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  • Zen

    Cerimônia é mera formalidade?

    É visível que boa parte dos recém-chegados à prática zen (e imagino que nas outras escolas buddhistas o mesmo se verifique) sente-se desconfortável com o seu cerimonial. Muitos jamais estiveram em um templo, igreja ou sinagoga, ou deles se afastaram há muitos anos exatamente por rejeitarem sua formalidade e podem concluir apressadamente que tantas minúcias são naturalmente secundárias e dispensáveis. Talvez alguns tenham alguma leitura dos ensinamentos onde se vê que o apego aos rituais é um obstáculo. Certamente, apegar-se a o que quer que seja não é o caso, pois como dizia mestre Shunryu Suzuki, podemos nos tornar “escravos do Dharma”. Mas será que a atitude diametralmente inversa é que seria a adequada? Nesse sentido, segue um ensinamento do mestre zen Taizan Maezumi, extraído de “Ensinamentos da Grande Montanha”, editora Religare, que pode nos ajudar a ter uma ideia mais equilibrada a respeito do ritual no zen.

    “Eu aprecio que vocês prefiram sentar-se de uma maneira mais tradicional aqui. É uma parte importante da nossa prática, não é? No nosso Centro em Los Angeles, alguns sentam-se vestindo até calças curtas e camisetas. A parte fascinante é que eles não parecem ter nenhum senso de – não sei como dizê-lo – respeito por si mesmos!

    E isso é algo que eu gostaria de compartilhar com vocês. Logo antes de ir para o Japão, eu chequei a palavra “cerimônia” e descobri uma coisa muito interessante. A implicação etimológica da palavra é curar, cura, algo relacionado à ordem, ordem ou forma.

    Em outras palavras, quando cuidamos das coisas de uma certa maneira cerimonial, ordenada, isso em si mesmo é uma cura ou reparo de algum tipo de desordem. Então isso realmente me atingiu.

    Os americanos gostam de cuidar das coisas de uma maneira assim chamada informal – ou seja, de um modo solto. Mas facilmente a coisa fica desordenada. Se todo mundo começar a fazer as coisas informalmente e ignorando um tipo de ordem e unidade, o que vai acontecer? É uma bagunça!

    Infelizmente, isso acontece de fato numa base individual, na família, e na sociedade. Liberdade não significa necessariamente ser casual. Falta de formalidade pode facilmente escorregar para falta de ordem – fisicamente, mentalmente, emocionalmente. Um senso de ordem, formalidade e unidade tem uma função curativa – é saudável. Quando isso é esquecido, nós nos tornamos desorganizados, doentes. O corpo físico, a mente e nossas emoções são todos juntos uma única coisa. Quando você fica emocionalmente aborrecido, fica fisicamente doente e vice-versa.

    Então, não temos que pensar sobre a formalidade como algo que está do lado de fora de nós mesmos. Não está! Cerimônia significa fazer as coisas ordenadamente, cuidar das coisas de uma maneira saudável. É um processo de cura em si mesmo”. Segue um vídeo que também trata do assunto e certamente lançará mais luz sobre o tema.

    Gasshō

    Imagem: Comunidad Sōtō Zen de Chile

    Organização: Rodrigo Daien

  • Terra Pura

    Pensamentos Para o Ano Novo

    Shinnen akemashite omedeto gozaimasu. Em japonês “Feliz Ano Novo”. Significa literalmente, congratulações por um novo ano que se “abre”.

    Algumas pessoas dizem que enviar cartões desejando Feliz Ano Novo é uma simples formalidade. Para mim, não é uma formalidade. É uma ocasião importante e oportuna para cumprimentar muitos amigos. Para mim, é uma época muito feliz. Tenho negligenciado muitos amigos durante o ano, sem lhes escrever ou telefonar, e gostaria de visitá-los pelo menos uma vez, no Ano Novo, para dizer olá ou enviar cumprimentos a fim de que eles saibam que estamos todos bem.

    Muitas pessoas ma mandam cartões. Cada cartão traz um cumprimento agradável e é realmente uma alegria recebê-los. Há pessoas que avisam que se mudaram e outros informam mais um nascimento na família ou a perda de um ente querido. Este ano enviei mais de mil cartões. Embora minha filha tenha me ajudado, dei a cada um deles tanta atenção como se estivesse visitando meus amigos pessoalmente. Meu pensamento estava com eles. É uma época maravilhosa, uma ocasião excelente para se enviar cartões de saudação.

