mim, testem e experimentem”. Vocês podem mudar suas mentes através da prática, mas não podem mudar o mundo através do “esperar que poderes sobrenaturais os socorram”.

    O ensinamento Zen é terrível porque as pessoas procuram consolo nas religiões e o Budismo não oferece consolo. Quando uma mulher foi até Buda com um filho morto no colo pedindo a Buda que o ressuscitasse, Buda disse que o faria desde que ela lhe trouxesse um grão de mostarda de uma casa em cuja família nunca tivesse morrido ninguém. Desta forma ele ensinou que o sofrimento faz parte do mundo.

    Para o Zen, só podemos contar com nós mesmos.

    Autor: Reverendo Meihō Genshō, discípulo e sucessor de Saikawa Rōshi (atual Sōkan da América do Sul), dirige a Comunidade Zen-budista de Florianópolis e grupos relacionados em vários estados brasileiros.

    Este texto foi extraído e editado do portal zen-budista Daissen, mediante autorização.

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    Organização: Rodrigo Daien