    O Ano Novo só chega para aqueles que lhe dão as boas-vindas. Afinal de contas, somos nós que fazemos um novo ano. Ele está na nossa cultura; está na nossa mente. Existem diferentes Anos Novos, tal como o Ano Novo chinês e o Ano Novo Judaico, cada um de acordo com suas próprias tradições. A menos que nós o criemos, o Ano Novo não existe. Não acho que exista um Ano Novo na vida de um cachorro. Por isso, não devemos assumir que o Ano Novo é uma simples formalidade. Devemos fazer dele um novo ano, fazer dele uma coisa importante.

    Hoje em dia, estou muito sensível à cordialidade. Houve épocas em que me sensibilizei com a justiça; outras, em que eu era sensível à razão e à racionalidade, e, às vezes, pensei em dinheiro e saúde. Estas coisas são importantes, disso não há a menor dúvida. Mas, hoje, sinto um anseio profundo pela cordialidade da vida. Este ano, meus dois poemas de Ano Novo são:

    Com um coração cordial,
    junto às pessoas
    eu seguirei em frente
    Ah, este bom ano
    Mais que o dinheiro, mais que a razão,
    mais que tudo nesta vida,
    como anseio por um cordial coração humano!

    É a cordialidade que faz a vida desabrochar. O falecido Dr. Kuki disse certa vez que se tornou budista porque a vida de um budista é cheia de cordialidade. Quando leio os relatos e ensinamentos de Buda Gautama,vejo que mais pessoas se tornaram seus discípulos por causa de sua profunda compreensão e cordialidade do que por sua lógica ou racionalidade convincentes. É por isso que não existem missionários propagando o budismo. O mais importante é que cada budista viva sua boa vida budista.

    Outro pensamento para o Ano Novo é o caminho do “deixar ir”, do desapego. Agarramo-nos demais a muitas coisas. Criamos dificuldades, tensões e problemas porque somos muito possessivos e apegados. Precisamos aprender a doutrina do desapego e do “deixar ir”. “Deixar ir” não quer dizer descuido ou negligência, assim como desapego não quer dizer indiferença ou distanciamento. É apenas libertar-se dos apegos e da possessividade.

    Quando você fizer alguma coisa, faça-a com todas as suas forças. Ponha a sua vida nela. Mas não a possua nem se deixe possuir por ela. Não se agarre a ela. Quando ela estiver concluída, deixe-a ir.

    Muitas mães matam seu filho único por causa de um amor aferrado ou possessivo. A mãe deve deixar o filho ir quando ele estiver crescido, assim como os filhotes são afastados pela mãe leoa. Os amantes devem amar, mas não ser proprietários um do outro; quando o amor se transforma em propriedade, está arruinado. O dinheiro é uma coisa maravilhosa e muito importante na vida moderna, mas, quando um indivíduo se agarra a ele, torna-se avarento; e quando se está possuído pelo dinheiro, não existe vida. Se nos agarramos à oposição, ela se transforma em raiva. Se nos agarramos ao bem-estar, ele se transforma em avidez.

    É muito fácil aferrar-se às palavras e ações que os outros disseram e fizeram no passado; com isso criamos problemas. Agarramo-nos ao passado e negligenciamos o presente. O mundo e a vida estão continuamente mudando; e assim, em vez de nos apegar ao passado, devemos viver uma vida nova e revigorada a cada dia. E tampouco devemos nos agarrar ao futuro e negligenciar o presente, porque o futuro é desconhecido e ainda está por vir. Devemos viver o máximo no presente.

    Em última análise, todas as coisas neste mundo e nesta vida surgem e se vão à vontade delas. Permita que o Caminho dirija os caminhos e deixe ir seus próprios apegos. Esta é a maior das libertações. Nem mesmo à vida devemos nos apegar, mas deixá-la ir e então seremos capazes de viver livremente. Muitas mortes foram transcendidas pelo desapego.

    Estes são os meus pensamentos para o Ano Novo.

    Rev. Gyomay Kubose ( do livro BUDISMO ESSENCIAL – A Arte de Viver o Dia-a-Dia)